O cineasta Kleber Mendonça Filho já disse acreditar que um roteiro, “nos melhores dias, é uma peça de literatura”. Como seu trabalho mais recente, “O agente secreto”, vive excelentes dias — quem sabe até de máxima glória, se as indicações ao Oscar de melhor filme internacional e melhor ator, para Wagner Moura, previstos pelos críticos, realmente se confirmarem —, nada mais justo de que o roteiro vá parar num livro.
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E nem demorou: “O agente secreto” sai agora pela Amarcord, entrecortado por rascunhos feitos pelo diretor com indicações de planos de filmagens. Fotos inéditas dos bastidores, complementam a experiência extratela dessa história que gira em torno de um misterioso professor (Wagner Moura) no Recife de 1977.
— Tenho um interesse muito grande em expor o processo de como um filme é feito — diz Kleber. —Quando eu era um jovem cinéfilo que sonhava em fazer cinema, me apegava muito a livros e peças que fazem parte do entorno de um filme. Isso não significa que eu vá ensinar nada a alguém. Não estou apresentando uma fórmula, mas uma experiência pessoal, compartilhando de forma muito aberta os elementos que fazem parte da construção de “O agente secreto”.
Para dar ainda mais musculatura à obra impressa, o cineasta escreveu um prefácio com detalhes do nascimento da ideia do longa e de como a colocou no papel. Expõe também reflexões sobre memória e história e sobre o Brasil exibido em sua cinematografia. Palavras redigidas pós-Cannes, quando o filme já arrebatara a audiência e saíra do festival francês com dois prêmios: melhor direção e melhor ator para Wagner Moura (que assina o posfácio, num texto cheio de cenas de encontros entre os dois).
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— Escrever me levou de volta a toda a gênese desse projeto, a pensamentos muito íntimos que ajudaram a colocar em perspectiva o que me trouxe até aquele ponto. Foi uma experiência muito forte e nada rápida. A editora lidou muito bem com a demora, porque foram dois meses para eu ir ajustando o texto.
Não é a primeira vez que o universo do cineasta sai da tela para o papel. Em 2020, a Companhia das Letras publicou, numa só obra, os roteiros de “O som ao redor” (2012), “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019). Naquele volume, tudo foi impresso em preto e branco; desta vez, o projeto gráfico acompanha as cores fortes da fotografia original de “O agente secreto”, embora explore também o preto e branco das lentes do fotógrafo Victor Jucá.
Editora executiva do Grupo Editorial Record, Lívia Vianna ressalta, no entanto, que o texto é a espinha dorsal do livro e diz já ter “cutucado” Kleber para se jogar na ficção em prosa:
— O jeito que ele escreve podia estar num romance. Existe ali uma pessoa com virtuosismo literário.
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O diretor não descarta, até porque, a cena do posto de gasolina presente no filme já apareceu num conto sobre carnaval “nunca bom o suficiente para ser publicado em lugar algum”:
—Seria bom pensar em sentar e escrever uma história, pode ser um romance ou uma série de contos. É algo que me agrada e talvez bata bem com meu estado de espírito atual, muito feliz com filme. Quem sabe eu não posso tentar uma outra coisa?

