Pouco antes de um ensaio, a diretora Tamara Rothstein salteia entre panos espalhados pelo piso de madeira da Faculdade Angel Vianna, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, para escolher quais deles poderiam ser usados no espetáculo “Prosas ordinárias”. Num primeiro momento, imagina-se que as flanelas e retalhos estão exatamente onde deveriam estar — afinal, servem para limpar o chão. Mas no espetáculo de dança do Grupo Prosa, que será apresentado a partir de sexta-feira no Teatro Cacilda Becker, no Catete, esses objetos se transformam sob os olhares do público.
A proposta é encontrar beleza nas coisas simples do cotidiano, especialmente em um mundo marcado pelo utilitarismo. Assim, um pano de chão — geralmente relegado aos cantos escondidos da casa — passa a integrar uma dança interpretada por Amanda Pontes, Carolina Azambuja, Lorena Pimentel e Maria Paula Ramalho, elenco que começou a trabalhar com Tamara em meados do ano passado.
— É uma oposição àquela dança muito formal, muito especial. Aqui, a nossa ideia é dançar com os objetos mais simples — diz a diretora, que começou a experimentar os panos, sozinha, em 2019. — Esse material carrega um pouco da nossa casa inteira. Ele guarda nossa intimidade.
Ao todo, serão usados 67 panos de chão em “Prosas ordinárias”, que, vez ou outra, serão estendidos em um varal no palco. A maioria do material foi recolhida entre familiares e amigos. Alguns destes, conta a diretora, até questionaram pelo uso dos panos. “O meu está muito velho, vou comprar um e te dou”, disse um deles.
— Os panos são como nós: cada um é diferente do outro. Ao longo do tempo, a gente vai conhecendo esses panos. Tem os mais felpudos, os que estão mais desgastados, os mais novos, os que parecem um saco onde se entra, os que já foram uma camiseta rasgada que alguém usava para limpar — avalia a diretora.
Durante a dança, as artistas praticam o que a diretora chama de “improviso consciente”, cada uma sabendo o que faz naquele momento, podendo repetir os movimentos em outras ocasiões. Uma orientação existe, claro, mas os olhares, as formas de pegar o pano ou arrastá-lo pelo chão são inspirados pela situação.
— Apesar da carga simbólica do pano de chão e de sermos mulheres em cena, levamos esses panos para outros lugares. Em certos momentos, se tornam parte de nós. Em outros, nós e eles somos quase a mesma coisa — reflete Amanda, que chegou ao grupo em 2022.
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A artista Carolina Azambuja comenta que o processo de criação é aberto para que as quatro apresentem suas ideias, tanto que são chamadas de “intérpretes-criadoras”:
— É raro a Tamara chegar com uma coreografia pronta e dizer: “Façam assim.” Tudo o que aparece em cena vem das provocações dela.

