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‘Era duro, cruel, mas não uma figura abusiva’

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julho 23, 2025
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‘Um lobo entre os cisnes’: Darío Grandinetti, o mentor, e Matheus Abreu, que interpreta Thiago Soares — Foto: Divulgação/Lucas Sadalla

“Todos temos algo dentro de nós que não tem nome. Isso é o que somos”, diz um dos personagens do romance “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago (1922-2010). A citação extraída do clássico do escritor português que desnuda a ambiguidade da natureza humana é lembrada por Darío Grandinetti para explicar seu interesse por personagens de comportamento dúbio, tão comuns em sua filmografia. Como Dino Carrera (1948-2006), coreógrafo cubano e mentor profissional de Thiago Soares em “Um lobo entre os cisnes”, cinebiografia do premiado bailarino carioca, que chega nesta quinta (31) aos cinemas brasileiros.

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— Não é uma frase genial? Cada um de nós é um mistério a ser descoberto — explicou o premiado ator argentino de 66 anos durante o Festival de Cinema Brasileiro de Paris, em abril, onde o longa-metragem de Marcos Schechtman e Helen Varvak ganhou première francesa.

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Como lembra “Um lobo entre os cisnes”, Carrera teve papel fundamental na transformação de Thiago, um jovem dançarino de hip-hop em bairros da Zona Norte cariocas, nos anos 1990, em estrela do balé clássico nacional e mundial: o brasileiro ocupou o posto de primeiro-bailarino do Royal Ballet de Londres por 14 anos. Foi o cubano, conhecido por seu rigor na forma de lidar com seus alunos, que conseguiu domesticar o espírito indisciplinado e rebelde de Thiago e lhe revelar seu talento para a dança. Carrera foi Conselheiro Nacional de Incentivo à Cultura (Cnic) e chegou a ser vice-presidente do Conselho Nacional de Dança.

— Carrera construiu Thiago, viu algo nele que nem ele mesmo conseguia. Era duro, cruel, mas não uma figura abusiva. Soube contornar os preconceitos do rapaz e fazê-lo enxergar seu potencial. Era um homem honesto, nobre, que dava conta de sua homossexualidade de forma discreta, e até por isso poderíamos pensar que estivesse enamorado de Thiago. Mas esse não era o ponto a ser julgado, nunca iremos saber — contou o argentino, que estreou no cinema com “Dar-se conta” (1984). — Gosto da relação entre respeito e admiração que se constrói entre eles. Histórias entre mestres e pupilos da arte são fantásticas.

‘Um lobo entre os cisnes’: Darío Grandinetti, o mentor, e Matheus Abreu, que interpreta Thiago Soares — Foto: Divulgação/Lucas Sadalla

Embora creditado como coprotagonista do longa, Grandinetti venceu o prêmio de melhor ator coadjuvante na 34ª edição do Cine Ceará, ano passado — “Um lobo entre os cisnes” também faturou os troféus de melhor ator (Matheus Abreu, que interpreta Thiago Soares) e melhor direção de arte (Dina Salem Levy) da mostra cearense. A honraria vem se somar a outras, como o prêmio de interpretação masculina do Festival de Havana, por “O lado escuro do coração” (1992), de Eliseo Subiela, com o qual repetiria o feito no ano seguinte no Festival de Gramado, e o Emmy Internacional, por sua atuação na série “Televisión por la inclusión” (2012).

Mas foi “Fale com ela” (2002), de Pedro Almodóvar, vencedor do Globo de Ouro de filme internacional e do Oscar de roteiro, que abriu novas fronteiras para o argentino. Grandinetti brinca que já estava velho demais para se tornar um dos chicos de Almodóvar (“Eu já era pai, tinha três filhos, não tinha idade para ser chico de ninguém”, ri), mas acabaria voltando a trabalhar com o espanhol em “Julieta” (2016), ao lado de Adriana Ugarte e Emma Suárez. O primeiro encontro com o célebre realizador de La Mancha aconteceu durante as filmagens de “O lado escuro do coração 2” (2001), em Barcelona.

— Minha agente disse que Almodóvar estava conversando com atores sobre o próximo filme, soube que eu estava na Espanha e quis me conhecer. Primeiro, duvidei: ele ia começar a filmar e ainda não tinha um ator para o papel protagonista? Não fazia sentido — conta o ator, que estreou no cinema brasileiro com “Bodas de papel” (2008), de André Sturm, contracenando com Walmor Chagas e Cleyde Yáconis. — Estávamos trabalhando muito intensamente, quase não tinha dia livre. Hesitei. Mas aí me mandaram o roteiro de “Fale com ela”. Não dava para duvidar mais. Decidi encontrá-lo em Madri. Até porque era uma história que me encantava, a de dois homens que cuidam das respectivas mulheres em coma, sobre os quais pairam grandes dúvidas.

Darío Grandinetti (à direita) em cena de'Fale com ela', filme de Pedro Almodóvar — Foto: Divulgação
Darío Grandinetti (à direita) em cena de ‘Fale com ela’, filme de Pedro Almodóvar — Foto: Divulgação

Grandinetti diz que sempre teve carinho especial por Oliverio, o poeta de “O lado escuro do coração”, mas admite que “a pessoa mais importante que já encarnou” talvez tenha sido Jorge Mario Bergoglio, o protagonista de “Papa Francisco, conquistando corações” (2015), cinebiografia do padre argentino escolhido para ocupar o posto de líder da Igreja Católica em 2013, morto em abril deste ano, aos 88 anos. O ator afirma que não é religioso e aceitou fazer o filme por “ideologia, porque Bergoglio, apesar dos acenos à direita, era um peronista, verdadeiramente preocupado com a população carente”.

— Jorge era, antes de tudo, um político, preocupado com a política evangélica voltada para os pobres — pondera o ator. — Foi uma morte a se lamentar, por causa do que ele representou politicamente. Tê-lo à frente do Vaticano, como um homem que se ocupava dos pobres, se preocupava com as guerras, o neoliberalismo, a fabricação de armas, foi muito importante para o mundo. Inclusive para nós, que não somos crentes, religiosos. Aprendi muito sobre a vida e o cotidiano dele como pregador, e senti que o entendia, apesar de não entender que alguém possa estar a serviço de um deus, de uma Igreja.

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Assim como Thiago Soares no balé, Grandinetti descobriu sua vocação para a atuação com ajuda de terceiros. Na adolescência, seu sonho era virar jogador de futebol profissional. Já usava o escudo da divisão de juniors do Newell’s Old Boys, centenário clube de futebol de sua cidade natal, Rosário, quando uma amiga insistiu para que ele se juntasse ao grupo de teatro do qual participava. A justificativa era simples: só havia mulheres no grupo, e precisavam de alunos do sexo masculino.

— Havia sinais sobre minha inclinação para as artes, mas eu não dava conta. Cantava nas festas e participava dos esquetes da escola porque tinha boa voz, mas nada nem ninguém me dizia que eu acabaria cantando ou atuando profissionalmente. Mas, uma vez entrando para o grupo de teatro, mesmo que não pensando em nada sério, acabei conquistado rapidamente. Tanto que, pouco tempo depois, fui convidado por um clube de futebol e não aceitei. Acho que vi que não teria grande futuro também nos campos — contou o ator, que interpretou o jogador argentino César Luis Menotti na minissérie de TV “Maradona — Conquista de um sonho” (2021).

Grandinetti subiu num palco profissional pela primeira vez aos 17 anos, em 1976, com uma montagem de “Tartufo”, de Molière. A estreia aconteceu em meio ao clima de agitação social e política: dois meses antes um golpe de Estado havia colocado o general Jorge Videla na presidência da Argentina.

— A gente morava em Rosário, e não na capital, Buenos Aires, então, eu e meus companheiros não tínhamos ideia do que estava acontecendo. Mas as histórias de repressão começaram a chegar e eu, a ficar preocupado. Depois me dei conta de que nossas atividades e nossos passos haviam sido vigiados de perto, e não havíamos percebido — conta Grandinetti, que usou os galões do general e ex-presidente argentino Juan Domingos Perón (1895-1974) na minissérie “Santa Evita” (2022). — Foi um período complicado, onde todos desconfiavam de todos. A gente tinha cuidado com o que falava e com quem falava, porque todo cuidado era pouco.

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A mudança para Buenos Aires ampliou as possibilidades para o então jovem ator, que logo começou a receber convites para a TV e, posteriormente, o cinema. Aos poucos, foi aperfeiçoando o gosto por tipos nem necessariamente heroicos, nem claramente vilânicos, como o músico que reúne seus desafetos num mesmo voo de avião, no explosivo “Relatos selvagens” (2014), de Damián Szifrón, ou o premiado escritor de moral duvidosa do thriller “Nina” (2024), de Andrea Jaurrieta. Este último envolve um tema oportuno em nossos dias: o abuso sexual.

— Pedro, meu personagem nesse filme, é um homem que usa sua posição de poder intelectual para seduzir jovens. É uma forma mais sutil de sedução, mas não menos asquerosa, e é importante que se fale sobre isso porque na maioria das vezes os abusos são cometidos por pessoas ditas honradas — diz Grandinetti. — Sempre gostei de tipos ambíguos, porque são mais atraentes, complexos, nem bons, nem maus. Não preciso entendê-los, nem julgá-los, para poder interpretá-los. Depois a vida é que os julgam, encontra um destino para eles. A conclusão é de Deus. (risos)

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