Num feito raro em sua história, filmes brasileiros conquistaram seguidamente prêmios nos três maiores festivais de cinema do planeta: “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, melhor roteiro no Festival de Veneza; “O último azul”, de Gabriel Mascaro, Urso de Prata no Festival de Berlim; e “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, prêmio de direção e ator (Wagner Moura) no Festival de Cannes, encerrado no fim de semana passado. As cerejas do bolo foram o Globo de Ouro de Fernanda Torres e o Oscar de melhor filme internacional conquistado pelo drama dirigido por Salles.
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Neste momento em que o cinema brasileiro emplaca uma sequência de vitórias comerciais e artísticas, sugerindo um ciclo de bonança para a indústria audiovisual nacional, tendo como mais recente a conquista em Cannes, um episódio de 2003 vem à memória.
Naquele ano, Rodrigo Saturnino Braga, então diretor do braço brasileiro da distribuidora Sony Pictures, decidiu lançar “Carandiru” nos cinemas um mês antes da estreia do filme de Hector Babenco (1946-2016) na competição do Festival de Cannes de 2003. O executivo se valeu de uma das regras da mostra francesa, que não exige ineditismo dos filmes selecionados em seu país de origem.
— Quando a matriz da Sony me avisou que o filme disputaria a Palma, pouco antes do anúncio oficial, não pensei duas vezes. “Carandiru” estreou alguns dias depois de Cannes revelar sua seleção. Peguei toda a exposição que o festival gerou. Aqui virou a Copa do Mundo! Fizemos 4,8 milhões de espectadores — conta Braga, hoje à frente do Filme B, portal sobre o mercado audiovisual. — Mas isso só foi possível porque vivíamos um bom momento de participação no mercado. Tivemos, no ano anterior, o sucesso de “Cidade de Deus”, que iria para o Oscar, e “Olga” no ano seguinte.
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Braga ressalta que à época de “Cidade de Deus” e “Carandiru” o público local ainda tinha no horizonte o fenômeno “Central do Brasil” (1998), também de Salles, que vencera o Festival de Berlim e acabaria na disputa do Oscar. Além de contar com autoestima do brasileiro, a indústria colhia os frutos das políticas de fomento do primeiro ano do governo de Luiz Inácio da Silva e, claro, o “esforço de bons cineastas”.
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Segundo o executivo, o que vemos agora talvez seja consequência da recuperação desse orgulho artístico, depois de anos de turbulência política e perseguições à indústria cultural. Outros agentes da indústria nacional concordam que a boa receptividade e o interesse pelo que é produzido no país atualmente são resultado de um longo processo, cheio de altos e baixos ao longo do percurso.
— Este é o momento auge de uma longa trajetória, que não começou agora. Já passamos por muitos “Cidade de Deus”, “Que horas ela volta?”, “O ano em que meu pai saiu de férias” e “Aquarius” para chegar aqui. Essas novas vitórias vieram coroar nosso sólido caminho no mercado, comprovando que estamos entrando definitivamente em um segundo ciclo não só do cinema, mas do audiovisual como um todo, porque a repercussão de filmes também chama a atenção para o que produzimos para a TV e o streaming — analisa o produtor Fabiano Gullane, da Gullane Filmes, que saiu com o inédito prêmio de melhor série de TV, por “Senna”, dos Prêmios Platino deste ano.
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Gullane também ressalta que a indústria audiovisual brasileira está mais competitiva e mais bem preparada para coproduzir com o restante do mundo, “possibilitando buscar mais espaço no mercado internacional para obras em português, ou feitas no Brasil”. E esse Brasil que está ganhando o mundo é diverso, em termos estéticos e temáticos, como comprovam os títulos exitosos: um drama político (“Ainda estou aqui”, o primeiro original Globoplay), uma ficção científica de fundo social (“O último azul”) e um drama de suspense de fundo político (“O agente secreto”).
— “O último azul” é muito diferente tematicamente dos outros dois, mas isso reforça que o mercado internacional, quando está olhando para o Brasil, está buscando também a sua diversidade. O que é comum e valorizado nestes filmes pelos curadores e distribuidores internacionais é a honestidade do desejo de reinventar a forma como narramos nossas histórias — reforça Gabriel Mascaro, avisando que seu filme já foi vendido para países como China, Alemanha, França, Austrália, Indonésia e Espanha, entre outros territórios.
‘Temos que produzir filmes à altura do mercado global’
Gabriel Mascaro endossa a ideia de um espaço mundial aberto a filmes brasileiros de diferentes perfis:
— Vim de uma escola de realização de cinema em Pernambuco que não tem medo de experimentar.
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Foi essa abertura que Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio, viu em Cannes este ano, para onde levou “Goes to Cannes”, iniciativa em parceria com a Secretaria do Audiovisual que apresentou cinco projetos de filmes brasileiros, em diferentes estágios de pós-produção, para agentes de vendas e programadores de festivais internacionais. Segundo ela, a repercussão de “Ainda estou aqui” gerou curiosidade de produtores e distribuidores estrangeiros sobre o que está sendo produzido no Brasil — não necessariamente obras com os mesmos ingredientes.
— Lembro que, ao longo dos últimos 20 anos, vinham perguntar se teríamos o próximo “Cidade de Deus”, ou o próximo “Tropa de elite” (vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim 2008). Pela primeira vez não ouvi nada disso — diz Ilda, sócia do Grupo Estação. — Vinham falar de seu interesse não por filmes envolvendo a história política recente, como “Ainda estou aqui” e “O agente secreto”, mas por histórias brasileiras em geral. Significa que a indústria está muito mais aberta e precisa de histórias diferentes, e temos que ser capazes de produzir filmes à altura do mercado global.
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Todos fazem questão de lembrar que o sucesso de “Ainda estou aqui” é exceção dentro da realidade da indústria local, dependente de fundos estatais. Rodrigo Saturnino Braga lembra que o filme é resultado de uma engenharia de produção rara, com canais próprios de financiamento e recursos para desenvolver o projeto da melhor forma. As redes sociais, diz ele, apenas repercutiram as qualidades do filme, transformando-o na 9ª maior bilheteria da história do país: 5,7 milhões de espectadores.
— Já “O último azul” e “O agente secreto” são filmes produzidos dentro do sistema usual, com grande parte financiada pelo Fundo Setorial do Audiovisual, e toda a burocracia que ela envolve. Não dá para saber ainda se estes filmes terão carreiras cinematográficas de sucesso, apesar dos prêmios, até por não terem sido lançados no mesmo período em que foram premiados, como aconteceu com o filme de Salles. Mas têm boas chances — diz Braga, falando em números. — Nossa produção vai bem. O público dos filmes brasileiros é 13% superior ao do ano passado e um pouco inferior ao crescimento de 15% do mercado total. Esta semana, temos três filmes nacionais entre as dez maiores bilheterias, o que não é comum: “Homem com H”, “Ritas” e “Manas”. Filmes bem diferentes entre si, sem serem destinados a uma audiência de perfil popular.
Fabiano Gullane acredita que a consagração de “Ainda estou aqui” faz com que “a gente acredite que temos condições de criar alguma estabilidade de produção no Brasil, para não cairmos no esquecimento de novo”. Ilda afirma que, para manter esse nível de qualidade, é essencial “termos um programa de financiamento funcional, previsível” e, ainda, “ter projetos e profissionais capazes de fornecer produtos de alto nível”. Braga não sabe dizer se estamos atravessando um ciclo sustentável ou de voo curto, porque a estrutura da indústria local continua deficiente.
— Não creio que seja correto exaltar o bom momento sem lembrar que a questão estrutural é grave e está longe de ser resolvida — argumenta. — A produção brasileira ainda é excessivamente dependente do Fundo Setorial, que retarda o processo de assinatura de contratos e liberação de recursos. Um grande número de filmes não chega ao mercado adequadamente. Falta uma política pública que permita projetos mais comerciais, sem excessiva subordinação ao Fundo. Sem falar na regulamentação do mercado de vídeo sob demanda, que é discutida há dez anos.

