A censura na Rússia é tão antiga quanto a própria mídia de massa do país.
Censores imperiais proibiram livros de Liev Tolstói e prenderam Fiódor Dostoiévski na Sibéria quando os escritores questionaram a autoridade do czar. Após a Revolução, um exército de burocratas passou a vetar tudo o que era publicado ou exibido, em busca de qualquer sinal de “heresia capitalista”.
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Mais recentemente, o presidente Vladimir Putin revogou a liberdade de expressão que floresceu brevemente após o colapso da União Soviética e implantou um sistema mais sutil de controle cultural.
Desde a invasão da Ucrânia, em 2022, muitos russos buscam alívio para o caos da guerra nas telas. As plataformas de streaming de filmes e séries cresceram rapidamente, conquistando milhões de assinantes e triplicando as vendas desde então, segundo dados do setor. Apesar das sanções do Ocidente, os equivalentes russos da Netflix ainda oferecem centenas de produções americanas, incluindo lançamentos recentes.
Mas o que chega ao público está longe de ser a versão original.
Não há intimidade entre homens, conversas sobre aborto, logotipos de empresas vetadas nem piadas sobre Putin. Em agosto, segundo análise do veículo independente russo Mediazona, foram cortadas pelo menos 64 horas de conteúdo em 152 séries de faroeste.
Che, personagem não binário, discute o uso de pronomes neutros. Os censores removeram as falas sobre pronomes, tornando a cena incoerente.
As descobertas da Mediazona revelam os esforços do Kremlin para moldar a visão de mundo dos russos, isolando-os de ideias que contradizem as políticas ultranacionalistas e a agenda conservadora de Putin. Também levantam dúvidas sobre o papel das produtoras americanas na defesa da liberdade criativa e na proteção de suas obras contra interferências políticas.
O governo russo não publica regras explícitas para o setor de entretenimento. Profissionais precisam adivinhar o que agrada ou desagrada ao Kremlin e antecipar mudanças de humor político. Por cautela, preferem se autocensurar. Quem erra pode enfrentar multas, ostracismo ou prisão.
Para medir o alcance dos cortes, a Mediazona usou software para comparar os episódios originais com as versões disponíveis na plataforma russa Amediateka.
“The White Lotus” — Temporada 1, Episódio 2
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Olivia, de férias com a família rica, faz um comentário irônico sobre Putin durante o jantar. A fala foi apagada pelos censores.
A Amediateka não respondeu aos pedidos de comentário. Embora tenha poucos assinantes, é uma grande distribuidora de produções americanas, incluindo conteúdos da HBO e AMC. Na prática, quem assiste a séries ocidentais na Rússia costuma ver versões dubladas e editadas, mais curtas que as originais.
Só no caso das 114 séries da HBO e HBO Max disponíveis na plataforma no início do ano, mais de 36 horas foram eliminadas. A dublagem também distorce diálogos sobre temas considerados tabu.
Às vezes, essas mudanças apenas alteram o significado original. Outras vezes, tornam a narrativa incompreensível.
Na comédia “Ghosts”, da CBS, o casamento entre dois personagens gays foi traduzido como “aliança de amizade”. O episódio que mostrava a cerimônia foi cortado, deixando um buraco na história.
Em “Axios”, programa jornalístico da HBO, foi removida a cena da posse de Pete Buttigieg como secretário de Transportes dos EUA, que mostrava seu marido ao lado dele.
“The Wire” — Temporada 1, Episódio 5
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As demonstrações de afeto entre Omar Little e seu namorado Brandon sumiram. Sem elas, fica difícil entender por que Omar busca vingança após o assassinato de Brandon.
Até símbolos discretos ligados à comunidade LGBT, como um arco-íris ao fundo, bastam para que cenas sejam cortadas, afirma Mika Golubovsky, jornalista da Mediazona exilado na Lituânia.
A análise mostra que a Amediateka também suprimiu diálogos sobre temas legais, mas polêmicos, como aborto e práticas eróticas não convencionais. Ainda assim, a maior parte dos cortes envolve questões de gênero e sexualidade.
Desde o início da guerra, o Kremlin intensificou a perseguição à população LGBT, declarando o movimento pelos direitos gays uma “organização extremista”. Cerca de 20 pessoas foram presas com base nessa lei, e centenas receberam multas por violações relacionadas.
A repressão também atinge críticas à guerra. Centenas de russos foram detidos por traição ou por “desacreditar o Exército”, inclusive por curtirem posts nas redes sociais.
Embora muitos recorram a séries pirateadas ou a VPNs para fugir da censura, essas alternativas vêm sendo dificultadas pelo aumento do controle sobre a internet.
“The Walking Dead” — Temporada 2, Episódio 6
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Lori Grimes pondera se deve ter um filho em meio ao apocalipse zumbi ou interromper a gravidez. A cena sobre pílulas anticoncepcionais foi removida.
Segundo a atriz não binária Sara Ramirez, cujo papel foi cortado na série “And Just Like That”, artistas raramente são informados sobre alterações em seus trabalhos. Ela só soube dos cortes após contato do New York Times.
David Simon, criador de “The Wire”, reagiu publicamente quando descobriu as edições na Rússia. No X (ex-Twitter), lembrou que Omar Little “é assumidamente gay” e ironizou líderes russos: o personagem era “mais durão e eficiente que qualquer recruta enviado para a guerra na Ucrânia”.
Como a Amediateka continua exibindo séries recentes é um mistério. Sanções internacionais tornaram praticamente ilegal receber pagamentos da Rússia. Antes mesmo das restrições mais severas, empresas como a WarnerMedia, controladora da HBO, anunciaram saída do país.
“Após a invasão, suspendemos todos os negócios na Rússia, incluindo transmissões, licenciamento e lançamentos de filmes e jogos”, disse na época Jason Kilar, então presidente da WarnerMedia, em comunicado de março de 2022.
“Game of Thrones” — Temporada 2, Episódio 7
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Foram cortadas as cenas que mostram a relação incestuosa de Cersei e Jaime Lannister, peça central da trama. Até diálogos sobre “pecados” da personagem foram eliminados.
Mesmo após o anúncio de Kilar, a Amediateka incluiu ao menos 46 novas temporadas de séries da WarnerMedia, incluindo a terceira temporada de “The White Lotus”, lançada este ano, e “House of the Dragon”, adicionada em agosto de 2022.
A HBO tinha acordo de licenciamento exclusivo com a Amedia, controladora da Amediateka, assinado em 2017. Segundo a porta-voz Megan MacLeod, esse contrato não existe mais, mas ela não explicou como conteúdos recentes chegam à Rússia sem gerar disputas legais.
Uma porta-voz da AMC confirmou que ainda licencia programas para a plataforma, mas disse que é comum emissoras adaptarem conteúdos a “sensibilidades culturais locais”.
Golubovsky questiona se essas edições refletem, de fato, os valores da sociedade russa. “É difícil imaginar como o público acompanha histórias tão mutiladas. As tramas simplesmente perdem sentido”, disse.