Uma serpente vermelha de proporções colossais enfeita a entrada do Auditório da Matriz, espaço principal da Festa Literária Internacional de Paraty deste ano. A imagem da cobra também ocupa lugar de destaque na decoração do palco. Estrela do folclore local, o tal réptil gigante já causou paúra em muita gente: o animal é personagem de uma das mais famosas lendas populares do município.
Segundo a história que atravessa gerações, uma criança indesejada, fruto de um relacionamento extraconjugal, teria sido enterrada viva aos pés da imagem de Nossa Senhora dos Remédios na Igreja Matriz. Por força de um encantamento, a criança transformou-se em enorme serpente, com a cabeça sob os pés da santa e corpo que se estende ao longo do Rio Perequê-Açu.
Conta a lenda que, se um dia a imagem da padroeira de Paraty for tirada do lugar, a serpente despertará e destruirá a cidade. Outra versão garante que o encantamento só se quebraria se a “criança-serpente” fosse amamentada por uma virgem.
— A gente pulava ali da ponte e sempre queria chegar ao fundo, encostar na areia, aquela coisa toda, né? Mas entre a molecada havia a ideia de que a gente não podia ir muito fundo, porque poderia encontrar a tal serpente — lembra o escritor paratiense Flávio de Araújo, que este ano foi convidado da Casa Sesc Santa Rita. —No nosso imaginário, a parte de trás da Matriz já estava afundando por conta dos efeitos do remelexo da cobra.
O animal inspira mitos e tem papéis simbólicos desde a antiguidade: da Hidra de Lerna e do ouroboros, na mitologia grega, à Bíblia. Talvez por serem abundantes nas entranhas da Mata Atlântica que cerca Paraty, serpentes são lembradas nas narrativas da população da região. Flávio de Araújo conta que há outra história a respeito de uma cobra fantástica nas regiões costeiras:
— Em Trindade tem a lenda da cobra do Cantagalo. Uma serpente que tem cabelo de mulher, crista de galo e canta igual ao galo… E essa cobra aparece nas matas afugentando as pessoas. Essa lenda é bem forte ali na Ponta Negra e na Praia do Sono também.
A presença da serpente na Flip faz parte de um esforço maior da Associação Casa Azul, organizadora do evento, para integrar costumes paratienses à programação. Antes de os autores subirem ao palco, por exemplo, uma composição da cidade, a ciranda “Maria põe o barco n’água”, toca em versão instrumental nos alto-falantes do Auditório da Matriz.