Apesar dos muito idiomas falados durante uma convenção internacional de partidos de extrema direita em Madri, no último fim de semana, o nome do influenciador americano Charlie Kirk estava na boca de todos. Dias antes da chegada do presidente dos EUA, Donald Trump, ao continente, líderes de siglas extremistas impulsionavam uma onda de fervor conservador, apontando o crime contra Kirk como um marco.
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— Esse é um momento de mobilização. Normalmente, esquerdistas olham para uma tragédia e dizem: ‘Ok, esse cara é um herói, vamos transformá-lo em herói’. Mas agora a direita e os conservadores estão fazendo o mesmo — disse André Ventura, líder do ascendente partido de extrema direita de Portugal, o Chega. — [Os líderes da direita] devem rezar por Charlie Kirk, por sua família, mas também não devemos esquecer seu nome, devemos usá-lo.
Após décadas alegando perseguição em seus próprios países, a direita europeia vive um momento de ascensão. Estão vencendo eleições, ganhando força entre os jovens eleitores e contando com o apoio de Trump, que desembarcou no Reino Unido nesta terça-feira para uma visita de Estado. Especialistas apontam que falar sobre o assassinato de Kirk se encaixa perfeitamente nas narrativas já existentes — e muitas vezes exageradas — de perseguição e exclusão.
— Existe uma narrativa comum na extrema direita sobre vitimização, e é por isso que esse caso é tão atraente para eles — disse Marta Lorimer, professora da Universidade de Cardiff e especialista em extrema direita europeia. —A mensagem é: ‘Vejam, não apenas fomos excluídos, agora estão nos matando também’.
A narrativa descrita pela professora apareceu em falas durante a convenção em Madri. Santiago Abascal, líder do partido Vox — legenda de extrema direita e anfitrião do evento —, afirmou que o assassinato do influenciador americano era parte de um movimento mais abrangente de violência política.
— O assassinato de Charlie não foi um caso isolado — disse Abascal. — Eles não nos matam porque somos fascistas, nos chamam de fascistas para poderem nos matar.
A primeira-ministra da Itália e ícone da direita europeia, Giorgia Meloni, começou sua participação por vídeo na convenção prestando uma homenagem a Charlie Kirk — acrescentando que o caso é um lembrete sobre “em que lado está a violência e a intolerância”. Tom Van Grieken, líder de um partido separatista da Bélgica, disse à plateia que a direita venceria a Europa com ideias — “não com balas, como a esquerda fez com Charlie Kirk”.
Morte de Charlie Kirk acende preocupação com violência política nos EUA
A mensagem sobre Kirk, fundador do movimento jovem conservador Turning Point USA, de 31 anos, ecoou amplamente na bolha da extrema direita europeia. Parlamentares de direita no Parlamento Europeu bateram nas mesas quando lhes foi negado um minuto de silêncio por ele em Estrasburgo, na França — algo que, segundo eles, foi concedido a George Floyd, o homem negro morto pela polícia em Minnesota.
— Porque vidas negras importam, como todos sabem — disse Afroditi Latinopoulou, líder do partido grego Voz da Razão, em Madri. — Mas as vidas brancas, não. Chega.
No sábado, em Londres, mais de 100 mil manifestantes participaram de um comício organizado pelo ativista de extrema direita Tommy Robinson, no qual um jovem ativista francês disse que sua presença era uma “homenagem a Charlie Kirk”. Elon Musk, que participou por videoconferência, chamou a esquerda de “o partido do assassinato” e instou os manifestantes a “lutarem ou morrerem”.
Durante décadas, a Europa isolou seus partidos de extrema-direita com cordões sanitários para impedi-los de chegar ao poder. Essa era acabou. Posições duras contra a imigração tornaram-se cada vez mais comuns. Assim como os líderes da linha-dura. Meloni, a primeira política com raízes no neofascismo a governar uma grande nação europeia, é vista como pioneira.
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Partidos conservadores mais tradicionais, desesperados para se manterem relevantes, têm buscado alianças com esses grupos, gerando debates sobre se estão legitimando ou normalizando extremistas. Na França e na Alemanha, o apoio a partidos antes considerados tabus continua crescendo, com o incentivo dos EUA sob Trump.
Falando em Munique em fevereiro, o vice-presidente JD Vance defendeu implicitamente o partido de extrema direita alemão Alternativa para a Alemanha (AfD), afirmando que “não há espaço para barreiras”. Musk foi mais direto, escrevendo em uma publicação nas redes sociais que “só o AfD pode salvar a Alemanha”.
A extrema direita europeia sustentou-se por décadas à margem do sistema com uma cultura de martírio. Conservadores espanhóis evocam prisioneiros políticos e católicos assassinados por comunistas durante a Guerra Civil Espanhola. Mais recentemente, Abascal usou a morte de Kirk para lembrar décadas de terrorismo por movimentos separatistas que também atacaram nacionalistas. Na Itália, Meloni cresceu reverenciando os fascistas mortos pelos partisans no norte da Itália, além de militantes de extrema direita mortos por extremistas de esquerda nos anos 1970.
Embora essas histórias de perseguição tenham servido de inspiração para grupos nacionalistas marginalizados, raramente encontraram ressonância fora de seus países. E as tentativas de transformar a onda anti-establishment da última década em um movimento internacional fracassaram até aqui. Após ser expulso da Casa Branca em 2017, o populista americano Steve Bannon viajou pela Europa tentando recrutar líderes de direita para um projeto fracassado chamado “O Movimento”.

Infográfico mostra de onde suspeito atirou em Charlie Kirk
— Bannon queria glória para si — disse Hermann Tertsch, eurodeputado do Vox, acrescentando que a mobilização em torno de Kirk era diferente, porque o influenciador repercutia junto a uma população jovem conservadora, conectada à internet.
Ventura, do Chega, acrescentou que o assassinato, registrado em vídeo e compartilhado de forma instantânea, ajudava a explicar por que Kirk se tornou um símbolo tão forte. E também, segundo ele, “talvez porque aconteceu nos Estados Unidos.
Jovens nacionalistas em toda a Europa têm repetido que os EUA sob Trump ultrapassaram o Velho Mundo em populismo e se tornaram o principal influenciador global. Agora, com Kirk — cujas opiniões sobre imigração, mulheres e islamismo o tornaram abominável para muitos liberais —, eles têm um mártir global.
— Ele era um modelo — disse César Enrique Pintado Planell, de 29 anos, ex-porta-voz da La Revuelta, organização juvenil ligada ao Vox.
Ele disse admirar a forma como Kirk frequentava campi universitários, algo que a extrema direita na Espanha “ainda está começando a fazer”. E citou a última postagem de Kirk nas redes sociais, na qual o americano pedia a politização do assassinato de uma refugiada ucraniana em Charlotte, na Carolina do Norte.
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— É parecido — disse Planell. — Se não falarmos sobre o que aconteceu com Charlie, nada vai mudar.
Em um estande vendendo bonés com o slogan “Make Spain Great Again”, Rocío López Belmonte, de 28 anos, disse que ficou chocada com o assassinato e compartilhou publicações de Kirk, traduzidas para o espanhol. Questionada se a Espanha tinha uma figura parecida, ela apontou para David Santos, de 41 anos, que vendia os bonés atrás dela.
Santos tem apenas uma pequena fração dos seguidores de Kirk, mas disse esperar seguir seus passos. Afirmou que, como o americano, foi “insultado, ameaçado”, especialmente depois de transmitir ao vivo opiniões anti-establishment de uma cidade espanhola onde grupos de extrema direita, incentivados pelo Vox, perseguiram imigrantes após um caso de agressão a um idoso local.
Agora, disse ele, foi o assassinato de Kirk que tocou um nervo da direita radical — na Espanha e fora dela.
— Vou falar sobre isso assim que tiver chance — disse.