A escalada de tensões com a Venezuela e a ameaça de uma ação militar para derrubar o regime de Nicolás Maduro são apenas uma face da movimentação dos EUA na América Latina. Enquanto o mundo se volta para uma possível ofensiva de jatos e navios americanos contra Caracas, o Pentágono investe em uma ampla rede de bases militares e infraestruturas civis adaptadas em países parceiros — um movimento definido como prioritário segundo a nova Estratégia de Segurança Nacional americana, divulgada na sexta-feira.
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Analistas ouvidos pelo GLOBO apontam que a mobilização militar americana — considerada a maior nas Américas desde a Crise dos Mísseis nos anos 1960 — está inserida em um plano mais amplo de reinserir os EUA como potência hegemônica na região: uma resposta à crescente influência da China sobre países latino-americanos e à agenda de setores republicanos que têm como prioridade a queda de regimes de esquerda do continente, o que põe Cuba e Nicarágua na linha de fogo.
Uma rápida expansão da presença militar dos EUA já está em curso na região. Do litoral do Pacífico, em El Salvador, à borda da América do Sul, em Trinidad e Tobago, os americanos estabeleceram posições em pelo menos dez países.
— Os EUA querem demarcar sua posição — afirmou o coronel da reserva do Exército Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, mestre em Ciências Militares, ao explicar que a disputa entre Pequim e Washington ocorre para além da Ásia-Pacífico. — Para alguns analistas, isso é um retorno à política de poder, ao reconhecimento de uma realidade marcada por entornos estratégicos e áreas de influência.
O documento que estabelece oficialmente a política estratégica de Trump foi explícito sobre o ponto. Textualmente, fala de uma retomada da Doutrina Monroe para “restaurar a preeminência americana” e proteger a pátria e o acesso a regiões-chave.
“Negaremos a concorrentes de fora do Hemisfério a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais em nosso Hemisfério”.
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Embora o documento não cite a China diretamente, há menções veladas a Pequim, como a referência a tendências “difíceis de reverter” em alguns países. A Casa Branca também menciona “desencorajar” a colaboração com nações de fora da região, por todos os meios.
O cientista político Maurício Santoro, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, disse em entrevista ao GLOBO que a presença militar faz parte de uma lógica de intimidação e coerção para se contrapor à presença chinesa.
— [A mobilização militar] é um instrumento de pressão. Assim como as tarifas, que desempenham não só um papel econômico e comercial, mas também de coerção política, de empurrar países para uma determinada direção — explicou Santoro, ponderando que há limites para o que o poder militar sozinho pode obter. — Por mais preocupação que exista sobre o uso da força, os países não vão deixar de comprar produtos industriais chineses ou de vender para a China.
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A política americana prevê “recompensas” a “governos, partidos políticos e movimentos” alinhados e descarta o combate a regimes de ideologias diversas que se mostrem dispostos a cooperar.
Embora a disputa global com Pequim seja um dos motivos para a guinada americana em direção à América Latina — assim como, de forma mais específica, a operação de combate ao tráfico internacional de drogas — a presença militar encontra lastro nos objetivos específicos de setores do trumpismo, representados sobretudo pelo secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio.
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Filho de exilados cubanos que fugiram de Fidel Castro, Rubio fez carreira na Flórida como um porta-voz de uma comunidade latina avessa aos regimes de esquerda do continente. Na cúpula do governo Trump, o republicano tem agora capacidade de agir diretamente contra os regimes que sempre perseguiu.
— Rubio está com muito poder. Ele não é mais apenas secretário de Estado, é conselheiro de Segurança Nacional, tem cadeira na Casa Branca. A única outra pessoa que acumulou esses dois cargos foi Henry Kissinger — afirmou o professor de Relações Internacionais da ESPM Gunther Rudzit, colaborador da Universidade da Força Aérea (Unifa). — Ele está em posição de exercer influência na estruturação de todas as operações na região, e a visão anticomunista que ele carrega vai criar problemas para regimes de esquerda que tenham caráter anti-EUA, a começar por Venezuela, Nicarágua e Cuba.
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Rudzit avalia que a ação americana pode evoluir para um ataque direto à Venezuela, tanto pelo alinhamento do país com os interesses chineses na região quanto por seu papel estratégico na sustentação de Havana e Manágua.
— A Venezuela é o que ainda sustenta Cuba e Nicarágua com petróleo barato. Se você tira a Venezuela da equação, os dois regimes se enfraquecem — disse o professor. — Para mim, eles são os próximos da lista. É por isso que toda essa infraestrutura está sendo montada.
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Apesar de os analistas apontarem que um ataque à Venezuela ocorreria ao arrepio da lei internacional, a força militar enviada à região não encontra capacidade de oposição em nenhum país latino-americano.
— A esquadra que os EUA têm no Caribe, com porta-aviões, submarino nuclear, navios de desembarque anfíbio, de operação de Forças Especiais, é extremamente poderosa, diversificada e não tem rival à altura na América Latina — disse Santoro. — Nenhuma marinha de guerra latino-americana, nem a brasileira, nem a mexicana, nem de longe tem a capacidade de enfrentar esse colosso que os americanos colocaram lá.
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A construção da rede de estruturas e bases em países da região são um trunfo estratégico, mesmo com uma retirada de grande parte dos navios — cenário considerado como o mais provável pelo coronel Gomes Filho, após a resolução da questão com a Venezuela. O reposicionamento garante a possibilidade de concentração de recursos logísticos, bem como uma variedade de opções para operações facilitadas, como a possibilidade de atacar posições inimigas sem a necessidade de reabastecimento aéreo.
— A mobilização e o posicionamento dos equipamentos militares permitem aos EUA optar por qualquer ação militar — disse Rudzit. — Os F-35 enviados a Porto Rico são os mesmos que atacaram o Irã por 12 dias impunemente. Podem facilmente tornar inoperantes todos os radares da Venezuela.

