Acusados de abrigar espiões em seu meio, mais de um milhão de imigrantes afegãos foram forçados a deixar o Irã desde o cessar-fogo que pôs fim à guerra contra Israel, apontam dados da Organização Internacional para Migrações (OIM) da ONU. A ofensiva tem como pano de fundo a escalada da paranoia no regime, depois que uma série de episódios de sabotagem veio a público. Desde então, especialistas afirmam que o governo tem se aproveitado do clima de desconfiança para buscar unidade em torno de um “inimigo comum”, ao mesmo tempo em que avança em seu plano de deportação em massa. Em março, pressionado por sanções econômicas e pela tensão no Oriente Médio, Teerã prometeu deportar até 2 milhões de afegãos, ignorando alertas sobre os riscos do retorno — especialmente para as mulheres.
- Drones, paranoia e óculos escuros: como a guerra com Israel turbinou a repressão no Irã
- A Guerra no Século XXI: Propaganda ganha nova roupagem com avanços da IA e restrições ao jornalismo
Lar de quase 3,8 milhões de refugiados e 1,1 milhão de imigrantes afegãos, em 2024 o Irã se tornou o país anfitrião do maior número de refugiados do mundo, resultado de diferentes fluxos migratórios. Mas, se no passado os aiatolás adotaram uma política inicial de abertura, nos últimos anos houve um endurecimento na retórica anti-imigração, que se tornou parte da propaganda do regime, segundo analistas ouvidos pelo GLOBO. Dados da OIM mostram que o discurso tem apresentado resultados: 50% dos afegãos deixaram o Irã por pressão das autoridades ou por temer pela própria segurança, enquanto 44% foram deportados, revelou um balanço entre 22 de junho e 5 de julho, auge da crise.
Além das expulsões, o número de afegãos detidos também aumentou, acusados de colaborar com a agência de inteligência israelense (Mossad). Desde o conflito com Israel, o governo tem promovido campanhas instando a população a denunciar esconderijos de afegãos sem documentos. Na mídia estatal, uma das reportagens com maior alcance exibiu um suposto espião afegão confessando ter recebido US$ 2 mil (R$ 11.100) para fornecer informações a Israel.
A xenofobia contra afegãos no Irã não é uma novidade, ressalta Sahar Fetrat, pesquisadora afegã na ONG Human Rights Watch (HRW). Segundo ela, que já morou no país, apesar dos laços históricos entre os vizinhos, afegãos são comumente tratados de forma discriminatória no Irã, mesmo entre estratos mais progressistas.
— Existe a crença infundada de que os afegãos estão tomando empregos por serem mão de obra barata. Essa política de desumanizar os afegãos tem sido um projeto contínuo do governo que, infelizmente, encontra grande ressonância entre a população — explica ao GLOBO. — Isso se intensificou recentemente, mas já acontece há muitos anos. Há essa imagem estereotipada de que são pessoas pobres, sem instrução ou criminosas. Mesmo iranianos contrários ao governo às vezes o apoiam quando se trata do tratamento dado aos afegãos.
Nas eleições presidenciais de 2024, que deram a vitória ao moderado Masoud Pezeshkian, candidatos responsabilizaram abertamente os afegãos pelos problemas econômicos. Nas redes sociais, slogans como “Expulsão dos afegãos: uma demanda nacional” viralizaram.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/5/E/LA72iQTMqF91gqBMqe6Q/mun-26-07-afegaos-refugiados-2.png)
Como em outros lugares do mundo, a questão migratória tem polarizado a sociedade iraniana, com críticos argumentando que o grupo representa uma parte significativa da força de trabalho em áreas-chave, como construção civil e agricultura. Em julho, 1.300 artistas, ativistas e jornalistas assinaram uma carta aberta exigindo “o fim do tratamento desumano” dado aos afegãos com base no que classificaram como uma “acusação infundada” de espionagem. O governo, no entanto, diz que a deportação é uma demanda popular, citando fatores econômicos e de segurança.
Atender a esse fluxo tem sido um desafio. Segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), que conta com trabalhadores humanitários nas fronteiras, os imigrantes chegam aos postos exauridos, enfrentando temperaturas de até 52°C que já vitimaram várias pessoas durante as travessias. A operação precisou ser reforçada, mas o Acnur afirma ter recursos para mantê-la por pouco tempo.
— Nossas equipes estão nas fronteiras prestando assistência a fluxos contínuos de pessoas exaustas, famintas e assustadas todos os dias. O Acnur mobilizou funcionários adicionais e está fornecendo itens de ajuda emergencial, refeições quentes e assistência financeira. Mas, diante das restrições de financiamento e do volume dos retornos, não conseguiremos manter esse apoio por mais do que algumas semanas — relatou ao GLOBO Babar Baloch, porta-voz da agência.
Desde a Revolução Islâmica de 1979, já houve ao menos seis grandes fluxos migratórios de afegãos para o Irã, por fatores que vão desde a proximidade geográfica até laços culturais, sobretudo entre comunidades falantes de dari e muçulmanos xiitas como os hazaras, explica Mitra Naseh, professora iraniana da Universidade de Washington em St. Louis, em artigo do Migration Policy Institute.
Segundo Naseh, no início do regime do aiatolás houve uma política de abertura aos afegãos em nome da “solidariedade religiosa” e interesses econômicos, o que lhes garantia acesso a documentos que asseguravam direitos similares aos dos iranianos. A partir de 1995, os controles fronteiriços foram endurecidos, e apenas afegãos que provassem risco real de perseguição podiam entrar no país — dessa vez, porém, com status de refugiado e menos direitos.
— Frequentemente, os afegãos não têm acesso à educação ou ao trabalho, mesmo aqueles com documentação regular — afirma Fetrat. — Eles não têm documentos de identidade, não podem sequer comprar um chip de celular, nem têm acesso pleno à saúde, educação ou ao mercado de trabalho, e apenas quatro tipos de empregos são permitidos.
Mas a situação é ainda pior no Afeganistão, onde 70% da população vivem em nível de subsistência, segundo a ONU. O cenário se soma a uma seca severa e a crescente deterioração dos direitos humanos. Estima-se que mais de um milhão de afegãos tenham fugido para o Irã desde o retorno do Talibã em 2021, após a saída desastrosa das tropas dos EUA.
O cenário mais crítico é para mulheres e meninas. Na avaliação de Fetrat, as afegãs que retornam desacompanhadas são as mais vulneráveis:
— No Afeganistão, as mulheres não têm autonomia, especialmente as deportadas sem um tutor masculino. Algumas viveram no Irã por anos e não têm documentos afegãos, e obtê-los sem um homem é extremamente difícil. Algo simples, como alugar um apartamento, lhes é negado. Quanto ao trabalho, são proibidas de exercer muitas profissões, exceto em áreas de saúde ou ajuda humanitária.