O nado de girinos de sapo-do-oeste sob um leito de lírios em Vancouver, no Canadá; o olhar atento de um lince em meio à neve no Distrito de Lazovsky, em Krai de Primorsky, na Rússia; e a delicadeza do boto cor-de-rosa no Rio Amazonas, no Brasil. Essas e outras fotografias compõem a exposição itinerante do concurso “Fotógrafo de vida selvagem do ano”, inaugurada nesta semana no Museu Catavento, na região central de São Paulo. Pela segunda vez na capital paulista, a mostra é organizada pelo Museu de História Natural de Londres e reúne cem fotografias selecionadas na 60ª edição da competição, que recebeu quase 60 mil inscrições de 117 países em 2024.
As produções retratam cenas da diversidade natural do mundo e comportamentos de diferentes animais — dentre espécies raras e outras mais conhecidas pelo público —, a fim de promover reflexões sobre a urgência da preservação ambiental. Parte de uma turnê internacional, em São Paulo, a mostra está no claustro do Catavento (uma passagem entre as grandes salas) e ocupa cerca de 250 metros quadrados.
— A exposição é uma boa maneira de fazer as pessoas se apaixonarem pela natureza e, assim, passarem a protegê-la. Então, queremos alcançar o maior número de pessoas possível com ela. As histórias (das fotos) são globais, feitas por fotógrafos do mundo todo, e não é preciso saber de todos os acontecimentos por trás delas, já que uma foto fala mais do que mil palavras. Pessoas de qualquer lugar podem olhar para elas e ter uma reação. Mas, quanto a levá-la ao Brasil, com a COP 30 a caminho, acreditamos ser um bom momento para analisarmos algumas ações (dos seres humanos) na natureza. Esperamos que elas também gerem um impacto nessas discussões — disse Hannah McCartney, responsável pela exposição no Museu de História Natural de Londres, ao GLOBO.
De paisagens imponentes a seres microscópicos, essa é a segunda vez que a exposição anual passa pelo Museu Catavento (e, consequentemente, por São Paulo). Ela ainda passará por outras 32 cidades de diferentes localidades, como Estados Unidos, China e Austrália.
O registro vencedor da edição foi a obra “The swarm of life” (o enxame da vida, em tradução livre), do fotojornalista canadense Shane Gross. A foto retrata o nado de girinos de sapo-do-oeste sob um leito de lírios em um lago na Ilha de Vancouver, no Canadá. Escolhida pelo júri por sua composição luminosa e pela rara inserção de uma nova espécie ao acervo do concurso, a fotografia chama atenção para a situação de vulnerabilidade da espécie, ameaçada pela destruição de seu habitat e pela predação.
— O lado técnico foi parte da decisão, já que os recursos técnicos da foto são bem avançados. Ela é clara e muito focada, então você pode ver todos os pequenos detalhes dela. É algo muito difícil de fazer naquela localização. Mas (a escolha) também tem a ver com a atenção às zonas úmidas, um ecossistema muito importante, que não é apenas casas para muitos animais e plantas, mas que também está encolhendo pela ação humana, que o seca, constrói em cima dele ou o usa para a agricultura. Além de tudo, as zonas úmidas também são um bom sumidouro de carbono (reservatório natural que absorve dióxido de carbono da atmosfera). Protegê-las é realmente importante para o futuro do planeta — explicou Hannah.
Outro destaque é a obra “Life under the dead wood” (vida sob a madeira morta, em tradução livre), vencedora da categoria destinada a participantes entre 15 e 17 anos. Feita pelo alemão Alexis Tinker Tsavalas, a foto mostra de perto corpos frutíferos de um fungo mucilaginoso e um minúsculo colêmbolo. Presente em quase todo o planeta, o artrópode de seis patas é um dos animais macroscópicos mais abundantes e é essencial para a saúde do solo, uma vez que se alimenta de microrganismos e auxilia na decomposição da matéria orgânica.
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De acordo com as projeções do museu londrino, a exposição deve ser vista por mais de um milhão de visitantes ao redor do mundo. A segunda passagem pelo Brasil, vale ressaltar, é resultado de uma parceria entre a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), o Instituto Questão de Ciência (IQC) e o Museu Catavento, vinculado à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo.
— A ideia é aproximarmos a pesquisa científica do público em geral, de toda a sociedade. Queremos levantar questionamentos, claro, mas também queremos incentivar os brasileiros a se inscreverem no concurso. A nossa expectativa é que a exposição desperte a curiosidade científica e o pensamento crítico no visitante, assim como o ambiente interativo do museu já faz — disse Marcelo Takeshi Yamashita, diretor científico do Instituto Questão de Ciência e assessor-chefe de comunicação e imprensa da Unesp.
Com seis décadas de existência, o concurso foi criado originalmente pela revista Animals (atual BBC Wildlife Magazine) e em 1984 passou a ser realizado em parceria com o museu londrino. Hoje, é totalmente gerido pela instituição. A competição, diga-se, é aberta para fotógrafos de todo o mundo, de diversas idades e habilidades. As inscrições abrem sempre em outubro.
— O encantamento e a beleza podem ser o primeiro contato, principalmente para os jovens, com o universo da ciência. É uma porta de entrada diferente para o conhecimento científico — completou a doutora e microbiologista Natalia Pasternak, presidente do IQC e uma das responsáveis pela realização da exposição no Brasil.
Onde: Museu Catavento. Avenida Mercúrio, Parque D. Pedro II, s/n. Visitação: de 2 de setembro a 7 de dezembro. De terça a domingo, das 9h às 17h. Ingressos por R$ 9 (meia) e R$ 18 (inteira), retirados no site e na bilheteria física. Gratuidade às terças, todo primeiro domingo do mês e toda segunda quarta-feira do mês.