Visitar o Vale do Café, nome simbólico do Vale do Paraíba do Sul Fluminense, e não poder degustar a bebida quentinha, que vem do grão que deu fama à região no século XIX, já foi motivo de frustração para muitos turistas. O cenário atual, porém, está mais animador para os amantes do tradicional cafezinho. Nos últimos anos, o cultivo voltou à região, mas com uma produção em menor escala, em parte orgânica, e um produto, enquadrado nas categorias especial e gourmet. Agora, fazendeiros colhem os frutos da iniciativa com o aumento do turismo.
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As primeiras colheitas do período mais recente foram em 2018, dois anos após o lançamento de um programa de reintrodução do café no Vale do Paraíba, o Vocações Regionais da Cafeicultura Fluminense, uma parceria entre o Sebrae e o governo do estado. Os grãos cultivados nas atuais lavouras são do café arábica, espécie mais sofisticada, de cultivo complexo e grande variedade de aromas e sabores. O processo de produção inclui colheita manual uma vez por ano, geralmente entre março e junho. Em seguida, os grãos vão para a secagem ao sol e são armazenados, para as etapas posteriores de descascar e torrar.
O retorno do café ao Vale do Paraíba acontece após décadas sem o cultivo. No século XIX, a área fornecia mais de 70% do café consumido no mundo, mas entrou em declínio com a abolição da escravatura, a exaustão do solo e a concorrência com outras regiões.
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De acordo com boletim publicado em janeiro pela Companhia Nacional de Abastecimento, ligada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), a produção no estado em 2024 foi estimada em 346,5 mil sacas de café arábica, um aumento de 13,2% em relação à safra anterior, em 2023, com 306 mil. As regiões mais importantes na cafeicultura continuam sendo a Serrana e o Noroeste do estado. Porém, o Sul Fluminense vem aumentando sua participação. Um levantamento feito pelo Sebrae em março identificou 40 propriedades produtoras, sendo mais da metade nos municípios Engenheiro Paulo de Frontin, Barra do Piraí, Vassouras e Valença.
Criada em dezembro do ano passado, a Associação de Cafeicultores do Vale do Café (Ascav), começou com quatro fazendas associadas. Hoje, já soma mais de 50, espalhadas pelos 15 municípios da região, totalizando 500 mil pés de cafés especiais. A expectativa do presidente, o cafeicultor João Machado, é fechar o ano com 70.
— Esse movimento é um reflexo do salto da produção na região. O que nos motivou foi o aumento do interesse pelo café especial, que tem uma procura absurda, e a vontade de retomar a nossa história — conta Jorge.
O produtor conta que as primeiras fazendas começaram o cultivo em 2018, mas muitas estão entrando agora no negócio:
— São pequenos produtores, com o maior chegando a 70 mil pés. Uma produção em larga escala tem a partir de um milhão. Mas não temos o café commodity, aquele vendido em mercados, porque nosso foco é qualidade. Temos apenas o gourmet e o especial. A maioria é vendida nas cafeterias da região, nas próprias fazendas, que promovem turismo de experiência, oferecendo visitas para mostrar desde a produção até a torra e degustação, e em eventos locais.
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O dentista aposentado e produtor Paulo Roberto dos Santos, de 74 anos, foi um dos pioneiros na retomada da produção de café na região. Dono da Fazenda Florença, no distrito de Conservatória, em Valença, de 1852 e adquirida por ele em 1998, aderiu ao programa do Sebrae em 2016 — antes, o local era destinado à cultura do leite. Em 2019, fez a primeira colheita. Desde então, o produto, patenteado como Vale do Café, tem acumulado premiações. Já foi campeão do Concurso de Cafés Especiais do Estado do Rio e do Concurso Nacional Abic de Qualidade do Café. O produto é fornecido para a Pousada Fazenda Florença, no mesmo espaço, e para cafeterias da capital fluminense e de São Paulo.
Com 50 mil metros quadrados de área, a fazenda abriga 20 mil pés de café e produz mais de 40 sacas anualmente, estima Paulo. O produto é fornecido para a Pousada Fazenda Florença, no mesmo espaço, e para cafeterias da capital fluminense e de São Paulo.
— A volta do café era uma demanda das pessoas que vinham visitar a região e sempre reclamavam da ausência de um produto original. O que me impulsionou também foi a paixão pelo produto e a relação da região com ele. Agora, o turista que vem aqui pode degustar cafés premiados e da melhor qualidade — destaca Paulo. — Todos os cafés arábica são mais adocicados, com um sabor que lembra um pouco a cana de açúcar. Mas as características variam a depender da safra. Tem ano em que eles podem ter notas de frutas cítricas ou frutas vermelhas, por exemplo.
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A Fazenda Florença mantém a arquitetura original, com alpendre neoclássico, telhados coloniais e mobiliários de origem portuguesa e francesa. O público pode conhecer todo esse patrimônio histórico por meio de visitas guiad. O roteiro inclui ida à casa sede, guiada por uma historiadora, peças teatrais que retratam o século XIX e degustação numa cafeteria em meio ao cafezal.
Eventos na região também se dedicam a disseminar a cultura e a história da região, atraindo visitantes de fora, cuja demanda foi um dos impulsos para a reintrodução do café. É o caso do Festival Vale do Café, com programação que inclui concertos em praças, fazendas e igrejas centenárias no Vale do Paraíba. A 20ª edição começou na sexta-feira e vai até o dia 27. Para mais informações, acesse: festivalvaledocafe.com.br/programacao.
— A retomada se dá muito em virtude da vontade de pessoas visionárias que compraram as fazendas deterioradas e em ruínas na região e começaram a restaurá-las para uso recreativo. Em seguida, entenderam que havia um mercado para o café — analisa Roberta Kelab, CEO da Backstage, que, há mais de 20 anos, organiza o festival.
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A arquiteta ítalo-argentina Josefina Durini, radicada no Brasil há 25 anos, liderou um processo de revitalização da propriedade que adquiriu em 2007, a Fazenda Alliança, construída em 1863 em Barra do Piraí, que já pertenceu ao terceiro Barão de Rio Bonito, José Pereira de Faro. Ela reformou, por exemplo, a talha de café, espaço para armazenamento de grãos, onde ela mantém todo o maquinário antigo e instalou uma cafeteria. Hoje, além de receber turistas para hospedagem, a fazenda oferece visitas para conhecer todo o processo de produção do café. De brinde, há a degustação. A propriedade abriga 14 mil pés de grão arábica. O produto leva o sobrenome da dona: Darini.
— A fazenda já era produtora de leite de búfala, mas, por conta de seu histórico, senti vontade de ter café. Tive a sorte de fazer parte do projeto de reintrodução. A minha primeira colheita foi em 2021. Toda a nossa produção é orgânica certificada e muitíssimo selecionada. A nossa torra é média, o que permite perceber as diferentes nuances no sabor ao degustar a bebida, que não precisa de açúcar — explica. — Nós vendemos on-line, para nossos visitantes e hóspedes e em feiras. Ainda não estamos exportando, mas temos planos para isso. A cada ano, aumentamos um pouco mais a produção.
Millena Nascimento, de 26 anos, trabalha na colheita da Fazenda Alliança, função composta, em sua maioria, por mulheres. E diz ser apaixonada pelo que faz:
— Sinto-me feliz em poder fazer parte dessa histórica da retomada da cultura do café na nossa região, mostrando para as pessoas que ainda podemos produzir de maneira sustentável.
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O plantio também está a todo vapor na Fazenda União, no município de Rio das Flores, que já pertenceu ao Visconde do Rio Preto e, hoje, está nas mãos do 14º dono, o engenheiro Mário Vasconcellos Fernandes, de 62 anos, que comprou a propriedade em 2007, por ser um amante da arquitetura e da história do período imperial. Colecionador que é, tendo em seu o acervo itens da Família Real, queria transformar o lugar num museu particular, mas precisava gerar renda e acabou abrindo um hotel em forma de chalés. Até que abraçou o café, que deu os primeiros frutos na fazenda em 2020. Atualmente, são sete mil pés plantados, o que rende uma média de 30 sacas por ano, calcula o produtor.
— A fazenda transformou Rio das Flores numa rota turística. E o café só veio a agregar. Os hóspedes adoram; sempre querem ver o cafezal. Dificilmente, um hóspede vai embora sem adquirir o café União, que é orgânico — conta Fernandes.
Paralelamente ao trabalho de valorização dos cafés especiais na região, o Vale do Café está buscando a Indicação Geográfica (IG) para seus produtos, um selo oficial de origem e reputação concedido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial. O processo conta com o suporte de Sebrae, prefeituras, Embrapa e governo do estado.
— Temos algumas frentes de trabalho com vistas à melhora do processo produtivo e acesso a novos mercados do café especial no estado, e estamos percebendo muitos avanços no Vale do Café. Há muitos produtores novos entrando no segmento, com foco na qualidade do produto. Muitos deles estão no primeiro ciclo da colheita. É legal perceber que um vai ajudando o outro. Ter café especial na região é de extrema importância — destaca Marceli Angelo, analista do Sebrae Rio.
Criadora do Rio Coffee Nation, dedicado a cafés especiais e orgânicos nacionais, Martina Barth d’Avila avalia que o Rio caminha para se tornar parte do seleto grupo de produtores brasileiros com destaque nacional e internacional. Entre as marcas mais bem avaliadas hoje, figuram Orfeu, Dutra e Baggio.
— O café especial tem crescido muito no Brasil nos últimos dez anos. Hoje, existem mais de dez mil produtores do gênero no país, trabalhando para elevar a qualidade do café. E, tanto a Noroeste quanto no Vale do Paraíba, o Rio tem produzido cafés espetaculares — observa Martina.