Cuca Roseta emprestou o apego dramático a cada sílaba, doce característica do fado português, ao conjunto de canções brasileiras que formam “Até a fé se esqueceu”, o 11º álbum de sua carreira, recém-lançado no Brasil. “Toda atenção à palavra”, diz ao GLOBO, em entrevista por vídeo, a cantora lisboeta de 43 anos, um grande nome do fado em seu país.
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Ela se apresenta com o novo trabalho neste sábado (31), em Ouro Preto (MG), e no próximo sábado (7), em Petrópolis, Região Serrana do Rio, como parte da programação do Festival Fado em Cidades Históricas. Fechando a miniturnê, canta em Brasília no dia 10, celebrando o Dia de Portugal. Vai ser mais uma das muitas passagens de Cuca Roseta — nome artístico de Maria Isabel Rebelo Couto Cruz Roseta — no Brasil, com o qual afirma ter estreita ligação.
— O primeiro show a que eu fui na vida foi o de Daniela Mercury, aqui em Portugal — diz Cuca, com câmera ligada de dentro do carro estacionado em alguma rua de Lisboa. — Desde pequenina a música brasileira entra em minha casa, inclusive pelas novelas. Aqui em Portugal, temos sempre a música brasileira muito presente. Eu realmente gosto muito de bossa nova, mas gosto de um tudo de música brasileira.
“Até a fé se esqueceu” soa mesmo como um álbum de quem mergulhou no nosso cancioneiro, uma pesquisa entre lados B num arco compreendido entre os anos 1930 até os dias atuais. Está ali, por exemplo, “Sem você”, canção não tão conhecida da dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes. E “Arranha-céu”, uma sofridíssima seresta de 1937, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, que Cuca canta junto com Zeca Pagodinho, dos versos “Cansei de esperar por ela / Toda noite na janela / Vendo a cidade a luzir”.
— Zeca Pagodinho é o rei aqui em Portugal. Crescemos a ouvir o Zeca desde muito pequeninos. Foi um destino, porque houve um dia em que eu estava no Rio e nós fomos à casa do Zeca, a convite dele, e daí surgiu a ideia de fazermos este dueto — relembra Cuca.
Há outras gratas participações, como Seu Jorge — “um sonho que eu tinha desde muito nova” — na faixa-título, uma parceria de Cuca com Zé Renato, que, aliás, também canta com ela “Cama de ilusão”, canção dele e de Moska. O disco foi gravado no Rio, nas mãos de brasileiros, a começar pelo produtor João Mário Linhares. Entre os músicos, foram escalados Marcelo Caldi (piano e acordeão), Guto Wirtti (baixo) e Pedro Franco (violão, bandolim e cavaquinho).
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Costuradas por uma elegante melancolia, as músicas foram pinçadas numa curadoria viva, feita enquanto Cuca circulava por pontos boêmios cariocas como o Samba do Trabalhador ou a Pedra do Sal.
— Eu já fui ao Rio várias vezes, e já fui a muitas casas de samba. Mas realmente o Samba do Trabalhador é o que eu gosto mais. Nós falávamos sobre música a tarde toda, depois íamos cantar, depois ia ao Moacyr Luz (anfitrião do Samba do Trabalhador), depois ia ao Zé Renato. Foi muito importante para o álbum, porque uma coisa é um português que ouve música brasileira, outra coisa é estar no meio do samba.
Cuca é, de fato, muito bem relacionada por aqui. Além de rodas no subúrbio, ela também esteve em locais mais glamourosos, digamos assim: em 2023, cantou com Jorge Ben Jor no Copacabana Palace. De Ben Jor, que virou seu amigo, ela levou para o disco “Dzarm”.
— Como as letras destas músicas são magníficas, foi uma viagem muito bonita — reflete Cuca.

