Na última terça-feira (25), uma noite amena em São Paulo, 34 pessoas (30 mulheres e quatro homens) se juntaram nos fundos do restaurante Estela Passoni, em Pinheiros, na Zona Oeste, para discutir o romance “Laços”, do italiano Domenico Starnone. Primeiro, a jornalista Beth Leites, mediadora do encontro, deu algumas informações sobre o autor: suas obras investigam a barafunda napolitana e a crise dos homens — e, dizem, ele e sua mulher, Anita Raja, escrevem os best-sellers de Elena Ferrante. Durante pouco mais de uma hora, entre goles de vinho e garfadas de quiche de cogumelo e salada verde, discutiu-se a infelicidade da família de Aldo Mironi, o protagonista, que abandona a mulher, Vanda, e os filhos, no começo dos anos 1970, para viver com uma jovem de 19 anos.
- Raduan Nassar, 90 anos: O autor de uma pequena obra na qual cabe o Universo
- ‘Tempo em estado puro’: Como a obra de Annie Ernaux se apropria das imagens à procura de vestígios do real
Uma moça disse ter passado o livro todo desejando a morte de Aldo. Uma outra se compadeceu de Vanda: “Lembra a história da Princesa Diana.” A diretora financeira Tatiana Bravin se sentiu tão desorientada pelo romance que achou que precisaria consultar uma psicóloga ou participar de um clube de leitura para entender o que movia os personagens. A segunda opção pareceu mais sensata.
“É impossível ler sozinho, sem ter com quem conversar”, escreveu o abade Ferdinando Galiani ao filósofo Denis Diderot em 1772. O sentimento descrito pelo iluminista italiano explica por que os clubes de leitura não param de se multiplicar. E há clubes de leitura para todos os gostos: presencial e on-line, gratuito e pago, com foco em autorias diversas (feminina, LGBT, latino-americana etc.), liderados por famosos (de Dua Lipa a Gabriela Prioli), realizados em livrarias, restaurantes e até em uma joalheria.
- Sem nostalgia: Cristovão Tezza constrói retrato afetuoso baseado em diários deixados pelo pai
A principal riqueza dos clubes, afirma Beth Leites, é combater a solidão da leitura e possibilitar a troca de impressões sobre uma mesma obra. Ela gosta de citar a escritora Marina Colasanti (1937-2025): “A leitura é contaminação amorosa.”
— Se o clube tem 20 pessoas, você sai do encontro com 20 interpretação diferentes — diz a mediadora, procurada por empresas que querem organizar encontros para os funcionários.
Leites é criadora do Rolê dos Livros, um clube de leitura inusitado: escolhe-se um lugar, todo mundo leva seu livro, se acomoda e lê em silêncio. Depois de algum tempo, quem quiser pode falar sobre a obra ou ler trechos em voz alta. O próximo será no dia 14, às 11h, no Sesc Pinheiros, na capital paulista.
- Leitora: O ano em que Sarah Jessica Parker foi jurada do Booker Prize
Os clubes de leitura crescem no país desde o final dos anos 2000, incentivados por livrarias. Em 2014, surgiu o Leia Mulheres, dedicado à autoria feminina e que está presente em mais de cem cidades. Este ano, o projeto concorreu ao Prêmio Jabuti na categoria Fomento à Leitura. O número de clubes de leitura explodiu a partir da pandemia, e iniciativas como a Rede Favo tentam mapeá-los. Antídoto às telas, os clubes incentivam o amor aos livros num país que lê cada vez menos. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura, o Brasil perdeu sete milhões de leitores entre 2019 e 2024 e 53% da população não lê.
— Os clubes de leitura precisam ser encarados como políticas públicas de formação de leitores e de manutenção do hábito da leitura. Devem estar nas escolas para que os jovens possam ler coisas diferentes sem medo de perder nota se falarem alguma besteira — afirma Stéphanie Roque, editora e coordenadora de clubes de leitura na Companhia das Letras.
Cada clube tem sua estratégia para atrair o público. No Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio, onde encontros lotam a biblioteca toda segunda quarta-feira do mês, é a presença dos autores.
Em um recente, reuniu o músico Nei Lopes e o escritor Luiz Antonio Simas, com mediação da curadora Suzana Vargas e do poeta Ramon Nunes Mello. Em 10 de dezembro, Monja Coen e Leonardo Boff vão debater os livros “O que aprendi com o silêncio” (dela) e “A busca da justa medida” (dele). As obras são escolhidas por votação nas redes sociais.
— A presença do autor enriquece o encontro. Em geral, temos uma hora de entrevista e depois abrimos para intervenções do público. Aparecem embates, discordâncias, surpresas, mas sempre com educação e cordialidade, claro — explica a curadora Suzana Vargas, autora de “Leitura: uma aprendizagem de prazer” (Alta Books).
CEO da TAG Livros, que ajudou a popularizar os serviços de assinatura no Brasil, Gustavo Lembert observa que os clubes de livros funcionam bem quando formam “verdadeiras comunidades”. Por isso, a TAG resolveu apostar em projetos centrados em figuras pop, capazes de engajar o público, como os influenciadores Marcela Ceribelli e Pedro Pacífico, colunista do GLOBO, que estão à frente dos projetos “Atlas do feminino” e “Bookster pelo mundo” (que recomenda livros de diferentes países). Os dois clubes, que juntos somam dez mil assinantes, foram renovados para 2026 e aumentaram em 20% tanto a receita quanto a clientela da TAG. A interação entre os membros se dá por meio de páginas fechadas nas redes sociais, e muitos deles organizam encontros presenciais por conta própria.
— Eles não querem só comprar um livro ou seguir uma indicação de leitura, mas a experiência completa de fazer parte de um clube — afirma Lembert.
Os clubes de leitura fazem parte do modelo de negócios da Janela Livraria, que tem unidades no Jardim Botânico, na Gávea e em Laranjeiras, no Rio. Tem um só para ler Marcel Proust, um dedicado a obras sobre África e um focado em autores dos mais diversos países e culturas, o Janela para o Mundo. Cada clube custa entre R$ 80 e R$ 200 por mês.
— Desde o começo, queríamos que a Janela fosse um lugar de encontros. Livrarias não só vendem livros, também formam leitores — afirma Martha Ribas, sócia da livraria. — Nós cobramos porque o trabalho da mediação e da curadoria deve ser pago e sempre servimos um vinho, umas comidinhas, um chá com madeleines no clube do Proust. Também nos preocupamos em mesclar livros populares com escolhas menos óbvias.
A jornalista Juliana Nogueira tenta fugir de best-sellers do momento na programação do clube do livro que ela conduz na Daslan, uma joalheria no Itaim Bibi, bairro rico de São Paulo. O clube é restrito a 15 mulheres por encontro (há fila de espera), todas clientes da loja, e já dedicou encontros a autores tão diversos como a colunista do GLOBO Martha Batalha e Liev Tolstói. Em dezembro, elas vão ler “Coisas pequenas como estas”, da irlandesa Claire Keegan, que se passa na época do Natal.
— Elas são leitoras muito comprometidas, chegam com os livros todos marcados, cheios de post-its, e propõem reflexões superinteressantes — conta Juliana, que já organizou eventos para outras marcas femininas.
Aliás, cada vez mais a moda tem apostado em clubes de leitura: a Chanel e a Miu Miu já criaram os seus.
— O clube do livro é o nosso diferencial, leva as pessoas a se identificarem com o life style da marca — afirma Daniela Salles, dona da Daslan.
Além de serem bons para o comércio, os encontros ao redor da literatura também produzem benefícios “políticos” e até “terapêuticos”, afirma Stéphanie Roque, da Companhia das Letras.
— O diferencial do clube de leitura é a horizontalidade das discussões. O mediador faz algumas perguntas, claro, mas todo mundo participa, não é uma roda de especialistas. As pessoas saem da zona de conforto, se confrontam com leituras diversas e, em alguns casos, associam o que leem à própria história e se sentem à vontade para falar de violências de que foram vítimas. A depender do recorte do clube, já se pressupõe que a discussão pode tomar um rumo político e muitos repensam seus papéis enquanto mulheres, pessoas negras, LGBT etc.
Beth Leites confirma que, de fato, às vezes os leitores aproveitam para desabafar — aconteceu recentemente, ela recorda, num clube que leu “Literatura infantil”, romance do chileno Alejandro Zambra que aborda a paternidade. Nesses casos, ela sugere voltar ao texto. No clube a que o GLOBO compareceu, houve quem admitisse ter se identificado com Vanda, a mulher abandonada de “Laços”, mas a discussão se concentrou principalmente na forma do livro (que tem três narradores diferentes e uma primeira parte que é uma sucessão de cartas) e nas motivações dos personagens, que tanto haviam intrigado a diretora financeira Tatiana Bravin.
— Mas nem tudo precisa ter uma resposta, não é mesmo? — concluiu ela no fim do encontro, depois de anotar no celular as próximas leituras do clube.
Não fuja do complicado. Organizadora de clubes de leitura, Beth Leites às vezes ouve: “Ah, a gente podia ler uma coisa mais leve, né?” E rebate de pronto: “Felicidade não dá conversa.” É verdade. Mediadores de leitura ouvidos pelo GLOBO afirmam que o papo rende mais quando o livro da vez é povoado por personagens ambíguos e se presta a interpretações divergentes.
Não importa o tamanho, mas o prazer que proporciona. São recomendados livros não muito longos (cerca de 200 páginas), para que todos possam de fato ter tempo para lê-los.
Evite os best-sellers. Esqueça a lista de mais vendidos do momento — na certa, vários participantes já leram esses títulos.
Os sucessos discretos. Apesar da regra anterior, os clubes de livros têm seus pequenos campeões. Algumas obras que, vira e mexe, aparecem na programação dos clubes: “Laços”, de Domenico Starnone; “A trégua”, de Mario Benedetti; “A filha perdida”, de Elena Ferrante; “O voo da guará vermelha”, de Maria Valéria Rezende; “Caderno de memórias coloniais”, de Isabela Figueiredo; e “Oração para desaparecer”, de Socorro Acioli.
A reportagem pediu a quem organiza esses eventos sugestões de como se comportar para o tirar o maior proveito dos encontros. O código de conduta pode se resumir à máxima “tenha bom senso”, mas seguem algumas dicas:
- Esteja aberto a leituras que você não escolheria de imediato.
- Não leu o livro? Pode ir ao encontro mesmo assim. Mas fique calado e só escute.
- Saiba ouvir. Evite interromper os demais e não monopolize a conversa.
- Prefere nem falar, só escutar? Sem problemas.
- Mantenha o foco. Tente se ater à discussão da obra.
- Se identificou com o livro e quer contar uma coisa íntima? Tudo bem, mas seja breve e esteja preparado para reações que fogem ao que você esperava.
- Não há interpretações certa nem erradas. Desde que ancoradas no texto, é claro. Respeite leituras divergentes da sua.

