Fafá de Belém só faz o que quer. Guiada desde sempre por um instinto libertário, a intérprete de voz forte e sorriso largo nunca se dobrou aos rótulos em que tentaram a encaixar no dito “mercado musical” — postura que, recorda em entrevista ao GLOBO, teve seus (muitos) custos. Encerrando na sexta-feira (5), no Circo Voador, um ciclo de comemorações aos 50 anos de carreira, e se preparando para a chegada aos 70 de idade, em agosto (com direito a álbum novo), Fafá olha para trás com uma franqueza imensa — e o dobro de bom-humor.
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— Eu sou uma alma livre, e fico muito feliz de ter mantido essa liberdade em 50 anos de carreira. Sofri inúmeros cancelamentos, isolamentos, classificações e preconceitos (risos). No início eu não entendia, cheguei até a sofrer, mas hoje vejo que é uma história baseada em verdade — conta. — Nunca tive um profissional de marketing para me orientar em qual caminho eu deveria seguir, nunca “me prostituí” para agradar a mídia, mas sempre tracei o meu próprio caminho e apostei em coisas na contramão. O que me emociona é o que eu sei cantar.
Entre os tantos causos colecionados vida afora em razão dessa emoção que tem como guia, ela recorda de quando estourou com “Vermelho” (Chico da Silva), em 1996. O “mercado”, na sequência, logo queria um disco “todo de boi-bumbá”. Ela disse não — e a lembrança vem acompanhada de uma longa risada. Essa lógica se repetiu ao longo dos anos.
Na sexta (5), todas as versões de Fafá (da MPB ao rock, do sertanejo ao brega paraense) estarão no Circo (onde se apresenta pela primeira vez com um show completo), com participação do mestre Manoel Cordeiro.
— Há coisas que eu faço de graça, e outras que não faço nem por dinheiro nenhum. Um empresário que eu tinha (antigamente) dizia que não se ganhava dinheiro no Circo (Voador). Eu respondia: “Mas eu não quero ganhar dinheiro no Circo, eu quero ser feliz”. E essa felicidade é o que permeia a minha vida — conta.
O que deixa Fafá mais feliz no Brasil de hoje é ver o povo cantando e se divertindo com ela, Gilberto Gil, João Gomes, Ivete Sangalo, Gustavo Lima, Luan Santana… O que a deixa mais triste é “a internet dando voz à ignorância”.
— Há, em todas as áreas, pessoas sem nenhuma profundidade. Há uma necessidade hoje de ter uma opinião, muitas vezes sem um conhecimento aprofundado dela, e isso é muito perigoso. Você vê pessoas pedindo cancelamentos e apedrejamentos, e isso não é o povo brasileiro — afirma, antes de dar um exemplo:
— Vimos recentemente que essa onda não tem esse poder todo. Clamaram por um cancelamento do Ed Motta por uma “cagada”, uma falta de educação que ele fez e tinha uma plateia lotada cantando junto, porque as pessoas foram por causa da música. Na internet, achavam que podiam acabar com a carreira e com a história dele. Isso é de uma pretensão e de uma arrogância.
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O que para muitas pessoas poderia ter tons dramáticos, os 70 anos não representam nenhum peso negativo para Fafá, que responde ao tempo com… risadas:
— Eu não sou uma pessoa que liga para essas coisas do tempo que passa. Às vezes não me vejo com essa idade, às vezes morro de rir. Para mim, como se diz na minha terra, “o tempo tem tempo de tempo ser”.
Para as comemorações (“Animação é o meu nome”, brinca, falando sério), o plano é começar com o próximo álbum — que, como conta, reúne canções de compositores paraenses e tem uma sonoridade que junta o eletrônico com a percussão, “a raiz”.
— Se eu fosse uma pessoa coerente (risos), se tivesse um estilo, seria “Tamba-tajá” (1976), “Água” (1977), “O canto das águas” (2002) e esse próximo. Se eu tivesse que lançar uma caixa de “resumo amazônico”, seriam esses quatro discos — explica. — É um disco que termino cada faixa aos prantos, entendeu? Me toca muito pessoalmente. Vai ser um disco popular? Não sei.
Trocando de empresário e assinando com um novo selo, Fafá se prepara para começar uma grande turnê a partir de janeiro.
— Eu estou sempre começando. Para mim tudo é novo. Não sento no meu baú e não tenho a sede da onipresença — diz. — Se eu não tenho o que falar, não me desespero. O que me move é a música.
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