Uma onda crescente de roubos tem levando grandes redes de farmácias a rever estratégias e investimentos em segurança. De câmeras de monitoramento a seguranças armados na porta, os reforços tentam proteger drogarias da ação direcionada de quadrilhas que invadem as lojas, geralmente de madrugada, em busca de produtos de alto custo, principalmente dermocosméticos e as populares canetas injetáveis Ozempic, Wegovy e Mounjaro. Com cada vez menos dinheiro nos caixas, onde predominam os pagamentos eletrônicos, esses itens se tornaram os artigos mais valorizados e cobiçados nas lojas.
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Indicados para o tratamento de diabetes tipo 2, os medicamentos à base de semaglutida, no caso do Ozempic, e tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, despertam um interesse cada vez maior por seus efeitos emagrecedores. Wegovy (semaglutida) e Saxenda (liraglutida) têm indicação específica para obesidade e também estão no radar dos criminosos.
Dados do Institute for Human Data Science da consultoria IQVIA mostram que as vendas de semaglutida no Brasil saltaram de US$ 27,5 milhões (R$ 144 milhões no câmbio atual) em 2019 para US$ 818,3 milhões (R$ 4,3 bilhões) no ano passado, alta de quase 3.000%. A demanda crescente e o preço — as canetas custam entre R$ 700 e R$ 1,2 mil — atraem criminosos, que repassam medicamentos roubados para um mercado paralelo que dispensa receita médica e cobra menos.
Do outro lado, os roubos deixam um prejuízo significativo, o que já aparece no balanço das grandes redes. Na última divulgação de seus resultados, a RD Saúde, das bandeiras Raia e Drogasil, admitiu que está sofrendo perdas significativas com roubos, mas não detalhou o impacto. A empresa encerrou o primeiro trimestre de 2025 com lucro bruto de R$ 2,9 bilhões, alta de 8,3% em relação ao mesmo período de 2024. Apesar disso, admitiu que o resultado poderia ter sido melhor sem o impacto das perdas com roubos e furtos de canetas e dermocosméticos.
Esses roubos têm sido registrados desde o ano passado principalmente na Região Metropolitana de São Paulo, que concentra a maior parte das 93 mil farmácias brasileiras, e no interior paulista. Em junho de 2024, uma mesma farmácia no Parque São Lucas, na Zona Leste da capital, foi assaltada três vezes em menos de um mês. Os prejuízos somaram R$ 45 mil, com vinte caixas de Ozempic e outros medicamentos levados.
Em janeiro, cinco homens foram presos após o assalto a uma farmácia em Sumaré, perto de Campinas. No carro em que eles estavam foram encontradas 79 caixas de remédios como Ozempic, Wegovy e Victozam (à base de liraglutida), avaliadas em R$ 100 mil.
No mês seguinte, dois homens e uma mulher foram presos após roubarem farmácias de Perdizes e Pompeia, na Zona Oeste da capital. Entre os itens recuperados, caixas de Wegovy e Ozempic que somavam R$ 50 mil. Em Sorocaba, três homens foram detidos com 55 medicamentos roubados em duas drogarias, que amargariam um prejuízo de R$ 183 mil. A maior parte das caixas era de Ozempic.
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No registro mais recente, dois adolescentes foram apreendidos no mês passado após levarem mais de R$ 35 mil em dermocosméticos e medicamentos, incluindo canetas emagrecedoras, de uma farmácia do Jardim Paulista, perto do Parque Ibirapuera.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo afirmou que as polícias Civil e Militar “seguem vigilantes para combater roubos e furtos em farmácias, incluindo os casos que envolvem medicamentos de alto custo”.
O CEO da RD, Renato Raduan, explica que, desde o ano passado, a companhia incrementa medidas de prevenção. Os estoques em loja foram reduzidos, e a empresa passou a jatear produtos mais visados pelas quadrilhas, como as canetas, cujas caixas ganharam uma tarja preta que avisa: “Se você não comprou esta embalagem na Raia ou Drogasil, denuncie 3003-7242”. A empresa também reconfigurou expositores dos itens nas lojas.
— Não dá para dormir tranquilo com aumento de 0,3 ponto percentual no índice de perdas. É um dinheiro literalmente rasgado — diz Raduan.
Outras companhias também admitem ter aumentado investimentos em segurança para estancar o impacto do crime na contabilidade. Marcos Colares, CEO da DPSP (grupo que controla 1.650 lojas das drogarias Pacheco e São Paulo), diz que a maior parte dos roubos e furtos acontece na Grande São Paulo, com situações pontuais no Rio. De capital fechado, a empresa não abre números, mas o executivo diz que fez, em 2024, o maior investimento em segurança de toda a história do grupo:
— Sempre trabalhamos muito forte a segurança em loja, mas os casos estão crescendo no setor. Antes era furto, agora é assalto à mão armada. Estamos preocupados e investindo para inibir isso, com contratação de pessoal e monitoramento com câmeras.
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Na rede Ultrafarma, o estoque em loja das canetas foi reduzido a no máximo três unidades por tipo de medicamento. Além disso, cada estabelecimento tem um segurança patrimonial civil por turno de prontidão, além de agentes armados que fazem rondas diárias pelas unidades da rede.
— Mantemos um estoque baixo desse medicamento para poder atender os clientes, mas sem atrair os criminosos. Além disso, só entregamos o pedido após o pagamento, para evitar também os furtos. Infelizmente é uma realidade que nos preocupa — lamenta Adriana da Silva Ferreira, gerente de uma das drogarias da rede, no bairro de Mirandópolis, na Zona Sul de São Paulo.
Com 1,7 mil lojas no país, sendo123 em São Paulo, a Pague Menos também revisou seu planejamento de segurança. Os estoques de canetas injetáveis foram reduzidos, as geladeiras que armazenam os medicamentos ganharam cadeados e as equipes de segurança foram reforçadas. Renan Vieira, diretor comercial da rede, diz que a preocupação é uma realidade hoje no setor:
— Se os roubos estão acontecendo, esses produtos estão indo para algum lugar, porque a conta tem que fechar.
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Fora do epicentro do problema, Antonio Napp, diretor financeiro da Panvel, concentrada na Região Sul, acompanha o cenário com cautela:
— Farmácias acabam sendo convidativas ao furto de oportunidade. Não é um tema novo, mas preocupa.
O crime não afeta apenas a rotina e o planejamento do varejo. A cadeia logística dos medicamentos também entrou no alvo das quadrilhas e está se adaptando. Roubos, furtos e extravios de cargas de medicamentos precisam ser reportados à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O monitoramento do órgão diz que, em 2023, 4.807 canetas Ozempic foram desviadas em ocorrências nos estados de São Paulo e Paraná. Outras 3.878 unidades de Saxenda também foram perdidas. No ano passado, 8.219 canetas Ozempic foram roubadas na etapa de distribuição em apenas três ocorrências, nas cidades de Alagoinhas (BA), Santa Isabel (SP) e São Gonçalo do Sapucaí (MG). Ainda não houve registros desse tipo neste ano.
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Estudos das consultorias Deloitte e Overhaul encomendados pela Associação Brasileira dos Distribuidores de Medicamentos Especializados, Excepcionais e Hospitalares (Abradimex) calculam que o roubo de cargas tenha causado ao setor um prejuízo de R$ 283 milhões em 2024. A maior parte das ocorrências foi em vias urbanas fluminenses e paulistas. Paulo Maia, presidente da entidade, observa que os dados não são separados por tipo de medicamento roubado, mas diz que há um aumento nos relatos de cargas levadas por criminosos contendo canetas emagrecedoras.
— Esses produtos têm sido alvo das quadrilhas. Cargas roubadas não trazem prejuízo apenas para as nossas operações, mas para a população que recebe esses medicamentos no mercado paralelo. São produtos controlados que, fora da temperatura certa, perdem a efetividade — observa.
Para tentar prevenir ocorrências e minimizar perdas, distribuidoras têm mudado os horários de transporte das cargas e ampliado em até 60% investimentos em segurança, incluindo a adoção de veículos blindados, escolta, câmeras e blindagem elétrica de baús. Tudo isso, porém, eleva os custos logísticos, pressionados ainda, segundo Maia, por contratos de seguro mais caros ou até recusados por conta do risco crescente.
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A empresa de segurança e transporte de valores Prosegur registrou aumento na procura de seus serviços por distribuidoras de fármacos para reforçar a segurança na logística de medicamentos de alto valor agregado, como os baseados em semaglutida. Esses itens são levados em caminhões refrigerados e blindados da empresa, que contam com agentes armados, seteiras para reação a ataques a tiro, fechaduras randômicas — com controle pela central — e videomonitoramento interno dos veículos.
— São mercadorias caras e com grande oportunidade de escoamento, pela comercialização fácil e pelo interesse crescente dos consumidores — diz Sérgio França, diretor comercial e de Estratégia da Prosegur Cash.
Em nota, a dinamarquesa Novo Nordisk, fabricante de Ozempic, Wegovy e Saxenda, informou que tem reforçado suas medias de segurança na cadeia logística de distribuição até os pontos de venda, mas ressaltou que os “estabelecimentos comerciais passam a ser responsáveis pela preservação dos estoques” após receber os produtos.

