Autor de dois romances bem recebidos pela crítica, mas com vendas modestas, Paul Marquet decide abandonar o conforto financeiro de seu trabalho como fotógrafo para se dedicar inteiramente à literatura. O sonho tem um preço: sem a renda da sua antiga profissão, ele é pouco a pouco empurrado para o isolamento e a precariedade social.
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A premissa de “Mãos à obra” soará familiar a muitos escritores brasileiros, cujo prestígio em sua área nem sempre é acompanhado de uma remuneração à altura. Mas também dialoga com a realidade de milhões de trabalhadores informais do país. O filme, que será exibido terça e quarta dentro da programação do Festival de Cinema Francês do Brasil no Rio e em Niterói, é mais do que uma reflexão sobre as dificuldades da vocação artística. Acima de tudo, a atriz e cineasta francesa Valérie Donzelli compôs um retrato melancólico do sistema de trabalho contemporâneo, cada vez mais pautado pelas plataformas digitais e o algoritmo.
A história, vale lembrar, é baseada em um livro autobiográfico de Frank Courtès, no qual ele relata sua rotina em uma plataforma de jobbing — aplicativo de trabalho sob demanda que conecta pessoas a pequenas tarefas mal remuneradas, como mudanças, reparos domésticos e serviços em geral. Basicamente, uma uberização do tradicional “faz-tudo”.
— O que achei muito belo nos textos do Frank é que ele descrevia um mundo do trabalho que mudou completamente — diz Donzelli, que na semana passada esteve em São Paulo e Rio para apresentar seu filme. — Todas as profissões foram marcadas pela uberização. Tudo passa por plataformas, tudo se torna virtual. Há um novo “sistema” em que tudo é negociado sem regras claras, sem proteção. E isso chegou muito rápido.
Especializado em retratar grandes personalidades para jornais e revistas, Marquet (Bastien Bouillon) chegava a ganhar até € 8 mil mensais em seu antigo trabalho. Como uma espécie de “canivete-suíço humano”, ele pode levar horas em um serviço para receber meros € 20 (pelas regras da plataforma, vence a concorrência pelo serviço quem propor a menor remuneração). Sua nova vida o leva a morar de favor em uma quitinete, passar frio no inverno, ficar sem ver os filhos no exterior e até a atropelar um cervo se desdobrando como uber (com o carro emprestado do pai). À medida que empobrece, suas relações sociais encolhem e seu corpo sofre com o trabalho manual.
Ao contrário da maioria dos trabalhadores precarizados, Marquet não está nessa por falta de opção. Não é só o tempo livre para a escrita que o motiva, mas também uma busca por sentido, liberdade e autenticidade artística. A família não entende a sua opção. Em uma briga, a irmã o critica por se submeter ao “trabalho escravo”. Ele aponta que há tipos muito piores de escravidão, a dos bem-remunerados.
— O que a família e os amigos não suportam, é que, ao contrário deles, ele não julga — diz Donzelli, que faz uma ponta no filme como a ex-mulher de Marquet. — Não suportam que ele decida ocupar um lugar “inadequado” para um homem branco, de quem se espera poder, sucesso, dinheiro. Ao contrário do que acontece no livro, ele não explica porque escolhe esse caminho. Para mim, pouco importa, não existe uma razão melhor do que a outra. É um direito dele, e isso basta.
Ao ler o livro de Frank Courtès, Donzelli reconheceu em seu relato a tensão, comum a tantos artistas, entre a necessidade de criar e a urgência de sobreviver. Co-escrito com Gilles Marchand, o roteiro de “Mãos à obra” foi premiado este ano Festival de Veneza. O longa chega aos cinemas franceses em março e ainda não tem previsão de estreia no Brasil.
— Frank fala sobre a dificuldade de exercer um trabalho que tenha sentido e sobre a dificuldade de fazer parte de uma indústria onde, mesmo quando você faz relativo sucesso, sofremos para conseguir subsídios — diz Donzelli. — No início da minha carreira, sempre que eu aparecia em um novo papel, meus pais questionavam: “Muito bem, mas o que você vai fazer em seguida?” No cinema, estamos sempre nos perguntando o que vai ser da nossa vida se o filme não der certo.
Se Donzelli nunca precisou apelar para plataformas de jobbing como seu personagem é em parte graças ao sucesso inesperado de seu “A guerra está declarada”, de 2010. Em grande parte autobiográfico, o filme emocionou plateias ao relembrar o tumor cerebral de seu filho e representou a França no Oscar. Quinze anos depois e chegando ao seu oitavo longa, a cineasta segue trabalhando com as incertezas características da indústria:
— Como cineasta, sempre tenho problemas com dinheiro. Quando acabo um filme, fico sem nada e tenho que fazer outro filme para ganhar dinheiro de novo. Tive muita sorte com “A guerra está declarada”, porque foi o sucesso dele que me permite fazer filmes até hoje.

