O governo de Israel aprovou nesta quinta-feira a primeira fase do acordo com o Hamas para o cessar-fogo em Gaza. Esta primeira etapa foi selada por uma sessão ministerial do governo do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Agora, segundo a porta-voz Shosh Bedrosian a previsão é que, “dentro de 24 horas, um cessar-fogo começará em Gaza”. Após o anúncio, centenas de israelenses comemoraram na praça dos reféns, em Tel Aviv, gritando: “Todos eles! Agora!” em hebraico, em referência aos 20 dos 48 reféns que se acredita ainda estarem vivos no enclave, além da devolução dos corpos.
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“O governo acaba de aprovar a estrutura para a libertação de todos os reféns, tanto os vivos quanto os mortos”, informou o comunicado oficial.
Com a aprovação, o Hamas terá até três dias para devolver os reféns e as Forças Armadas de Israel (IDF, na sigla em inglês) terão que se retirar parcialmente de Gaza para uma linha pré-definida, que ainda não foi divulgada. Os militares israelenses, inclusive, já iniciaram os preparativos para o recuo, que os deixaria no controle de 53% do território, de acordo com o jornal britânico Guardian. Assim, o Hamas começará a libertar os reféns.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que liderou os esforços para finalizar o acordo, disse que espera que os reféns sejam libertados na próxima segunda ou terça-feira. No próximo domingo, o republicano viajará ao Oriente Médio para assinar o acordo sobre Gaza e, possivelmente, discursar no Parlamento israelense, o Knesset. Trump afirmou que seria o primeiro presidente dos Estados Unidos a fazê-lo — o que não é verdade, já que George W. Bush fez o mesmo em 2008.
— Segunda ou terça-feira será um dia muito importante. Acho que será um dia de grande celebração — disse Trump em entrevista à repórteres no Salão Oval.
Horas antes da aprovação do acordo pelos 25 ministros israelenses, o chefe da equipe de negociação do Hamas, Khalil al-Hayya, disse que o grupo recebeu garantias dos EUA, de mediadores árabes e da Turquia de que o acordo sobre a primeira fase, alcançada na quarta-feira, significa que a guerra em Gaza “acabou permanentemente”.
Fontes haviam dito que os EUA e o Catar garantiram ao Hamas que Israel não retomará os combates após a implementação desta primeira etapa do acordo e, segundo o canal catari Al-Arabi, Israel, Washington e os mediadores concordaram que a segunda fase das negociações começará no dia seguinte à libertação dos reféns.
Em entrevista à Fox News, o ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Sa’ar , afirmou que o governo “está comprometido com o plano de Trump”.
— É a implementação da primeira fase. Não temos qualquer intenção de retomar a guerra — assegurou o ministro.
Em paralelo, segundo a agência Reuters, países ocidentais e árabes se reuniram em Paris nesta quinta-feira para discutir uma força internacional de manutenção da paz e assistência à reconstrução de Gaza após a implementação permanente do cessar-fogo.
A rede americana CNN teve acesso ao documento do acordo discutido pelos ministros nesta quinta. Ele estabelece que, além da retirada gradual das IDF, em até 72 horas após essa redistribuição, 20 reféns israelenses vivos e 28 mortos — incluindo quatro estrangeiros — seriam libertados. O texto ainda afirma que o cronograma de libertação será definido com cuidado para não colocar em risco a vida dos reféns e prevê um anexo confidencial com “condições adicionais” caso nem todos os corpos sejam devolvidos.
Em contrapartida, Israel deverá libertar prisioneiros palestinos sob custódia, incluindo 250 condenados à prisão perpétua que seriam enviados a Gaza ou ao exterior e impedidos de retornar ao país. O plano também prevê a soltura de 1.700 moradores de Gaza e 22 menores detidos após os ataques de 7 de outubro, além da devolução dos corpos de 360 pessoas classificadas por Israel como “terroristas”.
Foi o presidente americano, na noite de quarta-feira, que anunciou para o mundo que Israel e Hamas tinham aceitado os termos para uma primeira fase da implementação do cessar-fogo a partir do plano de paz divulgado por ele na semana passada. O acordo inclui a libertação de todos os reféns de Israel vivos, bem como a entrega dos corpos dos que morreram, em troca de prisioneiros palestinos e do recuo gradual das tropas israelenses.
Embora integrantes da ala mais radical do governo israelense, como os ministros de Finanças, Bezalel Smotrich, e da Segurança, Itamar Ben-Gvir, tenham votado contra o acordo, a primeira etapa será implementada.
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De acordo com o jornal israelense Haaretz, que citou uma autoridade israelense, o governo espera que o Hamas entregue os reféns vivos todos de uma vez, mas também se prepara para a possibilidade de que ocorra em várias fases. Até a finalização desse processo, Israel e Hamas terão de concordar com uma lista de prisioneiros palestinos a serem soltos.
A primeira fase do acordo inclui a libertação de reféns israelenses e prisioneiros palestinos; a permissão de maior ajuda humanitária em Gaza sob as Nações Unidas e outras organizações internacionais; e a retirada do Exército israelense para a chamada linha amarela.
Veja o que se sabe até o momento:
1. Troca de reféns por prisioneiros
De acordo com o plano divulgado por Trump após uma reunião com Netanyahu na Casa Branca, cerca de 20 reféns israelenses vivos, além dos corpos de outros 28, seriam trocados por 250 prisioneiros palestinos cumprindo prisão perpétua em Israel e 1.700 moradores de Gaza detidos durante a guerra. Os corpos de 15 palestinos seriam devolvidos em troca dos restos mortais de cada refém ainda em Gaza.
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Na quinta-feira, o Hamas entregou uma lista com nomes de possíveis prisioneiros a serem envolvidos na troca, incluindo antigas lideranças de organizações palestinas, como Marwan Barghouti, do Fatah (que controla a Autoridade Nacional Palestina), e de Ahmad Sa’adat, chefe da Frente Popular pela Libertação da Palestina, ambos presos desde 2002. Nesta quinta, Bedrosian descartou a possibilidade de Barghouti ser libertado.
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Há informações de que Israel e o Hamas tentam finalizar ainda nesta quinta-feira a lista de prisioneiros palestinos. O governo israelense, que tem poder de veto, também terá de publicá-la com antecedência para permitir apelos públicos.
2. Desarmamento e retirada total
Um dos pontos que ainda serão discutidos na próxima fase é a desmilitarização do Hamas e de Gaza. O grupo terrorista poderia, por exemplo, aceitar um desarmamento apenas parcial de suas forças no enclave. O plano de Trump, porém, prevê a total deposição das armas.
— O Hamas pode estar disposto a abrir mão de algumas armas, mas não ficará sem elas completamente — afirmou Adi Rotem, um oficial aposentado da Inteligência israelense, que participou de negociações com o grupo terrorista até 2024. — As armas são uma parte essencial do DNA do Hamas.
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Fontes ouvidas pelo jornal americano The New York Times não detalharam o tipo das armas que o Hamas quer manter, mas sugeriram que seriam itens como pistolas e fuzis para proteção de seus membros contra futuras represálias internas.
O Hamas também havia pedido a saída imediata e completa de Israel do enclave, mas o plano de Trump prevê apenas o recuo gradual, sob o argumento de que isso é necessário para garantir a segurança de Israel. A presença militar israelense em Gaza, portanto, não tem data para terminar, e a proposta da Casa Branca defende que os prazos sejam discutidos posteriormente.
Ainda de acordo com o jornal americano, a proposta afirma que Israel não ocupará ou anexará Gaza e “se retirará com base em padrões, marcos e prazos ligados à desmilitarização que serão acordados”.
3. Entrada de ajuda humanitária
Ainda não está claro qual é o cronograma de entrada de ajuda externa ao povo palestino, inclusive se todas as organizações estrangeiras estariam liberadas para entrar no território e que tipo de suprimentos seriam permitidos na retomada da ajuda.
Segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, a organização vai apoiar “a implementação total” do cessar-fogo em Gaza e do acordo de reféns.
— A ONU aumentará a entrega de ajuda humanitária sustentada e baseada em princípios, e avançaremos nos esforços de recuperação e reconstrução em Gaza — disse Guterres.
Segundo uma fonte citada pela rede britânica BBC, assim que o cessar-fogo entrar em vigor, Israel permitirá que 400 caminhões de ajuda entrem em Gaza diariamente durante os primeiros cinco dias, com o número aumentando gradualmente nas etapas posteriores. Nenhuma das partes, no entanto, confirmou essa informação.
Em termos de prazos, o futuro de Gaza — sua reconstrução e administração — também segue sem uma definição, apenas com acenos sobre intenções. Trump disse que os Estados Unidos ajudariam Gaza a se reconstruir e formariam um “conselho de paz” que seria “muito poderoso”, mas não forneceu detalhes sobre como funcionaria.
O plano Washington propõe que o enclave seja administrado, inicialmente, por um grupo de palestinos sem ligação com o Hamas — que seria excluído de qualquer governo futuro — ou a Autoridade Nacional Palestina (ANP), sob supervisão de um órgão internacional que poderia ser liderado por Trump, com um papel de liderança para Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico. “Gaza será reconstruída para o benefício do povo de Gaza”, segundo a proposta de Trump.
O conselho de paz estabeleceria uma estrutura para a reconstrução da região, incluindo financiamento por um período de tempo, enquanto a ANP passaria por um “programa de reforma” para que possa “retomar o controle de Gaza de forma segura e eficaz”. Vale lembrar que a ANP, que administra parte da Cisjordânia ocupada por Israel, foi acusada de corrupção.
O conselho deve “criar uma governança moderna e eficiente para atrair investimentos”. Deve ser estabelecida uma zona econômica especial, com tarifas preferenciais e taxas de acesso a negociar com os países participantes.
Ainda segundo a proposta de paz, ninguém será forçado a deixar Gaza. “Vamos encorajar as pessoas a ficar e oferecer-lhes a oportunidade de construir uma Gaza melhor”, diz a proposta. Trump havia proposto anteriormente que os moradores de Gaza poderiam ser realocados para outras nações, talvez Estados vizinhos, uma sugestão que atraiu condenação generalizada e que ele abandonou desde então.
A Casa Branca também propôs que parceiros regionais no Oriente Médio garantam que o Hamas cumprirá suas obrigações, e os Estados Unidos trabalharão com parceiros árabes e internacionais para desenvolver uma “Força Internacional de Estabilização” para implantar imediatamente em Gaza.
Essa força “treinará e fornecerá apoio às forças policiais palestinas em Gaza”, trabalhando também com Israel e Egito para ajudar a proteger as áreas de fronteira.
O líder dos Houthis do Iêmen, Abdul Malik al-Houthi, disse nesta quinta-feira que o grupo vai monitor o cumprimento do acordo de cessar-fogo de Gaza por Israel e retomará o apoio a Gaza se Tel Aviv não cumprir.
Os Estados Unidos estabelecerão um diálogo entre Israel e os palestinos, mas não garante o estabelecimento de um Estado palestino. Diz apenas que, à medida que o novo desenvolvimento de Gaza avançar e o programa de reforma da ANP for realizado, “as condições podem finalmente estar reunidas para um caminho confiável para a autodeterminação e o Estado palestinos, que reconhecemos como a aspiração de seu povo”.
(Com AFP e The New York Times)

