Gilberto Gil, enfim, vai fugir para outro lugar, baby, com tobogãs onde a gente escorregue. A novidade é o máximo. Ele embarca nesta segunda (1/12) no MSC Preziosa, que até quinta-feira (4/12) será o “Navio Tempo Rei”, como ficou batizado o cruzeiro temático em que o baiano de 83 anos é a grande atração. As apresentações em alto-mar fazem parte da turnê homônima que marca a despedida de Gil dos palcos. Gigante dos mares, com mais de 330 metros de comprimento, quase 70 metros de altura e 1.751 cabines, o Preziosa vai zarpar do porto de Santos, no litoral paulista, rumo ao Rio de Janeiro, com paradas em Angra dos Reis, Búzios e Copacabana.
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Velhos conhecidos, e até a própria família de Gil, estarão a bordo. Os Gilsons, banda formada por seu filho José e por seus netos João e Francisco abrem o line-up em alto-mar. Nando Reis, que já fez turnê com Gil e Gal Costa, continua a programação que ainda contempla João Gomes e Mãeana (nora do baiano), Paralamas do Sucesso, Liniker, Jorge Vercillo e Elba Ramalho. O anfitrião fará dois shows: um deles com o navio ancorado em frente à Praia de Copacabana, no mar que ele está habituado a ver do apartamento onde mora, no bairro da Zona Sul do Rio. Ainda há cabines disponíveis para o cruzeiro. A mais barata custa em torno de R$ 9 mil, sem bebida inclusa, para duas pessoas. Outras opções estão à venda, somente neste domingo (30), no site www.naviotemporei.com.br
Em entrevista ao GLOBO por telefone, Gilberto Gil revela que não sabia nadar até seus 20 e poucos anos. “Passei a infância no sertão”, justifica o cantor e compositor, sereno, numa conversa costurada por lembranças em torno do mar, mas também pelos tempos do exílio, o convite para o show no Rock in Rio e a perda do amigo Jimmy Cliff, com quem Gil fez turnê nos anos 1980.
Não vai ser a primeira vez que você vai pegar um barco pra tocar. Em 1970, durante o exílio, você e Caetano se apresentaram no festival da Ilha de Wight, na Inglaterra…
Sim. Aquela semana foi muito especial. Lembro de Miles Davis, Joni Mitchell, vários artistas que estiveram lá. Uma multidão em torno de 400, 500 mil pessoas na ilha. Ficamos pelo menos uma semana, lembro das barracas, do acampamento. Foi um momento muito interessante, era o auge daquela efervescência da música pop na Inglaterra, com a presença sempre constante de artistas americanos, grupos importantes. Foi muito divertido, momento de muito orgulho, a possibilidade de vivenciar aquilo tudo.
Costuma se pegar pensando nesses momentos do início da carreira?
É uma imposição natural, o imperativo da vida. As coisas vêm, os momentos importantes aparecem. Os grandes marcos de presença da música na minha vida sempre aparecem. Momentos da infância, adolescência em Salvador, a preferência depois por Rio e São Paulo. O próprio exílio em Londres, muito marcante, conhecer a Europa, cantar em países como França, Portugal, Espanha, tudo isso vem. Uma quantidade enorme de encontros, com tantos colegas. É reverencial, compulsório, vem naturalmente.
Qual são suas memórias mais antigas com o mar?
Não tive contato com o mar quando criança. Nasci em Salvador, mas fui criado no Sertão da Bahia. Me mudei muito novo, com meu pai e minha mãe, para Ituaçu (cidade com pouco mais de 18 mil habitantes no interior da Bahia), ele médico, ela professora, era um lugar muito pequeno. A única água que havia na região vinha de um pequeno riacho com condições muito precárias para banho. Então, até os 10 anos, quando voltei pra Salvador, cresci sem entrar na água. Onde passei a infância não havia água generosa que pudesse me levar a gostar de mergulhar, de nadar. Depois que fui pra Salvador, com 10 ou 11 anos, já estava acostumado com essa distância do mar. Só fui aprender a nadar com 25 anos de idade.
Você mora há algum tempo de frente pra Praia de Copacabana. Te faz bem a vista pro mar?
Ah, sim. O mar é uma presença extraordinária na sua imensidão, na sua dimensão extensiva. Aquela referência permanente ao outro lado. Na orla brasileira, temos essa coisa do outro lado do oceano, a África. Sempre tem algo que me chama atenção nesse sentido, terras distantes, nossa própria terra banhada pelo mar. E Copacabana, esse lugar muito importante e emblemático do Rio. Eu moro no quarto andar de um prédio onde a vista do mar é uma visão que incorpora o horizonte, muito diretamente ao nível do olhar. E tudo isso é muito interessante de ver, tenho as lembranças do mar da Bahia, as lembranças dos mares de todo o mundo, essa importância da dimensão do oceano na vida dos povos.
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Sobre o que você falava quando escreveu que “Formentera é uma ilha onde se chega de barco”, em “Ladeira da preguiça”, composta em 1971?
É uma memória, uma lembrança direta do tempo do exílio. Eu, Sandra (Gadelha, sua segunda mulher, mãe de Preta Gil), Caetano, Dedé (Gadelha, primeira mulher de Caetano Veloso), Jorge Mautner e outros brasileiros fomos para as Ilhas Baleares, na Espanha. Alugamos uma casinha e ficamos lá quase um mês, em Formentera. Fiz a música “Oriente” nessa ocasião. Uma referência direta a uma memória. “Que nem lá”, na ilha. Aquelas ilhas da Baía de Todos os Santos, essas coisas relacionadas ao mar.
Está animado para o cruzeiro? Já havia tocado em um antes?
Me apresentei num cruzeiro uma vez, há uns dez anos. Eu era uma das atrações. Era o início desse modelo de apresentações em navios que virou atração dos verões brasileiros. Vários artistas foram fazendo, como Roberto Carlos, que fez uma série. O público foi se acostumando também a associar essa dimensão do turismo com o entretenimento musical. Já conhecia a dinâmica, foi uma questão de acertar detalhes, arrumar questões logísticas, data, programação. Pra mim, foi relativamente tranquilo aceitar o convite.
E teve o convite do Rock in Rio, né. Você se apresenta no Palco Mundo, no mesmo dia do Elton John…
Uma das razões para que eu aceitasse o convite foi justamente a presença do Elton, com quem eu não tenho contato desde os tempos do meu exílio, quando ele estava começando a carreira dele. Fomos convidados naquela época, ele e eu, para abrirmos um espetáculo do Sergio Mendes em Paris. Me lembro dos nossos camarins lado a lado. Depois disso, nunca mais nos encontramos. Essa oportunidade de estarmos juntos no mesmo palco com certeza foi uma motivação.
Como você recebeu a morte do Jimmy Cliff, com quem chegou a excursionar, em 1980?
Ainda ontem eu estava no Recife comentando com algumas pessoas. Fizemos o show lá no Geraldão. E no Rio, em Salvador, Belo Horizonte, São Paulo. Estivemos sempre juntos. Quando recebi o prêmio Polar Music Prize, em Estocolmo, ele estava presente. Também nos encontramos quando estive na Jamaica. Ele teve uma presença prolongada em Salvador, onde teve uma filha com uma médica baiana. De uma certa maneira, nossa relação foi sempre próxima. Musicalmente, é enorme a importância dele na consolidação do reggae, esse gênero musical mais recente, novo, pós rock n’ roll, no mundo inteiro. Um dos artistas estrangeiros com quem mais me relacionei. Portanto, uma saudade mais intensa que fica.

