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‘Vou contar tudo que aprontei’

BRCOM by BRCOM
março 21, 2025
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Capa do álbum "Nem lágrima nem dor", da cantora Eliana Pittman — Foto: Reprodução

Este ano, por exemplo, ela se juntou a “três rapazes que são o crème de la crème” (o produtor e multi-instrumentista Rodrigo Campos, o saxofonista Thiago França e o baixista Marcelo Cabral, craques da música alternativa de São Paulo, presentes em discos do novo milênio que vão de Criolo a Elza Soares) e com eles fez o álbum “Nem lágrima nem dor”, todo com recriações radicais de sambas de Jorge Aragão. Um disco como nenhum que Eliana já tenha feito, que chegou esta quinta-feira ao streaming e que ela lança sexta e sábado em shows no Sesc Santana, em São Paulo.

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Os 80 anos serão celebrados no dia 14 de agosto com o lançamento de uma biografia, assinada por Daniel Saraiva, e, até o fim do ano, com mais um álbum novo (e show), de standards de jazz, com a SP Pops Jazz Band do Maestro Ederlei Lirussi. Uma homenagem ao padrasto, o clarinetista americano Booker Pittman (1909-1969), responsável por transformar a menina que nem pensava em vida artística numa cantora com carreira internacional.

Mas o padrasto ronda também “Nem lágrima nem dor”, disco que vai ser uma surpresa até para Jorge Aragão, compositor que Eliana Pittman adora (“Ele tem letras muito profundas e, ao mesmo tempo, simples, é um negócio muito louco”), mas a quem fez questão de não mostrar o disco até o lançamento.

— Se você prestar atenção, o Thiago França está soando como o Booker Pittman, é incrível! Imagina como foi para dar conta dessa gravação! — comenta ela, animada, com a experiência. — Eu tomo aula de canto até hoje, e faço fonoaudiologia também. Resulta que a minha voz está coesa. Inclusive, tem aquela nota longa que eu dou no final do disco (numa dramática “Papel de pão”)… Ela veio, não foi nada programado, eu entrei na nota e fiquei nela. A música virou um blues. É a pulsação do meu corpo, do meu sangue, naquele arranjo!

Capa do álbum “Nem lágrima nem dor”, da cantora Eliana Pittman — Foto: Reprodução

“Tendência”, “Eu e você sempre”, “Do fundo do nosso quintal” e “Além da razão” são outras composições de Jorge Aragão desse disco de Eliana Pittman produzido por Rodrigo Campos, que foi convidado para a tarefa por causa do disco “Pagode novo”, que fez sozinho em casa, tocando todos os instrumentos, e lançou em 2023.

— Sou um cara que vem do samba, mas que também gosta de mexer na estrutura do samba. Achei que em algum momento ela poderia estranhar os arranjos, porque é Jorge Aragão, e ela poderia estar esperando algo mais convencional… afinal, as músicas são lindas e a voz dela é linda, e não teria problema nenhum com isso — diz ele, que já trabalhou com veteranos como Elza Soares, Jards Macalé e Benito de Paula. — Mas ela tem a cabeça aberta e abraçou a ideia de usar mais samples, de tirar um pouco algumas músicas do universo do samba e usar guitarras, cavaquinhos com distorção. Eliana é muito energética, muito empolgada, está cantando muito bem e veio preparada. A gente fez dois, três takes de cada música só.

Eliana Pittman ficou 17 anos sem lançar álbuns: de 2002 (“Minhas novas influências”, com rearranjos para músicas antigas) a 2019, quando saiu “Hoje, ontem e sempre”, disco que ela deve “à determinação do Thiago (Marques Luiz, produtor) de ver uma coisa que eu não via”.

A relação entre eles começou em 2012, quando Thiago descobriu no YouTube um vídeo de Eliana cantando Luiz Gonzaga e resolveu convidá-la para um disco para comemorar o centenário do Velho Lua. Depois de um hiato, produziu para ela “Hoje, ontem e sempre”, uniu-a a Claudette Soares e Doris Monteiro no projeto “As divas do sambalanço” e fez em 2021 o álbum “Canções de Elizeth”.

Mas tudo isso, segundo Eliana, foi uma preparação para o Pérolas Negras, projeto de shows com Alaíde Costa e Zezé Motta, que desde 2022 tem rodado os palcos do Brasil com casas lotadas e uma juventude que se deleita com sua voz e traz LPs para ela autografar.

— A gente queria comemorar os 80 anos da Eliane, e aí o Murilo Alvesso, fotógrafo, deu a ideia de ela fazer um disco com as músicas do Jorge Aragão. Ela já cantava em show “Papel de pão” e outras dele, aí começamos a ver que tinha a ver. Só que eu não queria produzir o disco, o que eu queria era colocá-la em conexão com outro produtor, um que fosse botá-la em contato com um outro público, fazendo a roda girar — conta Thiago, que participou da seleção do repertório. — É um disco que eu fiz de presente, do meu bolso, para Eliana, essa mulher que trabalhou a vida inteira, desde os 12 anos de idade, quando Booker a botou para cantar, e que está com a voz inteiraça.

Tudo começa quando Booker Pittman, que já vivia no Brasil havia algum tempo, foi participar do show do amigo Louis Armstrong no Teatro Paramount, em São Paulo. Ofélia, mãe de Eliana, que vivia um casamento em crise com o pai da menina, Orlando, um funcionário do Banco do Brasil, leu sobre Booker na revista O Cruzeiro e resolveu ir ao show. Ao fim, quando todo mundo foi falar com o velho Louis, ela colou no outro americano. O casamento terminou, ela virou empresária do músico, namoraram seis meses e acabaram indo morar juntos a três, com Eliana (“Booker não queria ter família, minha mãe fez ele gostar de ter família”).

— Aí saiu uma reportagem no Cruzeiro dizendo que eu era a filha do Booker, e o Orlando ficou muito zangado. Ele suspendeu o pagamento da mensalidade da escola, o Booker empenhou o sax dele e pagou o colégio até o fim do ano — conta Eliana. — Voltamos para o Rio, fui estudar no colégio americano e, um dia, teve um convite do embaixador para que Booker fizesse um som legal para a banda dos fuzileiros navais que vinha ao Brasil. Acontece que o avião com a banda dos fuzileiros navais caiu na Baía de Guanabara, mas eu estava ensaiada pelo Booker para ir cantar “Mama don’t allow no music playing here”. Quando terminou o show, a secretária do Cesar de Alencar me chamou para cantar no programa dele.

Daí em diante, Eliana Pittman nunca mais parou de cantar. Em 1964, pelas mãos de Booker, foi para os Estados Unidos, contratada pela agência William Morris (“Eu cantava com aquela vozinha infantil, voz de virgem!”). Lá, estudou no Actor’s Studio, participou de séries como “Run for your life” (estrelada por Ben Gazzara) e apresentou-se como cantora nos Playboy Clubs de Hugh Hefner (“As coelhinhas eram tudo daquilo que você imaginava, cada mulher linda, incrível”, recorda-se ela, que jura nunca ter sofrido assédio lá — “eu estava fazendo show, não era coelha!”).

— Minha maior sorte foi ter na vida um Booker Pittman, que me orientou como como cidadã e como artista, e que me encaminhou na vida — orgulha-se. — Nós viajamos coast to coast com o Playboy Club, a gente passava pelos lugares e ele sempre dizia: “Olha, antigamente aqui era assim, assim, assim…” Ele me mostrou a história, e sempre nos colocando nos lugares certos, na hora certa, para aprender. Inclusive porque o avô dele foi Booker T. Washington, o maior educador negro na América!

A cantora Eliana Pittman e o padrasto, o clarinetista americano Booker Pittman, em 1963 — Foto: Arquivo
A cantora Eliana Pittman e o padrasto, o clarinetista americano Booker Pittman, em 1963 — Foto: Arquivo

Em 1969, Booker Pittman morreu de câncer na laringe. Enquanto se tratava, preparou Eliana para a sua carreira solo. Ela trabalhou muito para ajudar a custear o tratamento do padrasto. Todo domingo, tinha que estar em Recife para seu programa na TV Jornal do Commercio. Numa dessas noitadas por lá, a mãe Ofélia pescou um violonista sensacional, um magrinho que tocava num bar: o futuro astro Geraldo Azevedo. Com ele, a cantora fez seu primeiro show solo, na inauguração do Teatro de Bolso Aurimar Rocha, em Ipanema.

— Minha mãe era cabeleireira, costureira e empresária. Ela enfeitava a cria dela! — graceja Eliana, que, em seus primeiros discos, impressionava pela voz e pela beleza estampada nas capas de seus LPs. — Eu era namoradeira. Inclusive, parece que vai sair um livro aí em que estou contando tudo que já aprontei na minha vida. Vai ficar difícil para sair na rua! Alguns nomes eu dou, outros não sei se vou poder dar!

Casar, Eliana Pittman casou-se uma vez só, em 1984, com um francês que morava em Nova York — mas a união durou apenas um dia. Segundo ela, tudo se deu quando uma radialista espalhou pelo Rio a notícia de que “o homem com quem eu tinha casado não era homem”…

— E aí o casamento acabou por fatores que você vai ler no livro! — avisa.

Nos anos 1970, eis que a cantora de música balançada e sofisticada renasceu como a Rainha do Carimbó.

— Isso aí foi uma coisa que me colocaram e eu aceitei. Naquela época tinha caravanas de artistas que viajavam o Brasil inteiro, e numa dessas o avião pifou em São Luís do Maranhão e nós tivemos que dormir lá. Fomos à Praia do Olho d’Água, eu e Ofélia, quando escuto um negócio. E aí fui perguntar: “Quem é que tá cantando esse som bacana?” E disseram que era o Pinduca, de Belém do Pará, e que aquilo era o carimbó.

Sucesso com o novo estilo (e ainda fazendo shows no exterior), Eliana viu então a gravadora tentar transformá-la na Donna Summer brasileira. Ela resistiu e diz que, por isso, foi colocada na geladeira (“Naquela época a gravadora cagava na cabeça do artista!”). Recentemente, ressurgiram na internet cenas de um filme espanhol, “A menor violentada” (1976), de Pedro Masó, em que cantou um carimbó (o que, segundo ela, levou a gravadora a persegui-la, na época, por questões contratuais).

— Me magoava muito o pessoal que falava assim: “Ela canta muito bem inglês, mas não vende disco.” Mas depois eu gravei o carimbó, lacrei e ainda vendi disco! — recorda-se.

Apesar de seguir com uma agenda de apresentações fora do país, os anos 1980 e 1990 foram de poucos discos. A morte da mãe, em 2000, foi um baque. Festeira número um, referência do empresariamento (dava conselhos para Marlene Mattos na época da Xuxa) e sua grande confidente (Eliana contou para a mãe até quando perdeu a virgindade: “E olha que demorou, hein!”), Ofélia deixou para a filha a cobertura em Copacabana, onde ela vive até hoje. Em 2007, um convite de Charles Möeller e Claudio Botelho para atuar no musical “7” abriu para a cantora um novo mercado, inclusive na TV, onde atuou em novelas e séries.

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Hoje, Eliana Pittman diz não se sentir com a idade que tem. Sem filhos, leva uma vida tranquila, “estudando música, ouvindo música e fazendo meus shows quando tem shows legais para fazer”. Depois da morte da mãe, afastou-se da Igreja Católica. Descobriu a cabala e frequenta uma sinagoga em Copacabana. Agora, garante sentir “a certeza da presença de Deus na nossa vida”.

— Não sinto solidão, não sinto mesmo. Acho que é pela força espiritual que Deus manda para a gente — assegura a cantora, descrente de que vá viver novos amores. — A safra está debilitada, estão faltando gatos! O mundo está muito diferente, sei lá o que as pessoas estão querendo das outras…

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Inédita com Caymmi e URSS

Eliana se diverte hoje é com a profusão de vídeos que surgem, a cada semana, com apresentações suas no exterior, que vão alimentar seu Instagram. Um fã russo, por exemplo, desencavou “The sandpit generals” (1971), filme do americano Hall Bartlett, que adaptou na Bahia o “Capitães da areia”, de Jorge Amado, com trilha de Dorival Caymmi. Provavelmente por seu contexto socialista, o filme não foi popular nos Estados Unidos e foi até proibido pelo regime militar brasileiro — mas fez grande sucesso na União Soviética.

— Nesse, tem a Eliana cantando com Caymmi uma música que não foi gravada! — assusta-se Thiago Marques Luiz. — Eu gostaria muito que acontecesse com a Eliana o que aconteceu com Elza Soares e com Alaíde Costa, que receberam o devido reconhecimento depois dos 80 anos. Todas as vezes que ela faz show em São Paulo, a plateia é de jovens, são as pessoas que seguem o Instagram dela, que fazem vídeos perguntando: “Você sabe quem é Eliana Pittman?” Esse disco do Aragão é uma forma de abrir canais para que ela chegue aos ouvidos das pessoas de uma maneira diferente. Eliana Pittman é uma garota que vai fazer 80 anos!

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