Um dia depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixar Belém com um discurso otimista, mesmo sem ver o empenho pessoal nos rumos da COP30 surtir efeito imediato, a tentativa de transformar a conferência em um trunfo político sofreu mais um duro baque nessa quinta-feira. Um incêndio na chamada Blue Zone, onde ocorrem as principais tratativas multilaterais, fechou o espaço no início da tarde, com a reabertura ocorrendo quase sete horas depois, e fez com que 21 pessoas precisassem de atendimento médico (leia mais na página 11). Além de travar negociações já difíceis no penúltimo dia de evento, o episódio suscitou críticas à organização tanto no Brasil, capitaneadas pela oposição ao petista, quanto no exterior, onde veículos de imprensa destacaram “delegados em pânico correndo para evacuar o centro de convenções improvisado”, em referência às estruturas temporárias utilizadas para erguer o pavilhão.
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— Nunca houve, em 30 anos de Convenção do Clima, uma Zona Azul pegando fogo. A relação da ONU com a Casa Civil (pasta no Planalto responsável pela condução da COP30) não poderia ficar pior do que já está — resumiu Claudio Angelo, coordenador do Observatório do Clima, em entrevista à GloboNews pouco depois do incêndio.
O fogo começou pouco após as 14h e levou cerca de seis minutos para ser debelado. Às 20h40, o acesso ao pavilhão foi liberado, depois que “as autoridades brasileiras restabeleceram as condições de operação no espaço da conferência”, como informou aos participantes a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), braço da ONU que conduz a conferência. “Após uma avaliação de segurança, informamos que o local foi inspecionado e considerado seguro pelo Corpo de Bombeiros”, acrescentava o comunicado. Após a reabertura, um pano branco isolava a área que pegou fogo, que “ficará isolada até a conclusão da conferência”.
“Temos um trabalho substancial pela frente, e confiamos que os delegados retornarão às negociações com espírito de solidariedade e determinação para assegurar um resultado bem-sucedido para esta COP”, prosseguia o texto. O próprio órgão, no entanto, reconheceu que não haveria mais atividades plenárias durante a noite.
Incêndio na COP30: vídeo mostra momento exato em que o fogo começou
Quando o fogo começou, o ministro do Turismo, Celso Sabino, estava na Blue Zone. Paraense e pré-candidato ao Senado no estado, ele também aposta na conferência para colher dividendos políticos. Enquanto tentava acalmar jornalistas, o ministro buscou minimizar o episódio:
— Eu vejo um incidente isolado, um princípio de incêndio que foi prontamente contido. O nosso sistema de contingenciamento mostrou muita eficiência — argumentou Sabino. — Isso poderia acontecer em qualquer lugar do planeta.

Incêndio na COP 30
O ministro afirmou ainda que a estrutura da COP foi montada com material antichamas. No entanto, a estrutura da conferência foi criticada pela ONU em carta ao governo brasileiro na semana passada. Na ocasião, goteiras e alta de ventilação adequada também foram alvo das queixas.
O governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), também se manifestou: “O incêndio na zona azul da COP30 está controlado! As equipes agiram rapidamente para evacuar a área”, publicou.
Já o prefeito de Belém, Igor Normando (MDB), informou que direcionou as equipes municipais “para apoiar todas as ações no local, garantindo que a conferência siga funcionando com segurança e tranquilidade”. Ele frisou que o objetivo é entregar “uma COP responsável e histórica” para a cidade.
Procurado, o Planalto limitou-se a repassar a nota que já havia sido divulgada pela organização da COP30. O texto agradecia a “cooperação e compreensão” dos participantes enquanto era priorizada “a segurança de todos os envolvidos”. Até as 22h dessa quinta, Lula não havia feito qualquer comentário sobre o incêndio.

Incêndio grave atinge pavilhão da COP30
O incidente repercutiu fortemente na imprensa internacional. Segundo o The New York Times, as chamas fizeram com que “delegados em pânico corressem para evacuar o centro de convenções improvisado, uma grande instalação construída em um antigo campo de aviação”. Já o jornal britânico The Guardian frisou que o “incêndio acrescentou ainda mais urgência às deliberações à medida que o tempo passa para chegar a um acordo”. O francês Le Monde, por sua vez, destacou o “leve cheiro de plástico queimado no ar”, durante a evacuação.
No Brasil, a oposição ao governo federal, sobretudo bolsonaristas, surfou no episódio. “O evento que era pra cuidar do meio ambiente está pegando fogo”, ironizou na web o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). “É fogo na Amazônia… Fogo no Pará… O país não aguenta mais quatro anos de Lula”, postou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

