Em um mundo cada vez mais instável — especialmente em razão das mudanças promovidas por Donald Trump na política externa dos Estados Unidos —, a necessidade de diversificar parcerias comerciais e ampliar alianças não é uma prioridade exclusiva do Brasil, pressionado pela ameaça de novas tarifas americanas. É nesse contexto que se explicam avanços recentes, como a conclusão, após três décadas de negociações, do acordo entre Mercosul e União Europeia, a expectativa de um acordo comercial com o Canadá nos próximos meses, o avanço das negociações com o Japão e a abertura de mais de 500 mercados para produtos brasileiros nos últimos anos.
A estratégia, contudo, antecede o retorno de Trump à Casa Branca. Como lembrou o ministro Dario Durigan, os estudos para a emissão de títulos da dívida brasileira em yuan, os chamados Panda Bonds, começaram em 2024, por exemplo. Ainda assim, a política externa mais agressiva dos Estados Unidos deu novo impulso à aproximação entre países que compartilham a defesa do multilateralismo e das regras internacionais, de uma racionalidade que o ex-embaixador Roberto Jaguaribe chama de humanizadora. Há uma busca crescente por estabilidade, previsibilidade em acordos internacionais, afirma Jaguaribe, conselheiro consultivo e internacional do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Segundo ele, países que valorizam organismos como ONU e OMC, que deixaram de ser afiançados pelos EUA, procuram fortalecer laços diante de uma política externa americana cada vez mais baseada na pressão bilateral.
Jaguaribe, que estava à frente do I Fórum de Investimentos Brasil-União Europeia, realizado nesta semana em Brasília, afirma que o interesse europeu em estreitar relações com o Brasil também aumentou, assim como de outros países da Ásia para além da China. Na avaliação do diplomata, dois setores devem liderar essa nova fase de investimentos: energia e minerais críticos.
Confira os principais trechos da entrevista com Jaguaribe.
Estamos num mundo mais convulsionado por uma multiplicidade de razões. Há uma inquietação da liderança americana em função da potencialidade de perda de hegemonia completa que os Estados Unidos vêm exercendo há muitos anos, dentro de um ordenamento que eles mesmos criaram por várias razões, inclusive porque os ajudava a manter com menos custo através do ordenamento racional com valores americanos, digamos, difundidos pelo mundo, o que criou um soft power muito grande, com uma influência muito relevante. E isso está se desmontando por razões diversas. A minha leitura própria é de que há um temor de que a China esteja avançando demais e ameaçando a hegemonia americana e acha que, da forma que está, as coisas vão acabar enveredando por um rumo indesejado. A China soube se aproveitar extremamente dos últimos anos, de forma muito inteligente, competente, e teve um crescimento muito significativo. E eu acho que isso criou então essas condições.
A presidência americana é muito atípica. Embora as pessoas se iludem, se pensam que vai mudar muito os Estados Unidos depois de Trump. Essa tendência de buscar maximizar os benefícios através de pressões bilaterais, singulares, não vai diminuir muito. E a ideia de criar conformidade em países que não são tão conformes também não vai diminuir muito.
Os Estados Unidos é um país com atributos extraordinários, um país com uma força, um vigor, uma energia, uma disposição, uma capacidade criativa, uma pujança e uma implacabilidade que fazem dele o grande protagonista global há muitos anos. Mas, por outro lado, ele conseguiu desenvolver, através de várias contribuições para o sistema internacional, e a ONU em particular, que é uma concepção do Roosevelt e que se materializou depois da Segunda Guerra, de uma estabilidade regulada com base no direito internacional. É evidente que todos os países menores e maiores, sobretudo os maiores, desrespeitavam com maior ou menor frequência essas regras.
A novidade está em que elas não são mais referenciadas pelo principal país, que é os Estados Unidos. Os outros ainda buscaram, mesmo desrespeitando, querem tê-las como referência. Mas os Estados Unidos estão ignorando essas referências tradicionais de direito internacional.
Busca de um ordenamento global mais estável
Há países que querem manter um regramento para previsibilidade e planejamento tentam construir espaços alternativos. A Europa claramente tem essa vocação, tem o interesse em manter um ordenamento global mais estável e quer parceria. Ao Brasil interessa a mesma coisa, e a maior parte dos outros países também. Esse entendimento mais amplo entre Brasil, Mercosul e União Europeia cria um espaço, digamos, de preservação, de previsibilidade e de ampliação de potencialidades. ele tem que ser visto nesse contexto mais amplo, portanto.
As complementariedades Brasil-UE
A Europa tem deficiências muito relevantes na área em que o Brasil em particular, mas o resto do Mercosul e da América Latina, tem muito a contribuir, seja na questão da sustentabilidade, da energia, de matéria-prima, de minerais críticos. Além disso há uma tradição de relação muito antiga com a questão da imigração europeia para cá, o Brasil é o maior país italiano do mundo depois da Itália, é o maior país alemão da América Latina, é o maior país português do mundo, é um grande país espanhol e muitas outras nacionalidades europeias, sem falar das outras partes do mundo onde nós também somos muito ricos.
Indústrias europeias representam 40% do investimento estrangeiro no Brasil
As indústrias e investimentos europeus no Brasil são majoritárias. No Mercosul e no Brasil em particular a presença americana fundamental a chinesa crescente, mas a tradicional de mais peso continua sendo europeia. Embora os Estados Unidos movimentem mais, a europeia não é só mais tradicional, é maior em volume de investimentos.
Os Estados Unidos é muito forte, muito poderoso e é um pouco como a lei da gravidade. Quanto mais próximo dos Estados Unidos, mais intensa ela é. Então, México e Canadá são completamente voltados para os Estados Unidos. Você vai descendo e continua a América Central é totalmente voltada, o Caribe. Mas a América, a parte norte da América do Sul também tem uma intensidade maior. Quanto mais você desce, menos é a presença, embora sempre muito importante. As indústrias europeias representam 40% do investimento estrangeiro no Brasil. E isso considerando a mensuração de investimentos é sempre muito precária, porque é uma coisa com base em balanço do Banco Central, mas se você somar os ativos e um dos investimentos europeus na indústria brasileira, são altamente significativos. E isso dá uma margem para muitas coisas.
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Num momento em que a Europa está passando por desafios muito acentuados de naturezas diversas, onde a suplementariedade e a complementariedade do Mercosul e do Brasil podem ser particularmente relevantes para reerguer um elemento de competitividade. Acho que tudo isso é muito promissor. Agora, nada cai do céu, é preciso muito trabalho pela frente, muita coordenação em financiamento, em identificação das oportunidades, em levar isso adiante, e precisa de um momento para isso.
Energia e mineração como ponto de partida
O ponto de partida está, a meu juízo, está em duas coisas chaves: energia e mineração. Porque a mineração virou um elemento chave para as novas tecnologias. e o Brasil é muito rico nisso e como você sabe o Brasil tem apenas 35%, 40% do seu mapa geológico estudado, então o potencial do Brasil ainda é gigantesco. O pouco que já é conhecido já é enorme e totalmente inexplorado sobretudo em terras raras e alguns outros minerais críticos. Além disso, há uma abundância de energia que permite que as cadeias iniciais de processamento sejam todas feitas aqui de forma mais competitiva gerando não apenas uma coisa tradicional que é investimento para cá, mas investimento competitivo dentro do cenário de cadeias produtivas globais. Então, deixa de ser uma coisa exclusivamente local, investimento para explorar o grande mercado brasileiro e um pouco a vizinhança, para alimentar as próprias cadeias europeias e outras. E não são restritos a investimentos europeus, porque esse chapéu do acordo com a Europa é válido para qualquer um que investir. Existem muitas possibilidades,.
Racionalidade humanizadora
Agora, nada vai sair de graça, mas é num contexto geopolítico que você já viu, dentro desse quadro mais geral e dentro da necessidade de alguns, de todos os países, na verdade, exceto os que têm enorme poder de encontrarem espaços de estabilidade, de previsibilidade, e de racionalidade, digamos, humanizadora, porque também está o mundo caminhando por um linha completamente fora da racionalidade humanizadora.
Soberania e Estados Unidos
O Brasil, nesse momento, tem um desafio de sobreviver com sua soberania, sem perdê-la, maximizar o que é possível na relação. Nosso objetivo tem que ser muito claro. Melhor relação possível com os Estados Unidos sem perda de soberania. Evidente que perda de soberania é um sonho. Nenhum país tem soberania completa, nem os próprios Estados Unidos, porque qualquer acordo que você faça, bilateral ou multilateral, está abrindo mão de parte da sua capacidade decisória. Mas o Brasil tem que fazer isso dentro de uma composição que preserve seus interesses, porque os Estados Unidos estão em um período muito complexo, com essas novas doutrinas para a região, inclusive.
Capacidade de negociação aumenta com abertura de novos mercados
Essa capacidade de negociação tem a ver com a abertura de novos mercados e tem a ver com o estabelecimento de relações sólidas generalizadas. A primeira coisa e mais difícil é aqui mesmo na América do Sul. É preciso reconstruir uma relação de mais abertura e confiança no âmbito da América do Sul. As diferenças com o Paraguai e com a Argentina, que são também facultadas por uma opção que os Estados Unidos faz há muito tempo, de seduzir vizinhos do Brasil para criar problemas conosco. Essas são perturbações que a gente tem que tentar superar, porque é um caminho.
A outra questão é valorizar a relação com a Europa e com a China. E também com os países assemelháveis, como o Canadá, que a gente está próximo de concluir um acordo, deve assinar, talvez, agora, nos próximos meses, talvez, positivamente. Nós temos que buscar muitas parcerias e equilíbrios em outros lugares para fortalecer. Tem que pensar numa diplomacia muito ativa nesse sentido e tem que também pensar numa completa reestruturação do sistema de defesa do Brasil. Porque as únicas ameaças que o Brasil tem, nós nunca estivemos preparados para elas. E isso pode fazer parte do pacote com a União Europeia. Não é que ninguém está pensando em entrar em linhas de atrito, mas é que outros estão muito belicosos. Então, a gente precisa se acautelar.
Acho que, portanto, é um momento muito oportuno e é preciso fazer muita força para funcionar, porque não vai funcionar sem muita força. Por outro lado, cria oportunidades muito ricas e que podem ser exploradas. Eu não tenho dúvida que é um caminho muito oportuno e necessário nesse momento.
Energias renováveis e o Nordeste brasileiro
Acho que o elemento mais atraente do Brasil é a abundância de energia renovável a custos altamente competitivos e com proximidade de mercado. O Nordeste brasileiro é o ponto mais próximo de toda a América Latina e Caribe, inclusive as ilhas do Caribe e da Europa. Não é à toa que os cabos todos que vão parar em Fortaleza dão uma certa centralidade ao estado e à região. Além do mais, é a região de mais facilidade de expansão da produção de energia sustentável solar, eólica e outras formas. Tudo isso também contribui para isso.
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A Europa não é forte em mineração e não quer mais ficar na mão, porque ela está vendo as dificuldades ficarem na mão da China ou dos Estados Unidos. Mas ela não tem o que proteger, por exemplo, como proteger a sua indústria do aço. É muito difícil sustentar econômica e ambientalmente a indústria do aço na Europa, por causa do custo da energia e da ausência de matéria-prima, e mesmo crescentemente da ausência de trabalhadores. Mas tem um custo social e político enorme, qualquer mudança nesse sentido.
Investir numa coisa que você precisa e permitir que as atividades de agregação de valores e geração de emprego sejam mais distribuídas, é muito mais fácil num setor em que você não vai desfalcar uma coisa que já existe. Como eles não têm nesse setor uma fortaleza quanto tem em outros setores industriais, onde vão ter que fazer ajustes, a meu juízo.
Alimentos, indústria farmacêutica e mais
Toda a área de alimentos tem uma possibilidade muito grande de negócios com a UE. São várias demandas que podem gerar casamentos inteligentes, como na questão farmacêutica, onde a Europa é o grande fornecedor do Brasil. Tem muitas áreas potenciais, a própria área de defesa, que vai requerer todo um repensamento estruturante, e o Brasil é o único país da América Latina com competência real, com competência real, tecnológica e industrial para ser um ator relevante nesse segmento.
O potencial é grande, mas o começo, na minha cabeça, é por esses caminhos. Mas sem esquecer que já existe um começo. Já existe aqui uma marca muito grande, é o maior investidor que tem no Brasil e que deixa também o lastro de produção industrial mais relevante, quer dizer que tem fazer uso disso, capitalizar, modernizar, integrar tudo isso é parte de um processo então tem muitas frentes que se pode trabalhar.

