Era agosto de 2003 quando o técnico brasileiro Luiz Felipe Scolari, à frente da seleção de Portugal, acionava, no segundo tempo, um jovem fenômeno do futebol do país na época. Aos gritos de “Ronaldo, Ronaldo!” das arquibancadas do Estádio Municipal de Chaves a cada vez que tocava na bola, o então camisa 16 Cristiano Ronaldo estreava pela seleção com muita personalidade num amistoso com o Cazaquistão — Portugal venceria por 1 a 0. Num sistema ofensivo que tinha Deco, Simão e Pauleta, ele aproveitou uma das primeiras chances pela direita, driblou um marcador e bateu forte, exigindo boa defesa do goleiro Novikov. “Estava a dizer que o futuro da seleção estava assegurado. Maior prova do que esta não existiria”, sentenciou o comentarista da emissora portuguesa RTP após o lance. Ontem, esse “futuro” de 23 anos terminou: o craque de 41 anos anunciou sua aposentadoria da seleção.
O comunicado veio em postagem nas redes sociais, com a leitura de uma carta e um vídeo com momentos importantes de sua história com o uniforme luso. “Aos portugueses, chegou o dia de devolver a camisa 7 da seleção de todos nós. Nunca senti como exclusivamente minha, mas durante 23 anos tive o privilégio e a responsabilidade de vestir, de defender e de levar comigo para estádios do mundo inteiro. Hoje chegou o momento de entregar ao futuro”, disse o atacante no comunicado.
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A aposentadoria vem em meio a uma crise com o técnico Jorge Jesus que o levou até a abandonar a concentração na última Data Fifa.
No fim de setembro, o que era uma relação de elogios públicos entre jogador e treinador, campeões juntos no Al-Nassr, na Arábia Saudita, se transformou em uma disputa de narrativas, palavras finais e autoridade. O estopim foi na partida com a Noruega, pela Liga das Nações, quando Cristiano ficou longo tempo no aquecimento, mas não entrou em campo. Jogo em que, segundo o próprio Jesus, havia um plano inicial de que Ronaldo não atuaria, combinado com o próprio jogador, e alterado posteriormente.
Cristiano Ronaldo em sua última Data Fifa com Portugal
Liselotte Sabroe / Ritzau Scanpix / AFP
Um novo nível
Três dias depois do episódio, o presidente da Federação Portuguesa, Pedro Proença, desembarcava em Copenhague para apagar o incêndio. Não adiantou: o atacante e capitão da equipe deixaria a concentração minutos depois de entrevista coletiva de Jesus naquele dia.
— Nunca nenhum jogador vai mudar as minhas ideias — disse o treinador.
Suspenso e multado simbolicamente, CR7 ainda publicaria uma constrangedora carta com respostas que teria combinado que o treinador lesse na coletiva. A crise com uma figura de tamanho inferior ao seu no futebol do país acabou por ser um último capítulo melancólico de um épico de 23 anos. A federação, dividida entre o legado do craque e o respaldo a Jesus, sinalizou um jogo de despedida.
Mas, ainda que o final tenha sido dessa forma, nada apaga o legado eterno da camisa 7 que Cristiano, maior ídolo da história do futebol português, “devolveu” ontem. Maior artilheiro do futebol de seleções, com 146 gols em 234 jogos, o gajo elevou o nível de Portugal. Antes de sua estreia, a equipe tinha o terceiro lugar na Copa do Mundo de 1966, com a geração de Eusébio, como maior feito, e apenas três Mundiais disputados — nas outras duas, parou na fase de grupos. Com CR7, foram seis participações (que renderam recorde individual), com uma campanha de semifinal, três de oitavas e uma de quartas, além de 2014, ano em que atuou no sacrifício, com uma tendinite no joelho esquerdo, e os lusos voltaram a parar na fase de grupos. O sonhado título não veio, mas outras conquistas fizeram a seleção subir de prateleira no futebol.
Cristiano com a taça da Euro de 2016
AFP PHOTO / MIGUEL MEDINA
A ousadia, os dribles, o poder de decisão e a personalidade do atacante, que conquistou cinco Bolas de Ouro, vestiu as camisas dos maiores clubes do mundo e se tornou um dos atletas mais influentes da história do esporte — hoje, ainda está muito perto do milésimo gol oficial —, alimentaram gerações de portugueses a sonharem com o protagonismo. E ele os ajudou a chegar lá: capitaneou a inesquecível conquista inédita da Eurocopa, em 2016, superando a França, que seria campeã mundial dois anos depois, e se redimiu do traumático vice-campeonato do início da carreira, em 2004. Com toque de emoção, se lesionou naquela decisão e vibrou do banco. Ainda ajudou a colocar na sala de troféus portuguesa duas Ligas das Nações, em 2019 e 2025.
Os números de CR7 pela seleção
Editoria de Arte
Para sustentar tamanho protagonismo, era preciso personalidade e uma perpétua vontade de estar no topo. Manter esse lado sob controle foi a grande dificuldade do craque em seus ciclos finais na seleção. À medida que a idade avançava, lidava de forma mais emocional com os dissabores, como na Copa de 2022, quando perdeu espaço para um jovem Gonçalo Ramos. Quatro anos depois, não conseguiu mobilizar aquela que é considerada a melhor geração portuguesa, com astros como Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Nuno Mendes, Vitinha e João Neves, para uma campanha à altura no Mundial.
Cristiano Ronaldo em treino de Portugal durante a Copa de 2016
PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP
Uma nova geração que também parece não ter comprado seu barulho. Na inevitável comparação com o eterno rival Lionel Messi, Cristiano, gênio imperfeito, nunca pareceu ser abraçado, dentro e fora de campo, como o argentino foi em seus anos finais de seleção. O próprio Gonçalo Ramos, substituto de CR7 na crise de setembro, ressaltou, na semana passada, que deveria ser o titular. Quando perguntado sobre um possível retorno de Cristiano, adotou um discurso parecido com o de vários colegas durante a Copa:
— Vai ser bem recebido, como qualquer outro colega de seleção seria.
Para quem sempre polarizou opiniões, as de alguns entre as centenas de jogadores com quem atuou na equipe contam pouco. Os fatos, os gols e os grandes momentos protagonizados por Cristiano Ronaldo acompanharão Portugal para sempre. Assim como sua icônica comemoração, o “siiiu”, repetido por crianças, adultos e gerações de novos jogadores. O gajo demarcou, ontem, uma linha de antes e depois na história de sua seleção.
O ‘siiiu’, icônica comemoração de Cristiano Ronaldo
Charlotte Wilson/Getty Images/AFP
Ídolo imperfeito, Cristiano Ronaldo fecha em capítulo amargo um épico de 23 anos por Portugal
