Nesta sexta, aulas de escolas e universidades, atividades da prefeitura e de centros municipais de Manaus foram suspensas, após mais um dia em que a fumaça oriunda de queimadas cobriu a cidade e o ar foi classificado como a de pior qualidade do Brasil. Pela manhã, moradores receberam um alerta da Defesa Civil Estadual, recomendando o uso de máscaras ao sair de casa. Em apenas nove dias, a área queimada no Amazonas em outubro já é 97,3% maior que a média histórica do mês.
Segundo a prefeitura, o fogo tem origem na Região Metropolitana e cidades do interior do estado. Além das queimadas, as ondas de calor dificultam a dissipação da fumaça. Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), disse que os incêndios se concentram na margem sul do Rio Amazonas, em frente a Manaus, principalmente nos municípios de Careira da Várzea, Careira e Autazes.
— Começou a queimar na região ali de Santarém, Rurópolis, na calha Sul do Amazonas, e essa fumaça é levada para a região oeste também — disse Ane Alencar.
Com isso, Manaus registrou a pior qualidade do ar do Brasil, segundo a plataforma internacional IQAir. Por volta das 5h, o Índice de qualidade do ar (AQI⁺) chegou a 366, classificado como “perigoso” pela IQAir. A concentração de partículas finas PM2.5 atingiu 258,2 microgramas por metro cúbico (µg/m³). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o limite recomendável de PM2.5 é uma concentração de 15 (µg/m³), na média de 24 horas.
A fumaça no Centro Histórico de manaus, na beira do Rio Negro, perto do Mercado Municipal Adolpho Lisboa
Divulgação / Fiocruz Manaus
Desde setembro, os focos de incêndio no Amazonas vêm crescendo em intensidade e quantidade, o que, segundo especialistas, já pode ter influência dos efeitos do El Niño na região. O fenômeno climático causa secas no Norte do Brasil.
Nos primeiros nove dias de outubro, a área queimada do Amazonas soma 122.794 hectares, número que já é 97,3% maior que a média histórica do mês inteiro – 62.239 hectares, de acordo com o Sistema Alarmes, do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), da UFRJ. Até esta sexta (9), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 782 focos de calor no estado, durante outubro.
‘Defumados vivos’
Jesem Orellana, morador de Manaus e epidemiologista da Fiocruz, disse que vem se multiplicando os relatos de problemas na garganta, irritação nos olhos, congestão nasal, dor de cabeça, além do agravamento de processos respiratórios alérgicos, entre a população.
— É desesperador admitir, mas estamos sendo defumados vivos, pelo calor extremo e pela fumaça tóxica. Nosso cabelo e roupas têm cheiro de fumaça. Nosso local de trabalho, casa e até áreas verdes estão tomadas pela fumaça tóxica. Não temos para onde correr e nem a quem pedir socorro, pois os municípios com vocação agropastoril, bem como áreas de desmatamento anterior e recentes seguem ardendo. Estamos queimando e sendo sufocados, ano após ano e, infelizmente, a sensação de impotência e de predomínio da impunidade só aumenta — conta Orellana, que alerta que os gases tóxicos não são filtrados por respiradores como N95 e PFF2 e, menos ainda, pelas máscaras comuns.
O epidemiologista diz que se a qualidade do ar continuar nesses mesmos patamares, o mais sensato seria suspender atividades gerais, especialmente entre os grupos de maior risco, como crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças pré-existentes.
— Outro subgrupo que enseja atenção é o de trabalhadores ambulantes, da construção civil, da limpeza pública, bem como os que trabalham intensamente com entregas de aplicativos ou mesmo motoristas de aplicativos, pois ficam permanente e gravemente expostos a essa fumaça tóxica das queimadas, bem como aos gases tóxicos liberados pela queima de combustíveis — complementa o especialista.
Alerta da Defesa Civil
O alerta da Defesa Civil, enviado aos celulares dos moradores de Manaus, orientou a população a evitar a exposição à fumaça e recomendou o uso de máscaras ao sair de casa. A prefeitura, incluindo as aulas das escolas da rede municipal de ensino, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e o Instituto Federal do Amazonas (Ifam) suspenderam as suas atividades presenciais. O governo estadual do Amazonas intensificou as operações de combate a crimes ambientais na Região Metropolitana de Manaus e nos municípios de Manaquiri, Autazes, Careiro Castanho e Careiro da Várzea.
Em nota pública, a Prefeitura de Manaus afirmou que a suspensão das atividades “tem caráter preventivo e busca preservar a saúde e a segurança dos servidores municipais e da população”, e que os servidores administrativos atuarão em regime de teletrabalho, garantindo a continuidade das atividades e dos serviços públicos, enquanto serviços essenciais serão mantidos.
Procurado, o governo do Amazonas explicou que mantém ações integradas de prevenção, fiscalização, monitoramento e combate às queimadas, intensificadas, através da operação Tamoiotatá, nos últimos dias. Um decreto estadual, publicado há um mês, proibiu o uso do fogo por 120 dias em todo o estado, ressalvadas as exceções previstas na legislação, e instituiu o Plano Estadual de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas do Amazonas (PPCDQ), com medidas para reduzir o desmatamento e as queimadas.
Entre 1º de junho e 8 de outubro, período de seca, o Corpo de Bombeiros do Amazonas registrou 3.380 ocorrências relacionadas a incêndios urbanos e florestais e atuou no combate a 19.650 focos, sendo 4.056 na capital e 15.594 no interior. Cerca de mil servidores, entre bombeiros militares e brigadistas, participam da operação. Desde então, o número de bases permanentes dos Bombeiros aumentou de 11 para 25 municípios, no interior.
Incêndio em lixão investigado
Na quarta (7), um grande incêndio tomou uma área de descarte de resíduos no Distrito Industrial 2, na Zona Leste de Manaus, o que intensificou as fumaças. A Delegacia Especializada em Crimes contra o Meio Ambiente e Urbanismo (Dema) instaurou um Inquérito para investigar o caso.
'Estamos sendo defumados vivos': moradores de Manaus sofrem nova onda de fumaça por queimadas e Defesa Civil emite alerta
