Ao cantar a liberdade em pleno regime militar, em 1969, no primeiro desfile depois da edição do AI-5, o Império Serrano precisou alterar parcialmente um verso escrito pelos compositores do samba-enredo “Heróis da Liberdade”, Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira. Em vez de “É a revolução em sua legítima razão”, como queriam os autores, para ser liberado, o último verso virou “É a evolução em sua legítima razão”. O trecho da composição se junta ao manifesto “Seja Marginal, seja herói”, estampado na bandeira-poema do artista Hélio Oiticica, de 1968, para formar o título do enredo que a Reizinho de Madureira vai levar para a avenida no carnaval de 2027. A agremiação desfila pela Série Outo, a segunda divisão do carnaval carioca.
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Escola que tem no seu DNA as lutas sindicais — maioria de seus fundadores é composta por trabalhadores da estiva —, o Império Serrano pretende mostrar no desfile do ano que vem como a contracultura e o movimento estudantil foram importantes na defesa da liberdade no Brasil durante o período do regime militar. O mote está em três efemérides importantes: 80 anos da agremiação e os 90 de fundação da União Nacional dos Estudantes (Une) e de nascimento de Hélio Oiticica, criador dos famosos parangolés (capas, faixas e bandeiras coloridas), que tiveram inspiração na ligação do artista com o universo do carnaval, durante visita à Mangueira.
— Se fizer um paralelo entre os enredos do Império Serrano e os movimentos estudantis, que foram importantes na história do Brasil, a gente vai encontrar sambas e momentos muitos similares. A contracultura faz essa costura através das artes como cinema, teatro, poesia e escultura, conseguindo se expressar para além do discurso. Quando os movimentos estudantis foram colocados na ilegalidade a arte acaba sendo uma voz potente de críticas — compara o Carnavalesco Renato Esteves, que contou com ajuda dos enredistas Emanuelle Rosa e Jorge Sant”Anna.
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Na avenida, o enredo vai explorar manifestações artísticas como Cinema Novo, Teatro do Oprimido, Teatro Oficina, Teatro Experimental do Negro, além das canções da Tropicália e obras de artistas plásticos como o próprio Hélio Oiticica, Ligia Clark. Segundo Esteves, é um carnaval que visualmente vai ser referenciado a partir deste período (década de 1960) até chegar à contemporaneidade, através de artistas cujo trabalho convergem para a mesma linguagem e pensamento de artistas do período, entre os quais o carnavalesco cita Beatriz Milhazes e alguns artistas periféricos.
O carnavalesco contou que a família de Hélio Oiticica aprovou a homenagem ao artista dentro do enredo e sinalizaram com a possibilidade de participar do desfile. A relação com os movimentos estudantis, representado pela Une, descreveu como uma parceria, que resultou na cessão de conteúdos e material de pesquisa usado por Esteves e os enredistas, que assinam a sinopse com ele.
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—Sempre penso que exposições de artes plásticas são uma fórmula muito antiga que não consegue totalmente abarcar a beleza e a potência dessas obras, que transcenderam e muito o conceito de artes plásticas ou visuais. Na verdade elas inauguram, e isso tem muito a ver com o samba, com a experiência do Hélio no Morro da Mangueira, com sua relação com a dança, onde se tornou passista e daí inventou o Parangolé, obra que a pessoa entra, veste e pode dançar, se relacionar, num diálogo da obra com o corpo e a dança. O Império tem a sensibilidade de perceber essas obras como revolucionárias em vários sentidos. Muita emoção! — comentou César Oiticica Filho, sobrinho de Hélio.
Bianca Borges, presidente da Une, vê paralelos entre a história da instituição estudantil e a do Império Serrano, através da resistência.
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— Durante a ditadura militar, a Une resistiu a intensa perseguição, sem nunca deixar de lutar pelo Brasil. Nesse mesmo período, o samba também sofreu censura. O Império, nascido da força do povo trabalhador e de lideranças sindicais, viu enredos como “Heróis da Liberdade” enfrentarem a repressão, mas nunca teve medo de defender a liberdade, mesmo sob censura. Esse encontro no ano em que a Une celebra seus 90 anos e o Imperio seus 80 não é uma coincidência: é a celebração de duas trajetórias que provaram que a cultura e a organização popular são forças capazes de atravessar o tempo e manter viva a esperança — afirma a líder estudantil.
O carnavalesco diz que o público deve esperar um desfile com o DNA do Império Serrano, que se identifica com a veia contestadora e de luta, além de versar sobre o poder das artes em se comunicar de forma política. O enredo vai ser lançado oficialmente com festa nesta sexta-feira, a partir das 19h, na Banca do André, na Cinelândia. A escola será a sexta a entrar na Sapucaí, no sábado de carnaval, dia 6 de dezembro.
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Frase contestadora de obra de Hélio Oiticica e verso original de samba censurado formam título de enredo do Império Serrano
