Com mais de 150 filmes no currículo e reconhecida como uma das maiores atrizes do mundo, Isabelle Huppert poderia desacelerar o ritmo com o sentimento de dever cumprido. Mas, aos 72 anos, a francesa não para. Desde quinta-feira (27), ela está no Rio para apresentar seu mais recente trabalho, “A mulher mais rica do mundo”.
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O longa, que será exibido entre 6 e 14 de dezembro em salas do Rio e Niterói dentro da programação do Festival Varilux, se inspira em um escândalo real que cativou os franceses. O caso Bettencourt, como ficou conhecido, gira em torno da relação entre a herdeira da L’Oréal, Liliane Bettencourt, e o fotógrafo François-Marie Banier. Em uma midiatizada batalha judicial, a família de Liliane acusou Banier de se aproveitar de uma suposta vulnerabilidade emocional da bilionária. Décadas mais jovem, o fotógrafo exerceu sua influência em Lilianne para receber presentes milionários.
O filme de Thierry Klifa, porém, recorre à ficção e dá vida própria aos personagens. Marianne, a personagem de Huppert, é um avatar de Liliane Bettencourt, não uma reprodução literal. No hotel em que está hospedada em Copacabana, a atriz conta ao GLOBO que teve liberdade criativa para reinventar a figura de Lilianne.
— As pessoas conhecem o desfecho dessa história, mas não tanto o seu começo — explica. — Thierry Klifa teve a excelente ideia de narrar pelo princípio, imaginando o que não foi documentado. Talvez, ao ficcionalizar, chegamos mais perto da verdade do que se tivéssemos nos limitado aos fatos revelados na época.
Ao mergulhar no mundo dos super-ricos e expor suas contradições e hipocrisias, os atores de “A mulher mais rica do mundo” se aventuram num registro farsesco, mas sem renunciar à densidade psicológica. Quem rouba a cena é o ator Laurent Lafitte no papel de Pierre-Alain, o fotógrafo gay que dinamita o entorno de Marianne. À medida que ele invade a intimidade da bilionária, vai mexendo em segredos incômodos, como o passado colaboracionista da família durante a Segunda Guerra.
— Thierry Klifa é um diretor conhecido, com razão, por gostar muito dos atores, e talvez ainda mais das atrizes — diz Huppert. — Trabalhou desde o início com nomes como Catherine Deneuve, Fanny Ardant e tantas outras. É alguém muito atento ao figurino, ao valor simbólico dos elementos em cena. Acho que o que funciona bem no filme é essa sensação de troupe: mesmo que conte o destino dessa mulher, ele também é narrado através dos destinos de todos ao redor dela.
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A personagem de Huppert está longe de ser uma vítima nessa história. Ela é forte, poderosa, e se comporta como dona do mundo. Mas também vive deprimida e doente. A chegada de Pierre-Alain lhe devolve uma espécie de vitalidade, mesmo ficando óbvio (inclusive para ela) o dom do fotógrafo para a manipulação. Com seu olho biônico e espírito de self-made man, ele é quase um diretor em cena: influencia o figurino, o penteado e os desejos de uma mulher que tem tudo e ao mesmo parece não ter nada.
— Ele rompe com essa expressão típica de certa burguesia, que prefere que tudo permaneça como está — diz Huppert. — Marianne poderia expulsá-lo e nunca mais vê-lo, mas não o faz. O que prova que ela tem em si essa subversão possível, essa fantasia, esse humor. A loucura, a vulgaridade de Pierre-Alain, tudo isso a diverte enormemente.
Lançado em outubro em seu país, o filme chega em um momento em que os franceses questionam a existência dos bilionários e debatem a concentração de renda. A discussão ganhou força recentemente com a chamada “taxa Zucman”, proposta pelo economista francês Gabriel Zucman, uma taxação mínima global sobre grandes fortunas.
— O filme ressoa com o momento atual porque fala dos super-ricos, mas de forma alguma dá resposta a questões como desigualdade social — pondera a atriz. — O assunto não é esse.
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Huppert é conhecida não apenas como workaholic e extremamente comprometida, mas também como uma artista que gosta de tomar riscos. Cinéfila, acompanha o surgimento de novos diretores pelo mundo e não coloca obstáculos para trabalhar em países distantes. Alternando grandes produções e filmes de autor, já apareceu numa produção independente de Hal Hartley nos EUA nos anos 1990 (“Amateur”) e em diversos filmes do premiado sul-coreano Hong Sang-soo. Não é surpresa, portanto, que conheça e admire o cinema brasileiro atual.
— Se surgir a oportunidade, adoraria trabalhar com diretores como Kleber Mendonça Filho, Walter Salles e Karim Aïnouz — revela. — E talvez com outros que ainda preciso descobrir.
O lançamento do longa também coincide com os processos criminais contra figuras proeminentes do cinema francês. O movimento MeToo teve uma guinada em 2023 e 2024 no país após denúncias de estupro contra Benoît Jacquot e Jacques Doillon — dois cineastas que já trabalharam com Huppert.
As revelações provocaram uma espécie de mea-culpa do setor, que por anos ignorou ou relativizou comportamentos abusivos em nome da liberdade artística. Huppert celebra a mudança de comportamento, mas destaca que o mundo do cinema não é o único afetado.
— O cinema gera mais notícias, é claro, mas isso acontece em muitas outras áreas — afirma. — Não sou socióloga do assunto, falo do que percebo de maneira imediata, mas todas essas verdades que estão aparecendo não se limitam ao meio cultural.

