Boas e más fases são naturais no futebol. É comum que qualquer time passe por dois, três ou quatro jogos em que a “bola não quer entrar”. Parece ser parte do que o Vasco está vivendo no momento, numa sequência de quatro jogos sem vencer, com os dois últimos marcados por volume de jogo e finalizações cruz-maltinas em profusão. Mas o momento, que piorou após o empate em 1 a 1 (5 a 1 para os equatorianos no agregado) com o Independiente del Valle, na noite de terça-feira, que eliminou o time da Copa Sul-Americana, tem raízes fora do campo.
Na entrevista coletiva após a partida, o técnico Fernando Diniz foi sincero e falou novamente, com todas as letras, que o clube não tem dinheiro para fazer grandes contratações. A austeridade financeira é uma marca da gestão Pedrinho, que assumiu um futebol com cofres combalidos após o afastamento da 777 Partners, implementou uma recuperação judicial e se apoia na responsabilidade nas contas. Mas se o presidente, ídolo do clube, foi alvo de xingamentos na Colina, é porque o futebol tem seus preços. Não só em dinheiro.
“A gente tentou contratar o Hinestroza. Vocês sabem, extremos, a gente indica. Começou a Libertadores e eu já estava mapeando jogadores com a equipe de scout. O Hinestroza era o primeiro nome que vinha a cabeça. Tentamos outros extremos que vinham jogando fora do Brasil, no México… mas os valores eram 10, 11, 8 milhões de euros. E não temos condições. Para a gente contratar, é mais difícil. Vamos arriscar e esperar que dê certo. Como o Nuno (Moreira), por exemplo, veio num pacote, ninguém conhecia e está dando retorno técnico. Esperamos conseguir alguns nomes para encorpar um pouco mais o elenco. Mas não é fácil”, lamentou Diniz.
A maior parte dos torcedores sonha com uma revenda da SAF do clube, envolvida em imbróglio jurídico com a antiga controladora. Enquanto isso não acontece, cada momento de sofrimento, cada revés com placares elásticos e cada eliminação, especialmente em competições vista como boas chances de título, como a Sul-Americana, vão pesar na avaliação. Pedir paciência é impossível dadas as duas últimas décadas do clube, então é preciso ser certeiro na montagem do elenco e do projeto de futebol. Uma tarefa nada fácil, mas quase obrigatória no Vasco, pelo contexto. Agora, a cargo do diretor executivo português Admar Lopes, que substituiu Marcelo Sant’Ana no meio da temporada.
Hoje, o clube tem uma lista de atletas subutilizados, como Pumita Rodríguez, Mauricio Lemos, Lucas Oliveira, Sforza e Jean David. Alguns deles são atletas de alto custo e outros já estão à disposição do mercado, mas até aqui, o clube segue sem conseguir fazer movimentos de saída e economia. Do outro lado da balança, a chegada de novos jogadores é lenta. Até aqui, apenas o volante Thiago Mendes foi contratado.
A dez dias do fim da janela de transferências, o Vasco ainda busca um zagueiro e um atacante de lado de campo. Faz de tudo para minimizar os riscos, como explicou Diniz. Mas nem sempre é possível escapar deles: assim como o que acontece em campo, os médios e altos riscos financeiros na gestão são inerentes ao esporte, e precisam ser encarados por um clube que almeja algo diferente de lutar contra o rebaixamento no Brasileirão, algo desastroso financeiramente.
Os reforços fazem falta. Nitidamente, a equipe sente falta de opções mais jovens, capazes de alterar a dinâmica e o ritmo de jogo no meio e no ataque. Também carece de atletas que possam quebrar linhas, um tempero necessário a um sistema ofensivo previsível. Resolver crises esportivas “de momento” com as mesmas as peças é bem mais complicado. É o que Diniz tentará fazer numa complicada sequência difícil de três jogos consecutivos fora de casa: Internacional, CSA (Copa do Brasil) e Mirassol.
“A gente está corrigindo o time em tudo que é possível, mas sempre o adversário vai ter uma ou duas chances. E se a bola entrar, o que a gente vai fazer? O futebol é um esporte que você não tem controle de nada. A gente consegue só aumentar as nossas possibilidades de vencer”, argumentou o treinador.
Se conseguir reverter a má fase e o desgaste que seu trabalho já vem sofrendo, Diniz resolve a parte mais prática e importante da crise do Vasco. Ainda assim, é preciso acertar fora de campo para que tudo que aconteça nele não fique dez vezes pior.