Seja qual for o vencedor do segundo turno da eleição presidencial boliviana, previsto para o dia 19 de outubro, o país sofrerá mudanças econômicas, de política interna e externa. Com algumas nuances, o candidato mais votado no primeiro turno, Rodrigo Paz Pereira, do Partido Democrata Cristão, e o segundo colocado, o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga (2001-2002), da Aliança Livre, defendem um ajuste econômico para superar a crise em que está mergulhado, a abertura da Bolívia para comércio e investimentos estrangeiros, um enxugamento do Estado, o abandono de alianças internacionais, sobretudo com os chamados países bolivarianos (Venezuela e Nicarágua, principalmente), e uma aproximação pragmática com os Estados Unidos.
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Na noite em que celebrou um resultado que, segundo analistas bolivianos, nem ele mesmo esperava, Paz Pereira, filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989-1993), afirmou que defenderá a mudança do modelo econômico implementado pelos governos do esquerdista Movimento ao Socialismo (MAS) nos últimos 20 anos.
— Espero que o Parlamento nos ajude a mudar este modelo econômico que trabalha para o Estado, e não para os bolivianos — declarou o candidato, que prometeu melhorar as condições de vida das classes médias e baixas com acesso ao financiamento bancário, liberar as importações e implementar uma reforma tributária para impulsionar a industria nacional.
Paz Pereira nasceu e se formou no exterior. É economista, com mestrado em Gestão Política pela American University, nos EUA. Por forte influência de seu companheiro de chapa, o ex-policial Edman Lara, durante a campanha levantou a bandeira do “capitalismo popular”, sem dar muitos detalhes do que isso significa. Muito ativo nas redes sociais, sobretudo no TikTok, Lara penetrou em bairros populares de La Paz e outras cidades bolivianas, onde é mais conhecido que o próprio Paz Pereira.
Quiroga é conhecido por sua trajetória conservadora e tecnocrata. O ex-presidente estudou engenharia de produção na Universidade Texas A&M e administração de empresas, iniciou sua carreira política em 1988, ocupando cargos no Ministério de Planejamento antes de se tornar ministro das Finanças — no governo de Paz Zamora — e, posteriormente, vice-presidente da Bolívia em 1997, o mais jovem da história do país. No domingo, ao reconhecer a vitória de Paz Pereira, o ex-presidente agradeceu ajuda de seu pai, Paz Zamora, em sua trajetória política. Claro sinal da sintonia entre ambas candidaturas.
— Tanto Rodrigo como Tuto deverão enfrentar a crise econômica e os problemas estruturais do país. Está claro que ambos aplicarão medidas de ajuste e pedirão socorro aos organismos internacionais — afirma o consultor político Ricardo Paz.
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Segundo ele, Tuto estaria mais ligado a governos conservadores na região como o de Javier Milei, na Argentina. Já Rodrigo Paz Pereira teria um relacionamento mais fácil com Lula. Mas ambos buscarão ter uma política externa mais ampla, afirma o especialista.
— As políticas de ajuste provocarão reações sociais, porque a Bolívia é um país com sindicatos e movimentos sociais fortes. Haverá repressão, seja Rodrigo ou Tuto. Mas talvez Rodrigo teria mais capacidade de negociação — acrescenta o consultor político.
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Durante a campanha, Quiroga afirmou que, se retornar ao poder, usará “todos os recursos à minha disposição: serra elétrica, facão, tesoura, o que for necessário”. Em matéria de politica externa, o ex-presidente antecipou que não teria relações “com as três tiranias trogloditas totalitárias, os três piratas do Caribe: Venezuela, Cuba e Irã”.
— Rodrigo também romperia alianças com os países mencionados por Quiroga, e acho que nenhum dos dois questionaria o vínculo com a China, um importante parceiro da Bolívia — aponta o analista Gonzalo Mendieta.
A relação com os EUA, afirma Mendieta, seria “pragmática” em ambos os casos. Na campanha, Quiroga declarou não gostar de “países que aumentam tarifas. Vou reduzir tarifas e entendo perfeitamente que minha resposta se refere a um Estados Unidos que já não está aberto ao livre comércio”. Paz Pereira esteve nos EUA durante a campanha, fazendo alguns contatos. Ambos candidatos sabem que precisarão do apoio do governo americano para, entre outras metas, conseguir financiamento de organismos internacionais.
— Com ambos candidatos a Bolívia terá uma economia mais aberta, mas sem ser um governo provocador. Nenhum dos dois será um Milei boliviano — acrescenta Mendieta.
A Bolívia passará a ser um país mais moderado, acreditam analistas locais, com fortes tensões internas. A situação do ex-presidente Evo Morales (2006-2019), foragido da Justiça e escondido na região cocaleira do Chapare, será um desafio para o futuro presidente. Quiroga prometeu prender Morales. Paz Pereira poderia ser mais conciliador.
Uma incógnita que paira sobre o país é o que fariam ambos em relação à adesão da Bolívia ao Brics e ao Mercosul. Quiroga fez fortes críticas ao bloco durante a campanha. Paz Pereira foi menos duro, mas também defende uma abertura econômica que seria dificultada pela presença da Bolívia no bloco.
— Tuto disse que deveríamos sair do Mercosul, mas acho que, finalmente, não será tão simples. O Brics é diferente, pela presença de países como o Irã. Nesse caso, acho que Tuto poderia tirar o país do grupo, Rodrigo não deixou isso claro — explica o analista.
A eleição de domingo passado deixou claro que a maioria dos bolivianos quer encerrar o ciclo do MAS no poder. O que está por vir é uma mudança radical, seja eleito Paz Pereira ou Quiroga. Com o ex-presidente, o país poderia entrar num período mais turbulento, pelas posições mais duras do candidato e, principalmente, por sua baixa popularidade nos setores populares.