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O embate da semana passada foi um retrato do novo normal na Coreia do Sul desde a declaração da lei marcial por Yoon, em dezembro do ano passado, e de um traumático processo criminal ainda em curso. E diante da longa lista de desafios, a calmaria parece mais distante do que gostaria a população que vai às urnas.
O embate foi um retrato do novo normal na Coreia do Sul desde a declaração de lei marcial por Yoon, em dezembro do ano passado, e de um traumático processo criminal ainda em curso. E diante da longa lista de desafios, a calmaria parece mais distante do que gostaria a população que vai às urnas nesta terça-feira.
— A eleição de 2025 pode marcar um ponto de inflexão para a Coreia do Sul. Não apenas em termos eleitorais, mas como oportunidade para reavaliar o modelo de governança adotado desde a transição democrática — afirmou ao GLOBO Alexandre Coelho, professor doutor da Fundação Escola de Sociologia e Política de SP (FESPSP). — Mais do que uma disputa entre progressistas e conservadores, este pleito se insere num debate maior sobre o futuro da institucionalidade política sul-coreana, com implicações relevantes para a estabilidade interna e para o papel do país no sistema internacional.
As últimas pesquisas — desde quarta-feira passada elas não podem ser publicadas — confirmam o favoritismo de Lee Jae-myung, o questionado líder do Partido Democrático (Minju) derrotado por Yoon em 2022. Aos 61 anos, vindo de uma família pobre na província de Gyeongsang do Norte, trabalhou na adolescência e recorreu ao supletivo para se formar no Ensino Médio.
A entrada na política foi tardia, em 2005. Cinco anos depois, seria eleito prefeito de Seongnam e, posteriormente, governador de Gyeonggi, a mais populosa província do país. Após a derrota em 2022, chegou à Assembleia Nacional, e liderou a vitória do Minju nas eleições legislativas de 2024, se consolidando como líder da oposição. No ano passado, sofreu um atentado a faca, que fez com que incluísse medidas adicionais de segurança durante a campanha à Presidência.
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Seu principal rival é Kim Moon-soo, um ex-líder sindical de 71 anos que enfrentou o regime ditatorial de Chun Doo-hwan e foi torturado na prisão, mas que tomou o rumo do conservadorismo. Foi eleito para a Assembleia Nacional nos anos 1990 e governador de Gyeonggi em 2006, mas um escândalo por pouco não enterrou sua carreira: em 2011, telefonou para o serviço de emergência e, ao invés de explicar por que estava ligando, apenas repetiu “eu sou o governador” — o caso virou um exemplo de abuso de poder.
Ele se reergueu politicamente quando Yoon o chamou para ser ministro do Trabalho. Kim foi um dos principais nomes do Partido do Poder Popular (PPP) a não abandonar o presidente afastado, nem no último debate.
— Lei marcial é lei marcial e guerra civil é guerra civil. São coisas diferentes — disse na terça-feira, após Lee chamar a declaração de lei marcial de “guerra civil” e acusar Yoon e seus aliados de “sedição”.
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Tal como na eleição presidencial de 2017, a votação acontece após um impeachment, mas desta vez o processo foi mais traumático. Em dezembro do ano passado, o impopular Yoon Suk-yeol decretou lei marcial no país, alegando agir contra uma “ameaça de derrubar o regime da República da Coreia por forças anti-estatais ativas”.
O Parlamento foi bloqueado, mas os deputados forçaram a entrada no plenário e derrubaram a medida, mesmo diante da ameaça de prisão e, no caso da deputada An Gwi-ryeong (Minju), de um fuzil. Duas semanas depois, Yoon foi afastado pelo Legislativo, e o caso remetido à Corte Constitucional, que confirmou a decisão em abril e abriu caminho para a votação desta terça–feira.
— Essa sucessão de crises presidenciais revela tensões estruturais em seu sistema político. A governabilidade tem sido prejudicada por confrontos constantes entre Executivo e Legislativo, a ausência de mecanismos efetivos de cooperação interpartidária e um presidencialismo considerado excessivamente concentrador — aponta Coelho.
Antes da palavra final da Justiça, o Minju já traçava suas rotas para voltar à Presidência, que incluíam ataques ao PPP e gestos de defesa da democracia. Os governistas, por sua vez, estavam divididos entre os que queriam virar a página, como Han Dong-hoon, ex-líder do partido e que perdeu as primárias, e Kim Moon-soo, apoiador de Yoon. O ex-presidente deixou o PPP em maio, alegando que era uma forma de ajudar a sigla nas urnas.
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No debate de terça-feira passada, Lee tentou explorar a proximidade entre Yoon e Kim.
— Há pessoas que se preocupam que o candidato Kim seja um avatar de Yoon Seok-yeol, e que se for eleito, o ex-rei Yoon Seok-yeol, o líder da rebelião, retornará — afirmou.
Apesar da vantagem de Lee, o PPP reduziu a diferença na reta final. E a presença de Lee Jun-seok, candidato do Novo Partido da Reforma, de viés conservador, pode ser uma surpresa de última hora. A votação antecipada, iniciada na quinta-feira, sinalizou que o comparecimento deve ser elevado.
— Trata-se de uma disputa apertada, particularmente considerando a fragmentação do voto conservador e o impacto da candidatura de Lee Jun-seok, que pode atrair eleitores descontentes com ambos os partidos tradicionais — opina Coelho, apontando que o candidato aparece com cerca de 10% nas pesquisas. — Como em 2022, a definição pode depender da mobilização de eleitores indecisos e do comportamento de última hora dos eleitores moderados e independentes.
O impeachment “sequestrou” a campanha, mas não fez desaparecer a lista de problemas de um dos motores da economia asiática. A começar pelo tarifaço de Donald Trump, que impôs taxas de 25% sobre as exportações, reduzidas de forma temporária a 10% até julho. Com as tarifas, as incertezas políticas e a anêmica demanda interna, a expectativa é de que o Banco da Coreia reduza para até 0,8% a previsão de crescimento do PIB de 2025, hoje de 1,5%.
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Para Lee, o ideal é ganhar tempo nas negociações com os EUA para obter melhores termos. Para Kim, a pressa é o argumento central de sua estratégia.
Os principais candidatos também divergem sobre política externa: Lee busca estreitar os laços com a China e também com os americanos, dentro de sua visão pragmática, enquanto Kim busca priorizar os EUA e aliados como Austrália, Índia e a Asean, a Associação de Nações do Sudeste Asiático.
No campo militar, Lee é favorável ao fortalecimento dos sistemas de defesa e dissuasão, além do uso da inteligência artificial no processo de modernização das Forças Armadas — Kim, por sua vez, busca o desenvolvimento de submarinos de propulsão atômica e não descarta pedir aos EUA que posicionem armas nucleares em território sul-coreano.
Mas como notaram analistas sul-coreanos, nenhum apresentou planos concretos para um problema existencial: a baixa taxa de natalidade, a menor dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em 2024, era 0,75 filho por mulher — para manter o mesmo nível populacional, é necessária uma taxa média de 2,1 filhos.
Ao mesmo tempo, a sociedade está cada vez mais envelhecida. Na eleição desta terça-feira, pela primeira vez haverá mais eleitores na casa dos 60 anos (17,7%) do que os com cerca de 40 anos (17,3%). E os cidadãos aptos a votar com mais de 70 anos (15,4%) são mais numerosos do que os nas casas dos 30 anos (14,9%) e 20 anos (13,1%).

