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sumiço de milionária tcheca intrigra o Brasil há mais de seis décadas

BRCOM by BRCOM
junho 1, 2025
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Ossos de uma mão de mulher, segundo peritos, após escavação em sítio de suspeito apontado pela polícia, em 1963 — Foto: Reprodução

Fragmentos de ossos que, unidos, compõem a forma de uma mão. Sete unhas — três ainda cobertas por um esmalte vermelho intenso, as demais marcadas por vestígios esmaecidos da mesma cor. São essas as peças que sobraram de um enigma quase esquecido pelo tempo, um quebra-cabeça há mais de seis décadas sem solução: o desaparecimento da milionária tcheca Dana de Teffé, no Rio. Decorridos quase 64 anos, os despojos repousam sobre uma folha de papel, recoberta de plástico, no processo judicial que trata da ocultação de seu cadáver, arquivado no acervo do Tribunal de Justiça do Rio.

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Naquele tempo, sequer se falava em exames de DNA. Ainda assim, por intuição, os peritos decidiram preservar os restos mortais encontrados na pocilga do sítio do principal suspeito da época, no interior do estado do Rio. Os ossos foram cuidadosamente inseridos sobre os nove volumes do processo, junto aos apensos. Resistiram ao tempo — e ali permanecem, intactos, sob os cuidados do Judiciário, como relíquias de um mistério em pleno século XXI.

Ossos de uma mão de mulher, segundo peritos, após escavação em sítio de suspeito apontado pela polícia, em 1963 — Foto: Reprodução

Quando analisaram a ossada, em julho de 1963, os peritos do antigo Instituto Médico-Legal da Secretaria de Segurança Pública, Walmor Giani e Antônio José de Lacerda Neto, chegaram a uma conclusão sóbria e definitiva: os ossos e as unhas pertenciam a uma mulher adulta. As unhas, descreveram, eram naturais, longas e bem cuidadas — traços de feminilidade que atravessaram os anos como última memória de Dana, a milionária desaparecida, mas nunca houve plena certeza.

Em 4 de maio de 1921, na então Tchecoslováquia, nasceu Dana Edita Fischerova. Filha de Alfredo e Margarida Fischerova, sua juventude foi marcada pelos horrores que assolaram a Europa. Durante a ocupação nazista, os pais dela foram levados para um campo de concentração.

Os registros são imprecisos e não se tem conhecimento de como ela sobreviveu. O que se sabe é que Dana chegou a trabalhar em concertos, na Itália, e se casou três vezes antes de chegar ao Brasil. Pela ordem, foram seus maridos: o militar e político fascista Ettore Muti, na Itália; o dentista Alberto Díaz, na Espanha; e o jornalista Carlos Denegri, no México.

De seus dois passaportes, resgatados nos autos do processo, é possível entender por que ela se casou tantas vezes. Pela foto, já se tem a ideia de uma bela mulher, de 1,70 metro de altura e olhos da cor de café. Mas não era apenas sua aparência que chamava atenção. Dana dominava seis idiomas — inglês, espanhol, italiano, tcheco, português e alemão — e até um pouco de russo. Tal conhecimento alimentou a última versão sobre seu paradeiro: a de ter atuado como espiã durante a Guerra Fria e buscado refúgio no Brasil.

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Dana chegou ao solo brasileiro em outubro de 1951. Elegante e culta, rapidamente integrou-se à alta sociedade carioca. Em um jantar de gala, conheceu o diplomata e piloto de automobilismo Manuel Antônio de Teffé. Seis meses após o encontro, se casaram no México, onde o noivo foi embaixador.

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  • Tcheca se separa do diplomata brasileiro
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Tcheca se separa do diplomata brasileiro

Após uma década de união, sem filhos, separaram-se amigavelmente. Na divisão de bens, ficou com um apartamento no décimo andar do Edifício Massilia, na Praia de Botafogo, um dos bairros mais nobres da Zona Sul à época. Também comprou um imóvel, em São Paulo. De sua fortuna pessoal, Dana possuía prataria fina e muitas joias adquiridas ao longo da vida.

Para resolver a parte burocrática da separação, contratou o advogado Leopoldo Heitor de Andrade Mendes, então com 38 anos. Ela era pouco mais de um ano mais velha que ele. Apesar de Leopoldo Heitor já ter respondido a processos por peculato, Dana confiava plenamente nele — com quem foi vista pela última vez, em 29 de junho de 1961.

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Naquele dia, o advogado se ofereceu para levá-la de carro a São Paulo, sob o pretexto de que havia conseguido para ela um emprego em uma multinacional. À frente de seu tempo, a tcheca confidenciou à amiga Maria Elisa Fabrino Tuccimei — a Malisa, como era carinhosamente chamada — que estava feliz com a oportunidade de trabalhar. Mais ainda: animava-se com a possibilidade de, graças ao novo emprego, voltar a viajar para Roma, na Itália, já que a empresa em questão seria italiana. Mas não estava entre os planos de Dana deixar o Brasil. Pelo contrário. Segundo Malisa, ela pretendia manter o apartamento no Rio justamente por gostar da cidade.

Para a viagem, Dana separou uma caixa com joias: medalhas que enfeitavam uma pulseira, um cavalinho com um indígena montado, broches e anéis, tudo de ouro. Malisa contou à polícia que a amiga deixara vários cheques assinados para que ela pudesse pagar os empregados que pintavam o apartamento na Praia de Botafogo. Um dos quartos do imóvel foi trancado, guardando objetos de valor como baixelas e castiçais de prata, casacos de vison e louças de cristal. Entre uma e outra confidência, Dana disse ainda que sonhava em se casar novamente.

Por volta das 19h, Leopoldo Heitor chegou ao apartamento de Botafogo para buscá-la. Dana vestia calça comprida verde e uma blusa preta, segundo descreveu sua empregada, Maria Aparecida. Antes de seguir viagem pela Rodovia Presidente Dutra, principal via de ligação do Rio a São Paulo, o advogado deixou Malisa em casa, em Copacabana. Seria a última vez que as amigas se cumprimentariam.

O advogado Leopoldo Heitor (de braços cruzados) acusado do homicídio de Dana de Teffé — Foto: Luiz Pinto/Agência Globo
O advogado Leopoldo Heitor (de braços cruzados) acusado do homicídio de Dana de Teffé — Foto: Luiz Pinto/Agência Globo

No dia seguinte à partida deles da capital fluminense, Leopoldo Heitor reapareceu no Rio, com uma bala alojada na coxa direita. Alegou ter sido vítima de um assalto. Para Malisa e outras pessoas próximas à Dana, afirmou que a tcheca havia embarcado para a Europa. De posse de uma procuração, que lhe concedia plenos poderes, trazendo a assinatura da vítima, Leopoldo vendeu os imóveis e teve acesso às contas de banco de Dana. A ausência de notícias e a venda de bens começaram a levantar suspeitas.

O primeiro a perceber que algo estava errado foi o professor Oscar Stevenson, jurista renomado e, coincidentemente, defensor de Leopoldo Heitor no processo que respondeu por peculato. Oito meses após o desaparecimento de Dana, enfim, o caso foi registrado na polícia. Em depoimento prestado na Delegacia de Duque de Caxias — área de influência do então deputado Tenório Cavalcanti, procurado por Stevenson para interceder —, o professor relatou que o advogado ostentava sinais evidentes de riqueza. E arrematou: “Algo de terrível havia ocorrido com Dana de Teffé”.

A essa altura, repórteres investigativos da revista O Cruzeiro também passaram a atuar no caso. A cobertura da imprensa contribuiu para manter a história viva no noticiário. Durante as investigações, ofícios foram enviados à Polícia Federal e a embaixadas. Descobriu-se, então, que Dana jamais deixara o país. Como o último a ser visto com ela fora o advogado, Leopoldo Heitor passou a ser o principal suspeito.

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Em 31 de março de 1962, o delegado de Duque de Caxias, Amyl Ney Rechaid, indiciou o advogado e pediu sua prisão preventiva por latrocínio — roubo seguido de morte. Três dias depois, a Justiça decretou sua prisão.

Aos investigadores e à Justiça, Leopoldo Heitor apresentou três versões distintas para o sumiço de Dana. A primeira afirmava que ela havia viajado para a Europa. Na segunda, dizia que ambos teriam sido vítimas de um assalto na Rodovia Presidente Dutra, na altura de Piraí, no Sul Fluminense. Dana teria morrido após ser baleada. Sustentou que, temendo ser acusado do crime, pediu a um amigo que a enterrasse em segredo. Alegou, inclusive, que teriam feito um pacto: ele jamais revelaria o nome do cúmplice, e este, por sua vez, não lhe diria onde havia enterrado o corpo.

A polícia, no entanto, não se convenceu. Indiciou também o amigo dele, Hélio Vinagre, por ocultação de cadáver. Ao concluir o inquérito, o delegado Rechaid foi taxativo em seu relatório:

“A ocultação do corpo de Dana de Teffé, confessada pelo indiciado, revela execução de um monstruoso plano de matar para roubar e, por outro lado, o ânimo extraordinariamente perverso e a alta periculosidade do autor.”

Com isso, as buscas pelo corpo se intensificaram. Como o desaparecimento teria ocorrido ao longo da Dutra, e Leopoldo Heitor possuía um sítio na região, as escavações começaram pelas imediações. Um dos empregados do advogado — o Chico, de 29 anos —, admitiu à polícia que o patrão lhe pediu para enterrar o corpo de uma mulher num cemitério local.

Escavações à procura do corpo de Dana de Teffé, no sítio que pertenceu ao acusado no Sul Fluminense — Foto: Arquivo/Agência Globo
Escavações à procura do corpo de Dana de Teffé, no sítio que pertenceu ao acusado no Sul Fluminense — Foto: Arquivo/Agência Globo

Policiais, peritos e jornalistas foram até a área indicada. Uma ossada feminina chegou a ser encontrada, mas era de uma mulher negra. A perícia da época constatou que a terra havia sido revirada, levantando a suspeita de que o corpo teria sido retirado dali. Chico contou que recebeu 8 mil cruzeiros pelo serviço, com os quais comprou um terno, um par de sapatos e um relógio. Testemunhas da vizinhança confirmaram que ele apareceu com um terno — mas descalço.

Segundo o depoimento do empregado, Dana teria sido morta num dos quartos do sítio. Chico também foi indiciado pelo crime. Dois anos após o sumiço da milionária, investigadores encontraram os ossos da mão e unhas femininas sob uma laje de concreto de cinco centímetros de espessura no chiqueiro do sítio.

No primeiro julgamento, Leopoldo Heitor foi condenado. Recorreu, e conseguiu que a capitulação do crime fosse alterada de latrocínio para homicídio, o que deslocou a competência para o Tribunal do Júri, anulando o anterior. O próprio réu atuava ativamente em defesa própria, mas também era auxiliado por advogados contratados.

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Na terceira e última versão apresentada pelo acusado, o caso ganhou contornos de conspiração internacional: Dana teria sido sequestrada no caminho para São Paulo, fortalecendo a tese de que seria uma espiã da Guerra Fria. Segundo ele, os homens que a levaram falavam um idioma que ele não compreendia.

Leopoldo Heitor passou pelo júri por duas vezes, em 1966 e 1969, e, apesar das versões contraditórias, foi absolvido. Na época prevalecia a máxima: sem corpo não há crime. À frente da acusação, o promotor José Ivanir Gussem se tornou figura central no caso, sustentando com convicção que o crime fora cometido para ocultar o roubo dos bens da vítima. O representante do Ministério Público chegou a pedir o desaforamento — ou seja, que o julgamento ocorresse na capital —, mas, à época, prevaleceu o entendimento de que deveria ser mantido na comarca onde o crime teria ocorrido.

Entre as estratégias defensivas que adotou, Leopoldo Heitor arguiu a suspeição do magistrado, questionou a sanidade de Chico — que desapareceu após prestar depoimento — e chegou a alegar a existência de um complô envolvendo o professor Stevenson, o deputado Tenório Cavalcanti e um jornalista.

Julgamento do advogado Leopoldo Heitor na ação penal pelo homicídio de Dana de Teffé, na Comarca de Rio Claro, em 11 de abril de 1969 — Foto: Arquivo / Agência O Globo
Julgamento do advogado Leopoldo Heitor na ação penal pelo homicídio de Dana de Teffé, na Comarca de Rio Claro, em 11 de abril de 1969 — Foto: Arquivo / Agência O Globo

No período de cerca de nove anos em que ficou preso, ele também chegou a fugir da prisão. Alegava que esperou muito tempo para ser julgado. Durante esse período, casou-se quatro vezes. Segundo uma pessoa próxima, depois de ser absolvido, passou a levar uma vida mais simples, inclusive ajudando pessoas que não tinham condições de pagar por um advogado. Leopoldo Heitor morreu de infarto em 2001, sem jamais revelar o paradeiro de Dana.

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A mão com esmalte vermelho segue preservada dentro dos autos do processo. Com os avanços da tecnologia forense, especialmente nos exames de DNA, é possível que o mistério encontre um fim — caso algum parente compatível apareça e aceite se submeter à comparação genética. O perito legista da Polícia Civil do Rio, João Branco, confirma essa possibilidade. Ele elogia, inclusive, o trabalho dos colegas da época que cuidaram da preservação da prova.

A tcheca Dana Edita Fischerova de Teffé, antes de desaparecer, em 29 de junho de 1961 — Foto: Arquivo / Agência O Globo
A tcheca Dana Edita Fischerova de Teffé, antes de desaparecer, em 29 de junho de 1961 — Foto: Arquivo / Agência O Globo

— É possível fazer o exame de DNA em fragmentos ósseos se houver um parâmetro de DNA de grau de parentesco confiável. Será uma probabilidade, não uma certeza absoluta.

A família de Leopoldo Heitor não quis se pronunciar.

O caso permanece até hoje como um dos mais intrigantes da crônica policial brasileira.

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