Entre as cantoras com personalidade surgidas no cenário do R&B dos Estados Unidos nos últimos anos, Yaya Bey tem ganhado admiradores não só pela voz e pela qualidade de suas produções — com uma grande variedade de estilos, que vão do neo soul ao reggae —, mas pela sua honestidade.
“Enquanto eu estiver fazendo música, todas as fases da minha vida aparecerão no meu trabalho”, garante a nova-iorquina de 35 anos, prestes a debutar ao vivo no Brasil. Esta quinta-feira, ela é a atração internacional da noite de abertura do festival Queremos!, com apresentação às 21h, no Vivo Rio, seguida da DJ Tamy (22h), da baiana Luedji Luna cantando Sade (22h30) e do DJ Marky, mestre brasileiro do drum’n’bass (às 23h45).
Nascida Hadaiyah Bey e criada no bairro do Queens, Yaya juntou todas as angústias de um fim de casamento no álbum “Remember your North star” (2022), cujo sucesso a pôs numa turnê europeia no meio da qual ela acabou tendo que enfrentar a morte, aos 54 anos, do seu pai, Grand Daddy I.U., rapper de relativo sucesso no fim dos anos 1980.
- Fase bi no passado e ‘cabelo de boy’: Quem é Marcella Rica, ex-noiva de Vitória Strada que está feliz com novo amor
- Rapper MD Chefe versa sobre elegância e refinamento: ‘O conforto e o glamour deveriam ser uma experiência para todos’
O luto — e um monte de outras vicissitudes pelo meio do caminho — a inspiraram em “Ten fold” (2024), o álbum seguinte, que a colocaria nas páginas de cultura nos jornais e a levaria a participar do Tiny Desk, célebre programa de sessões intimistas da NPR, a rádio pública americana.
— Meu pai me ensinou tudo sobre música, eu não seria o que sou se não fosse pela influência dele, se ele não tivesse sido um exemplo de que essa era uma possível escolha de carreira — diz Yaya. — E ele me apresentou a muitos discos. Eu era jovem, muito jovem, ouvindo música de muito antes de eu ter nascido, ele me deu uma educação musical. Meu pai tocava os discos para mim e me explicava, tipo, o que estava acontecendo no mundo quando o disco foi lançado, em que momento da carreira o artista estava na época… Ele me ensinou não só o que ouvir, mas como ouvir.
Como boa “millennial negra de Nova York”, ela diz que o hip-hop não é apenas um gênero musical: “É a minha cultura”.
— Para as pessoas negras da minha idade nos Estados Unidos, o hip-hop está na essência de quem somos. É um gênero musical que foi mercantilizado e se tornou uma coisa comercial, mas também é uma cultura. Ele está na maneira como nos vestimos, como falamos, como arrumamos nossos cabelos, é como se estivesse impregnado em tudo. O hip-hop é algo que acontece como uma rebelião, em resposta às condições em que vivemos — discorre. — Sou uma pessoa marginalizada nesse mundo capitalista de supremacia branca, nesse mundo patriarcal. Então, é do meu interesse resistir a isso, assim como é da natureza humana sobreviver. Vou me opor a tudo que dificulte minha sobrevivência e minha felicidade.
Artista que só nos últimos quatro anos conseguiu viver exclusivamente da música (“Me sinto abençoada e grata… mas também muito cansada!”, diz), Yaya Bey equilibra em suas músicas temas políticos (em “Eric Adams in the club”, ela critica nominalmente o prefeito de Nova York por ter ido dançar enquanto a cidade vivia uma crise climática), musicais (em “Iloveyoufrankiebeverly” homenageia o cantor de soul do grupo Maze, morto em 2024) e românticos.
— Na verdade, estou apenas sendo uma pessoa como qualquer outra, uma pessoa cheia de nuances. Eu sinto um grande desdém pelo prefeito de Nova York por causa da crise imobiliária, porque ele é um político corrupto, mas, ao mesmo tempo, ainda tenho vontade de sair, festejar e sair com meus amigos — conta. — Sou casada, tenho uma vida romântica e, ao mesmo tempo, me importo com o estado de coisas do mundo. Mas eu nem penso muito profundamente em como conectar todos esses pontos, sigo apenas fazendo as músicas conforme elas surgem para mim. E vivo profundamente todas as emoções. Tipo, quando estou realmente triste, fico muito, muito triste. E, quando estou realmente feliz, fico muito, muito feliz. Há muitas coisas polarizadas acontecendo dentro de mim, e vivo escrevendo sobre isso. E, por esse motivo, acabo criando muitos sons diferentes.
Há duas semanas, por sinal, Yaya Bey lançou o single “Merlot and Grigio”, canção em estilo caribenho.
— Minha família é de Barbados, e eu nunca tinha feito uma canção de soca antes. Culturalmente não é um som novo para mim, cresci ouvindo soca, então essa música é uma homenagem aos meus antepassados. E chamei (o cantor) Father Philis porque, se eu ia fazer uma soca, tinha que ser com alguém de Barbados! — diz. — Sou uma pessoa negra multiétnica, tenho raízes na América que remontam à escravidão e tenho raízes no Caribe que remontam à escravidão, então sei o que significa ser negro na América e o que significa ser negro no Caribe, são duas coisas muito diferentes. E também sou nova-iorquina, o que é outra coisa completamente diferente de tudo!
Um “crescimento sempre orgânico, nos passos que se pode dar, vendo o mercado mudar, e sempre independente” marca, segundo o diretor Pedro Seiler, os 15 anos de trajetória do Queremos! — de plataforma de financiamento coletivo para shows internacionais no Rio, ao festival de DNA carioca que este ano acontece de quinta a domingo, cada noite em um local diferente. Na ordem: Vivo Rio, Circo Voador, Marina da Glória e Teatro Casa Grande.
Yaya Bey e a Luedji Luna abrem quinta a programação, que na sexta terá o show do novo álbum do ex-Titãs Arnaldo Antunes (”Novo mundo”) e a estreia carioca da dupla Sophia Chablau & Felipe Vaqueiro. No sábado, a Marina da Glória recebe o aclamado espetáculo em que Liniker apresenta seu álbum de sucesso, “Caju”, e Anelis Assumpção homenageando o astro jamaicano do reggae Peter Tosh (1944-1987). É quando o Rio também poderá conhecer melhor o trabalhos de Nabiyah Be (filha brasileira de outro astro jamaicano do reggae, Jimmy Cliff) e acompanhar a ascensão do criativo rapper paulistano Yago Opróprio.
O Queremos! se encerra no domingo, com duas sensações instrumentais: o duo equatoriano-suíço Hermanos Gutiérrez e o trio do pianista pernambucano Amaro Freitas, que, aos 33 anos de idade e um álbum coalhado de elogios (“Y’Y”, de 2024), desponta como grande nome do jazz mundial.
— O público está cansado de eventos de 12 horas, em que os artistas não fazem seus shows completos — provoca Pedro Seiler, sobre a decisão de pulverizar o festival em quatro noites e quatro locais diferentes, focado em uma programação mais nacional. — Hoje, fazemos os shows internacionais maiores ao longo do ano, nem sempre dá para conseguir datas desses artistas para a época do festival.
E mesmo o show de “Caju” (que provocou frisson e lotou grandes casas de show no ano passado), de uma Liniker que antes do estouro tinha se apresentado em outras edições do Queremos!, Pedro diz só ter conseguido por ter ido atrás “quando ainda nem sabia que ia ter disco novo”.
— O Queremos! tem visto o público se renovar ao longo desses 15 anos. É crescente a faixa de público entre 20 e 25 anos que tem vindo aos shows, atrás de atrações como The Internet e Masego. A marca tem conseguido se comunicar com esse público mais jovem, enquanto mantém aquele cara que tinha 30 anos lá no começo e agora tem 45 — analisa Pedro.
Programação do Queremos!
No Vivo Rio (Av. Infante Dom Henrique 85, Parque do Flamengo). Yaya Bey (21h) e Luedji Luna (22h30)
No Circo Voador (Rua dos Arcos s/nº, Lapa – Rio de Janeiro). Sophia Chablau & Felipe Vaqueiro (20h30) e Arnaldo Antunes (22h).
Na Marina da Glória (Av. Infante Dom Henrique s/nº, Glória). Nabiyah Be (17h45), Anelis Assumpção (19h15), Yago Oproprio (21h), Liniker (22h45).
No Teatro Casa Grande (Av. Afrânio de Melo Franco 290, Leblon). Amaro Freitas (17h), Hermanos Gutiérrez (18h45).

