O filósofo Edgar Morin, no livro Les Stars, de 1957, ao estudar o fenômeno da devoção religiosa pelas estrelas do cinema, afirmou que essas ocupam na alma do público um “lugar de simbiose no qual imaginário e real se confundem e se alimentam um do outro”.
Para Morin, o star system é fenômeno cultural que mescla propriedades humanas com divinas, influenciando aspectos da vida, como a moda, os hábitos, os comportamentos e os desejos. É justamente a fabricação de imagens de personas da sétima arte — bem antes dos filtros das redes sociais e das manipulações por IA — o mote da exposição recém-inaugurada no MoMA de Nova York.
Face Value: Celebrity Press Photography é a primeira mostra do museu totalmente dedicada a retratos hollywoodianos. “A ideia é incentivar os espectadores a enxergarem, por meio da fachada de glamour, como as celebridades são fabricadas e exploradas”, diz o curador Ron Magliozzi.
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Por meio de 200 trabalhos em cópias de época de mais de 58 fotógrafos, Face Value, que fica em cartaz até junho de 2026, remonta à origem dos 75 anos da coleção fotográfica de cinema do MoMA, quando a primeira curadora, Iris Barry, adquiriu os arquivos de imagens das revistas de cinema Photoplay (1911-1980) e Dell (1921-1976).
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A exposição apresenta fotografias que vão desde cenas “intocadas”, como o retrato de Anna May Wong no filme O mandarim de Londres (1934), com outras editadas. Naquela época, as interferências, como cortes com fita adesiva, pinturas, realces e máscaras, eram realizadas na superfície das imagens. As pinceladas de tinta sobre as formas da atriz Joan Crawford, na foto de James Manatt, são um bom exemplo.
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Para a galerista Isabel Amado, responsável por acervos icônicos da fotografia Modernista Brasileira, o desejo por imagens originais é um movimento em duas vias: “Há um crescente interesse de galerias em reconhecer as distinções estéticas de artistas e fotógrafos. Mas isso não significa que todo mercado de arte acompanhe essa valorização, que virá com o tempo”, pondera.
No futuro, segundo ela, “quanto mais pixels houver (unidades que formam as imagens digitais), surgirá mais necessidade de prata (sais de prata, base da fotografia clássica)”. Com montagem que lembra o feed do Instagram, sem espaço entre as fotos, Face Value revela o passado para ajudar a compreender as matizes do presente.