A Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês), apoiada pelos EUA e por Israel, anunciou que seus centros de distribuição no enclave palestino permanecerão fechados nesta quarta-feira, após os incidentes dos últimos dias que deixaram dezenas de mortos. O Exército israelense alertou a população civil que as estradas que levam aos centros de distribuição serão consideradas zonas de combate ativas enquanto os centros estiverem fechados. A operação de distribuição deve ser retomada na quinta-feira.
- Veja fotos: Crianças esquálidas são retrato da crise humanitária em Gaza
- Contexto: Fundação Humanitária de Gaza anuncia líder evangélico próximo a Trump como novo presidente
“Os centros de distribuição serão fechados para reforma, reorganização e melhorias de eficiência”, informou a GHF em um comunicado nesta quarta-feira.
A distribuição de alimentos tem sido marcada por cenas caóticas relatos de dezenas de mortes desde que a entidade americana assumiu toda a entrega de ajuda humanitária — com o fim do bloqueio total de dois meses imposto por Israel ao enclave, apenas a organização privada foi autorizada a operar na entrega dos insumos.
Vinte e sete pessoas que buscavam ajuda perto de um centro de distribuição em Rafah, no sul do enclave, foram mortas na terça-feira, após soldados israelenses abrirem fogo. Outras 31 pessoas foram mortas no mesmo local no fim de semana, em circunstâncias semelhantes, de acordo com a Defesa Civil de Gaza.
Sobre o episódio de terça-feira, o Exército israelense afirmou que palestinos que se deslocavam com a multidão em direção ao centro de distribuição teriam saído de uma rota designada e não respondido a tiros de advertência. Soldados teriam então disparado contra “alguns indivíduos”, que foram identificados como ameaças.
Em uma atualização em separado, as Forças Armadas israelenses afirmaram que os civis seriam proibidos de entrar nos centros de distribuição ou se deslocar pelas estradas levando a eles, enquanto a operação estiver suspensa.
A GHF afirmou ter solicitado aos militares israelenses que “orientem o tráfego de pedestres” perto das zonas militares para reduzir os riscos de “confusão”, acrescentando que trabalha para desenvolver orientações mais claras para os civis e aprimorar o treinamento para apoiar sua segurança.
Por comida, pessoas morrem em invasão a armazém da ONU em Gaza
As Nações Unidas e uma série de organizações humanitárias criticam abertamente a GHF, acusando-a de não cumprir princípios humanitários básicos, como neutralidade, e servir a propósitos militares dos israelenses. Também questionam a viabilidade do formato definido, com a ajuda sendo concentrada em centros de distribuição em zonas designadas pelos militares, o que força os palestinos a se deslocarem até zonas de contato com o Exército israelense.
O formato, ainda de acordo com interlocutores da comunidade internacional, não resolve a situação de pessoas em situação de vulnerabilidade extrema, que não podem por algum motivo se deslocar por quilômetros até chegar a uma dessas zonas. Anteriormente, quando a ajuda era descentralizada, havia mais de 400 locais de entrega de alimentos e insumos básicos no enclave.
Israel justifica que este formato é necessária para evitar que o grupo terrorista Hamas se aposse dos insumos. Os patrocinadores da organização e do novo formato tem defendido a atuação da GHF até o momento.
A porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Tammy Bruce, afirmou na terça-feira que a organização estava “conseguindo distribuir as refeições” aos palestinos, mas que Washington continuava a avaliar “como isso está funcionando e como podemos melhorar”.
— Sete milhões de porções de comida foram distribuídas. Nunca posso enfatizar isso o suficiente — disse a porta-voz.
Um levantamento citado pelo jornal britânico Guardian aponta que o equivalente ao carregamento de 21 caminhões foi distribuído na terça-feira, enquanto 600 eram entregues diariamente durante o cessar-fogo. (Com AFP)

