Usman Muhammad é um jovem na casa dos 20 anos e sobreviveu a uma situação de superlotação e calor extremo em uma cela de uma prisão em Minna, capital do estado de Níger, na Nigéria. Segundo seu relato, 33 companheiros de cela morreram dentro do espaço, enquanto outros quatro detidos morreram posteriormente no hospital.
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Muhammad estava preso com mais de 50 pessoas em uma cela de aproximadamente 6 metros por 3 metros, segundo reportagem da BBC. Ele descreveu à emissora um ambiente no qual havia espaço praticamente apenas para permanecer em pé, com umidade superior a 90%, temperatura externa acima de 25 °C e ventilação restrita a uma pequena janela na parte superior da parede.
— Nunca senti um calor como aquele na minha vida. Quando encostávamos no corpo uns dos outros, parecia que um fogo estava queimando — contou.
As mortes provocaram indignação e protestos, inclusive com ataques a prédios públicos. Familiares e moradores passaram a exigir explicações sobre o que aconteceu.
‘Foi assim que começaram a morrer’
Muhammad relatou que, depois de algum tempo na cela, um dos detidos desmaiou. Os presos começaram a bater na porta e, quando um guarda apareceu, pediram água. Segundo o sobrevivente, o agente olhou para o homem que havia desmaiado e fechou novamente a porta.
— Foi assim que começaram a morrer, um após o outro — disse.
Com o passar das horas, o calor e a desidratação se tornaram insuportáveis. Muhammad afirmou que alguns presos chegaram a beber a própria urina e recolher suor do corpo na tentativa de continuar vivos. Ele também disse ter visto pessoas com dificuldade para respirar e detidos muito fracos pedindo ajuda.
— As pessoas pediam ajuda, algumas já estavam muito fracas.
Níveis muito elevados de umidade podem dificultar o resfriamento natural do organismo porque reduzem a evaporação do suor. Na cela, a ventilação era feita apenas por uma pequena abertura localizada na parte superior da parede.
‘Havia pessoas morrendo’
Outro sobrevivente, Adamu Isah, também relatou a situação à agência de notícias Reuters. Segundo ele, os presos gritavam e pediam que a porta fosse aberta ao perceberem que havia pessoas morrendo.
— Enquanto estávamos na cela, gritávamos e dizíamos a eles que havia pessoas morrendo.
Isah afirmou ainda que os detidos tentaram arrombar a porta depois que os pedidos não foram atendidos, até que um agente foi até o local.
— Estávamos gritando e dizendo a ele que havia pessoas morrendo, mas ele disse que não era problema dele se as pessoas morressem.
A porta só foi aberta na quinta-feira. Foi então que os guardas encontraram os corpos dos mortos.
Quem eram os presos
Muhammad e os demais detidos eram garimpeiros artesanais, atividade praticada por pessoas que procuram metais preciosos em regiões de mineração. O governo federal da Nigéria vem tentando combater a atividade, que considera ilegal, sob argumentos relacionados à perda de receitas, aos danos ambientais e a possíveis vínculos com outras atividades criminosas.
Agentes do Nigeria Security and Civil Defence Corps (NSCDC) prenderam um grande grupo de garimpeiros nos arredores de Minna na terça e na quarta-feira anteriores aos acontecimentos. Os detidos foram levados para o centro de detenção do NSCDC na cidade.
A organização não divulgou os nomes nem a quantidade de pessoas que estavam sob sua custódia.
O NSCDC não respondeu diretamente às acusações de negligência e maus-tratos feitas pelos sobreviventes. A organização informou, porém, que 24 de seus funcionários estão sob custódia em razão das mortes. Entre eles está o comandante suspenso do estado de Níger, Suberu Aniviye.
O governador do estado de Níger, Umaru Bago, afirmou que as mortes precisam ser investigadas.
— As pessoas que foram mortas não são moscas. Como isso pode ficar sem investigação? Vamos chegar ao fundo disso.
Bago não tem autoridade direta sobre o NSCDC, uma organização federal que não está subordinada ao governo estadual como ocorre com a polícia. Mesmo assim, ele apoia a investigação determinada pelo governo federal em Abuja, capital do país.
Comissão terá duas semanas para investigar
Foi criado um comitê com dez integrantes para apurar o que aconteceu. A comissão terá duas semanas para determinar as causas das mortes, identificar responsáveis e recomendar medidas legais contra pessoas consideradas culpadas.
O ministro do Interior, Olubunmi Tunji-Ojo, afirmou que nenhum agente será protegido independentemente da patente. Segundo ele, qualquer tentativa de obstruir a investigação será tratada com seriedade.
Inicialmente, as autoridades federais atribuíram as mortes a um surto de difteria. As circunstâncias exatas, porém, passaram a ser objeto de investigação.
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