A tentativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de associar uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) à perda de benefícios sociais e direitos trabalhistas preocupa a campanha do senador e levou à montagem de uma estratégia de reação no início do segundo turno. O receio é que o discurso petista ganhe força sobretudo entre eleitores de baixa renda, ao explorar a promessa de Flávio de cortar R$ 200 bilhões em despesas públicas.
Para conter um possível desgaste, a equipe lançou um site para rebater acusações, criou um quadro permanente no horário eleitoral, intensificou as ações na Justiça Eleitoral e ampliou as manifestações do próprio candidato sobre a manutenção dos programas sociais.
A mobilização ocorre após o PT intensificar a aposta no medo de perda de direitos, estratégia já utilizada pelo partido em eleições anteriores. Na quinta-feira, Lula afirmou que o ajuste fiscal prometido por Flávio atingiria o Pé-de-Meia, o Farmácia Popular, o Minha Casa Minha Vida, a merenda escolar e o Gás do Povo. Embora o senador negue a intenção de extinguir esses benefícios, aliados avaliam que deixar as acusações sem resposta poderia alimentar dúvidas sobre o alcance dos cortes e ampliar o desgaste da candidatura.
Uma das iniciativas foi o lançamento, nesta sexta-feira, do site “Flávio com a Verdade”, dedicado a contestar afirmações sobre o programa de governo do candidato. A plataforma reúne respostas sobre benefícios sociais, aposentadorias, salário mínimo e privatizações. Entre os pontos abordados, a campanha nega que o chamado “tesouraço” nas despesas públicas implique o fim do Pé-de-Meia e sustenta que essa interpretação não encontra respaldo nas propostas do senador.
A mobilização também se estendeu às redes sociais. Aliados criaram o canal “Tropa do Flávio” com orientações para rebater informações consideradas falsas, compartilhar conteúdos da campanha e abordar eleitores indecisos. Entre as recomendações estão evitar interações que ampliem a circulação de acusações contra o candidato e apresentar informações para contestá-las. A iniciativa foi uma ideia de Gustavo Gayer (PL-GO) para rebater o “Exército do Lula”, coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), que ultrapassava 2,6 milhões de seguidores e também distribui tarefas para ampliar o alcance das mensagens do presidente.
A reação também ganhou espaço na propaganda eleitoral. Na estreia do segundo turno, a equipe incluiu um quadro permanente, chamado “Central das Fake News”, para rebater informações que considera falsas. Em uma sequência de perguntas e respostas, Flávio procurou afastar dúvidas sobre a continuidade dos programas sociais, prometeu reajustar o Bolsa Família e anunciou a intenção de reduzir as prestações do Minha Casa Minha Vida.
— Eu vou manter e reajustar o Bolsa Família. E quem tem emprego não perde o benefício — afirmou o candidato.
Já a propaganda de Lula recuperou notícias sobre cortes de recursos em áreas sociais durante o governo Jair Bolsonaro e apresentou o adversário como uma ameaça à continuidade de políticas públicas. Em uma das peças, Flávio foi retratado como uma marionete, enquanto a locução alertava para o risco de perda de direitos. No rádio, a campanha petista também associou o senador a possíveis mudanças nas aposentadorias e à manutenção da escala de trabalho 6×1.
Fora do horário eleitoral, Flávio passou a dedicar mais espaço em lives e entrevistas para afastar a possibilidade de cortes. Na quinta-feira, prometeu reajustar aposentadorias acima da inflação e afirmou que o ajuste fiscal não atingirá os mais pobres.
— Não vou fazer economia em cima de quem precisa. Aposentado, fique tranquilo. Não caia nessa fake news do PT — declarou durante sua live semanal.
Outra frente é a judicialização. A campanha intensificou as ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra publicações de Lula, da primeira-dama Janja e de aliados. Nesta quinta-feira, os ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça determinaram a retirada de conteúdos que atribuíam a Flávio a intenção de extinguir benefícios. Os magistrados entenderam que determinadas afirmações ultrapassavam os limites da crítica política ao apresentar como certas consequências de um eventual governo sem elementos concretos que as sustentassem.
A estratégia petista explora, porém, uma dificuldade da proposta econômica do senador. Integrantes de sua equipe defendem uma redução de despesas equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de R$ 200 bilhões no primeiro ano de um eventual governo. Ao mesmo tempo, Flávio promete preservar e ampliar benefícios sociais e conceder reajustes reais às aposentadorias.
Como o GLOBO noticiou, especialistas em contas públicas apontam que esses compromissos aumentam o desafio de executar o ajuste, diante do peso das despesas obrigatórias no Orçamento.
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