A Grécia apresentou um plano de 2,5 bilhões de euros (R$ 15,5 bilhões, na cotação atual) para combater a escassez de água que ameaça Atenas e diversas ilhas, prevendo “o pior dos cenários possíveis”, advertiu o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, nesta quinta-feira.
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As condições climáticas e a seca se agravaram principalmente na região da capital, Ática — onde vivem 4,4 milhões de pessoas —, embora a ameaça também se estenda a várias ilhas turísticas e à segunda maior cidade do país, Tessalônica, no norte.
— Temos que estar preparados para o pior dos cenários possíveis — declarou Mitsotakis.
Diante da redução das reservas hídricas nos últimos anos, o ministro de Energia e Meio Ambiente, Stavros Papastavrou, apresentou “um plano ambicioso de 2,5 bilhões de euros em dez anos, destinado a garantir o acesso à água”.
Entre as medidas, o ministro destacou uma “obra emblemática” para reforçar os reservatórios que abastecem a rede de Atenas, além de investimentos em infraestruturas de dessalinização nas ilhas.
A escassez de água afeta especialmente as ilhas turísticas, sobretudo as pertencentes ao arquipélago das Cíclades, cuja população se multiplica durante o verão, apesar de já contarem com unidades de dessalinização e poços.
— Os dados mostram que depois do Chipre, nosso país enfrentará o maior estresse hídrico do sul da Europa — advertiu Papastavrou, destacando que mais da metade da população grega pode ser afetada.
Desde 2022, as reservas de água da Grécia diminuíram cerca de 250 milhões de metros cúbicos anuais, segundo o ministro. Ele acrescentou que o país enfrenta ainda uma redução de 25% nas chuvas e um aumento anual de 15% na evaporação.
De acordo com o Observatório Nacional de Atenas, as temperaturas médias de verão no país subiram 2,3 ºC entre 1960 e 2024.
Além dos efeitos da mudança climática, especialistas apontam o desperdício frequente de água, especialmente na irrigação agrícola. Nas ilhas, há também denúncias de uso excessivo para piscinas e jardins, segundo o prefeito de Sifnos, uma das ilhas mais populares das Cíclades.
Imagens de satélite divulgadas em outubro revelam uma situação crítica: o Lago Mornos, principal reservatório que abastece Atenas, sofreu um declínio sem precedentes em menos de quatro anos. De acordo com análise da National Geographic baseada em dados do Copernicus Sentinel-2, a superfície do lago encolheu quase 55%, refletindo a gravidade da seca que afeta o país e toda a região do Mediterrâneo.
Localizado a cerca de 260 quilômetros da capital, o Lago Mornos é um reservatório artificial em forma de X. Comparações de imagens capturadas entre 3 de janeiro de 2022 e 9 de outubro de 2025 mostram a redução drástica no nível da água, evidenciando a rapidez com que a crise hídrica se intensificou.
Dados oficiais do Copernicus, citados pela National Geographic, indicam que a superfície do lago caiu de 19,1 km² em 2022 para apenas 8,7 km² em setembro de 2025. O recuo das águas expôs áreas submersas por décadas, alterando o ambiente natural e transformando a paisagem da região.
O impacto não se limita ao cenário geográfico. Milhões de atenienses dependem do Lago Mornos para água potável. A redução histórica nos níveis dos reservatórios ameaça tanto o consumo humano quanto a agricultura, setores fundamentais para a estabilidade da região. Um símbolo dramático dessa crise é a antiga vila de Kallio, submersa desde 1980, que ressurgiu durante a seca de 2024 e tornou-se um lembrete físico da escassez hídrica.
O caso do Mornos reflete uma tendência mais ampla no sul da Europa, atingindo países como Espanha e Portugal, onde os reservatórios também apresentam níveis abaixo da média histórica. Especialistas alertam que, apesar de chuvas recentes, a escassez hídrica pode se agravar, exigindo planejamento e medidas preventivas.
Em escala global, regiões da África e da América enfrentam crises semelhantes. Em setembro de 2024, a Namíbia enfrentou a pior seca da história recente, e no Brasil mais de 1.700 escolas e 760 centros de saúde tiveram de suspender atividades por falta de água, segundo dados da ONU.

