Um dos aspectos mais sombrios das distopias é a rapidez com que as sociedades passam a ajustar suas expectativas e reações a partir dos seus novos parâmetros, até a véspera inconcebíveis. É graças a essa característica que se assistiu às reações de alívio (!) diante das exceções anunciadas junto com o tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos. Sendo que a decretação de tarifas, contra o Brasil e os demais países, de forma absolutamente arbitrária e aleatória, mergulha o comércio global numa era de incerteza e primarismo que revoga a lógica, a racionalidade e qualquer previsibilidade.
O mundo está, sob Donald Trump, com uma espada permanentemente apontada sobre sua cabeça, e ela pode ser baixada nos mais variados temas, a depender de se o presidente americano gosta ou não gosta de uma gama de assuntos ilimitada — mesmo os que dizem respeito à soberania de países democráticos.
A gravidade é imensa, portanto, e não é possível minimizar os efeitos nem do tarifaço nem do uso truculento e subvertido da Lei Magnitsky para atingir um integrante da mais alta Corte de Justiça brasileira, Alexandre de Moraes, só porque ele não tem bens nos Estados Unidos nem visita a Disney com frequência.
Fazer esse estranho “jogo do contente” diante de um avanço coordenado e tão ousado sobre os interesses brasileiros é aceitar a ideia de que Trump tem jurisdição e mandato para reformar as relações globais ao seu bel-prazer.

A reação que se espera do governo e do Judiciário brasileiro é a reafirmação permanente, inequívoca e altiva da soberania nacional e do quão violenta e inaudita é a forma como Trump ataca o Brasil sem nenhuma violação às regras de comércio, a direitos humanos ou ao Direito Internacional.
Nesse sentido, o governo Lula deveria ser rápido no anúncio das medidas para fazer frente ao tarifaço, sem esperar novas e até mesmo prováveis exceções à lista. O café pode ser excluído dos produtos que pagarão 50%? Sim, é essa a expectativa dos especialistas, mas ao governo cabe ir ao socorro de um dos principais setores da nossa economia de imediato, ainda que não seja necessário lançar mão das medidas no fim do dia.
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Essa resposta firme aumenta o poder de negociação do Brasil e subverte o efeito que Trump espera (e tem conseguido obter) quando ameaça na base da roleta-russa países ou blocos inteiros: que eles venham com o rabo entre as pernas entregando até mesmo concessões que ele não pediu.
A capitulação que se vê à fixação da chantagem como instrumento oficial de política externa é o que de pior pode advir dessa quadra sinistra pela qual o século XXI envereda em sua terceira década. O outro efeito perigosíssimo vem da maneira russa de lidar com as ameaças: lançando mão imediatamente da cartada nuclear para mostrar força.
O mundo está perdido se a negociação entre as principais potências degringolar de vez para um concurso infantil de queda de braço, cuspe à distância ou outros campeonatos que meninos bravateiros gostam de fazer no recreio.
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Lula não deveria nem ceder ao apelo crescente de sua base por retaliações — a campanha pela quebra de patentes de produtos “made in USA”, sem nenhum estudo que ampare a ideia, cresce nas redes sociais da esquerda — nem esperar demais para lançar um plano de socorro ao setor exportador brasileiro.
O melhor caminho é fazer um anúncio robusto, chamando da indústria ao agronegócio a Brasília para um pacto necessário num momento em que o Brasil sofre um ataque em múltiplas frentes.
As pesquisas mostram a repulsa do eleitor a essa agressão cavada com afinco por Jair e Eduardo Bolsonaro para salvar a pele do patriarca do clã. A mistura desse tema com o julgamento do ex-presidente também não encontra amparo na maioria da população. A hora é de uma resposta altiva do Executivo e do Judiciário, e isso não pode esperar para ver se Trump mudará de ideia ou inventará mais alguma gracinha.