Mais de cem horas de imagens, entre entrevistas, shows, cenas de arquivo e filmagens diversas, em vários locais no mundo (Europa, EUA, Rio, Minas Gerais) estão magicamente resumidos em “Milton Bituca Nascimento”, poético documentário da diretora Flávia Moraes sobre um dos gênios da música, que chegou na quinta-feira (20) aos cinemas. E “magicamente”, como ela própria há de garantir, não é força de expressão — afinal, longos momentos de angústia foram passados por ela e sua equipe na mesa de edição.
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— Mas em certo momento essa angústia passou. Aconteceu alguma coisa no processo, e a gente começou a acreditar que Milton é um predestinado. Mesmo quando as coisas pareciam turvas, ali adiante aparecia uma explicação — diz a diretora. — Não sou uma pessoa religiosa e não vou fazer uma apologia da fé, mas de certa forma é como se este filme já estivesse pronto e nos coubesse apenas organizar as coisas.
“Milton Bituca Nascimento” começou a existir quando o produtor musical Victor Pozas e o empresário e filho adotivo do cantor, Augusto Nascimento, se encontraram no lendário estúdio Abbey Road, em Londres, e Victor vislumbrou um possível doc com Milton cantando Beatles, filmado lá. Depois de algumas conversas, veio a pandemia e os planos foram adiados.
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Logo que o mundo se abriu, foi a vez de Milton partir para “A última sessão de música”, turnê de despedida dos palcos e de comemoração dos seus 80 anos, que passaria por Europa, EUA e Brasil. Flávia Moraes estava em Los Angeles quando, pouco antes de a turnê começar, Victor (com quem ela já havia trabalhado no “Acquária”, filme de ficção científica de Sandy & Junior, lançado em 2003) a chamou para dirigir “um road movie” de Milton Nascimento, no qual iria atuar como produtor e diretor musical.
— Olhei o Milton nas redes, achei que ele estava muito fragilizado e fiquei um pouco em dúvida no início se a gente teria um filme, se ele daria conta da turnê e ainda por cima de um documentário — admite ela, uma antiga admiradora do artista. — Então vim ao Brasil para conversar. Ele me perguntou se daria muito trabalho, e eu disse: “Vai dar muito trabalho, eu vou invadir sua praia, seu quarto, sua intimidade… mas só vamos conseguir fazer um filme do seu tamanho se você fizer o filme junto.” E aí ele falou: “Eu quero fazer!”
E Flávia não aliviou. No fim das contas, ela pôs Milton até dentro da Gruta de Maquiné, 50 metros abaixo da terra, para filmar a sequência final. Mas o pesado mesmo foi na estrada de “A última sessão de música”.
— Como era um road movie, combinamos que nós seguiríamos Milton com algumas premissas e algumas certezas que a gente tinha no início, mas abrindo todas as possibilidades para aquilo que acontecesse ao longo do percurso. E as entrevistas iam surgindo à medida que a gente ia viajando, as pessoas vinham assistir aos shows do Milton e se dispunham a falar — lembra. —As coisas iam acontecendo e não tinha take 2. Eu dizia, por exemplo: “Olha, tem um cara de joelhos beijando a mão do Milton no camarim” e aí mandava foto e gritava para o (roteirista Marcélo) Ferla: “Pelo amor de Deus, quem é esse cara?” E ele: “Pô, é o Steve Jordan, o novo baterista dos Rolling Stones!”
O cineasta Spike Lee, o cantor Paul Simon, o guitarrista e mestre do jazz Pat Metheny e o pianista Sérgio Mendes (1941- 2024) foram alguns dos que passaram pela sabatina organizada por Marcélo Ferla:
— Quando a gente fez esse primeiro trabalho na estrada, Flávia falou: “Vamos mostrar o tamanho do Milton no mundo.” E a gente esgotou isso rápido, porque logo na segunda entrevista o (produtor) Quincy Jones (1933-2024) disse que Milton era um desses caras, assim como (o trompetista, gigante do jazz) Miles Davis, em que Deus bota a mão no ombro por mais tempo que os outros — recorda-se o roteirista.
Mas a grande entrevista com Milton, segundo Flávia Moraes, acabou acontecendo cinematograficamente e sem planejamento, na cama de um hotel em Los Angeles.
— Terminavam os shows, a galera ia toda para a gandaia e o Bituca ia para o quarto ver TV, às vezes com o enfermeiro, às vezes sozinho. Então eu queria também trazer para o filme esses momentos, que são difíceis. Uma noite ele foi para o quarto, montamos a câmera, eu abri a porta, me joguei para trás da parede e a gente fez uma conversa de umas duas horas — conta. — Ele sentou na cama e eu tinha comigo o livro do Guimarães (Rosa, “Grande sertão: veredas”), eu tinha música, figurinhas, histórias, poemas… um arsenal de coisas que eu ia jogando no colo dele e ele ia reagindo. A sensação para quem vê é de que você está espiando o Milton na sua intimidade.
Daí em diante (e já com cenas de impacto, como a do reencontro de Milton com um Wayne Shorter a poucos dias da morte, e a da portuguesa Carminho rasgando o roteiro e fazendo um emocionado dueto de “Travessia”), começou a parte brasileira do filme — que envolvia, entre outras tarefas, a de reunir os luminares da MPB (Chico, Gil, Caetano e mais uma constelação) para falar do amigo.
Não houve quem não se dispusesse a ir à casa de Milton, no Rio, para as filmagens (“Meu diretor de casting chama-se Bituca, ele pegava o telefone e as coisas aconteciam”, brinca Flávia). Depois, restou o grande desafio: descobrir exatamente que filme seria feito com todo aquele material, que tinha até um Mano Brown terno, à beira das lágrimas, falando do impacto que a música de Milton tinha sobre ele.
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Das costuras cinematográficas do filme (que, na edição, ganhou narração de ninguém menos que Fernanda Montenegro), surgiram também costuras musicais. Como a de “Travessia” que conta a história da música na interpretação original e na contemporânea, do cantor com Carminho. Ou de “Morro velho”, que reúne, sem que nenhum deles tenha estado junto com o outro, o bandolim de Hamilton de Holanda e as vozes incisivas (tão incisivas como os versos da canção) de Djavan, Criolo e Mano Brown.
Essa é uma obra de Victor Pozas, que, além de fazer a edição da trilha, com adição de cordas gravadas por uma orquestra da Estônia, desdobrou o filme num álbum, “ReNascimento”, a ser lançado ainda este ano.
— Nas filmagens, a gente teve a sorte de contar com o Tim Bernardes, o Zé Ibarra e a Dora Morelenbaum, só que a participação deles acabou ficando curta. Quando a gente fechou o filme, ele tinha quase três horas de duração, mas, para botar no cinema, a gente teve que encurtar para 1h50. Então, me incomodou um pouco a coisa de não ter no filme mais artistas novos cantando Milton. A Carminho fala que o artista não morre, ele é levado por outras gerações, e então tive a ideia de chamarmos outros artistas novos e fazer um disco — diz o produtor.
O primeiro single de “ReNascimento” será o de Sandy cantando “Travessia” com o guitarrista Mateus Asato. O disco ainda terá Tim, Zé e Dora com o “Anima” que aparece no filme, Liniker com “Encontros e despedidas”, a portuguesa Maro com “Cais”, Clarissa com “A festa”, Os Garotin com “Bola de meia bola de gude”, entre outros. Victor conta como foram feitas estas “releituras modernas”:
— A premissa do disco, que eu passei para os artistas, era: se apodera da música do Milton e faz a sua versão!

