Aquela era uma manhã comum na vida de Kunihiko Bonkohara. Aos 5 anos de idade, ele não teve opção a não ser acordar cedo e acompanhar o pai ao trabalho. Os dois estavam em um escritório não muito longe de casa, quando um barulho muito forte tomou conta da cidade inteira. Era 6 de agosto de 1945. Hiroshima acabava de ser alvo do primeiro bombardeio atômico da História.
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— Eu estava levantado [em pé]. Meu pai também, ao meu lado. Na frente, tinha uma mesa enorme. De repente, meu pai me puxou, me colocou embaixo da mesa e se agachou em cima de mim. Na hora: BUM. Algo explodiu “muito grande”, também [senti um] vento forte — relembrou Bonkohara em depoimento ao GLOBO, aos 85 anos, parte deles dedicados a promover o pacifismo e o fim dos arsenais atômicos.
Bonkohara nasceu em 17 de junho de 1940, quase um ano e meio antes de o Japão atacar a base americana de Pearl Harbour e entrar na Segunda Guerra Mundial. Da província de Shizuoka, cravada aos pés do Monte Fuji, ele diz se lembrar do mar, e da mãe e dos irmãos catando mariscos na maré. Aquele menino não fazia ideia de que, do outro lado do Oceano Pacífico, algumas das mentes mais brilhantes do mundo, como J. Robert Oppenheimer e Niels Bohr, trabalhavam em uma maneira de dar uso militar à recém-descoberta fissão nuclear, no que viria a ficar conhecido como Projeto Manhattan.
O recrudescimento da guerra, principalmente a campanha de bombardeios incendiários americanos contra cidades japonesas a partir de 1944, fez com que sua família tomasse uma decisão que mudaria suas vidas. Em março de 1945, eles se estabeleceram em Hiroshima, que até então tinha escapado dos ataques aéreos.
As memórias antes daquela manhã de agosto são poucas. O hibakusha — termo em japonês para “pessoa afetada pela explosão” — diz se lembrar de um dia em que as pessoas da cidade saíram de casa para ver a queda de um avião americano. Fora isso, apenas pequenos retalhos do cotidiano. O que nunca se apagou foram as lembranças do pós-ataque.
— Quando a poeira acalmou, [meu pai] levantou e me puxou. Eu olhei para ele, as costas sangrando. Eu também. Braços e pernas [com] vidro cravado, sangrando — disse Bonkohara, acrescentando que todos correram para um dique que havia atrás do escritório, para ver o que tinha acontecido. — Hiroshima… todo lugar, fumaça. Fumaça e fogo.
O primeiro vislumbre da cidade não foi a imagem mais forte daquele dia. Do caminho de volta para casa, Bonkohara lembra de casas em chamas e de pessoas gravemente feridas gritando pela rua. Muitas tinham os braços encolhidos, enrijecidos por causa das sérias queimaduras na pele.
A casa da família, a cerca de 2 km do local de impacto da bomba “Little Boy”, ficou apenas com as paredes em pé. De cima de um tatame na residência sem telhado, o menino viu cair do céu escuro uma chuva preta, tingida pelas partículas liberadas na explosão. Fontes americanas afirmam que o bombardeio direto matou cerca de 70 mil pessoas, enquanto um número igual morreu por efeitos da radiação — também espalhada pela sopa radioativa que manchou a camisa branca de Bonkohara.
— Aquela noite, mãe e irmã não voltaram. Eu dormi em cima do tatame. De manhã, quando acordei, olhei para o centro e me assustei. Antigamente tinha muita casa, mas já não tinha [nada] — disse.
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Foi na manhã seguinte que o pai de Bonkohara saiu em busca da mulher e da filha. Colocou o menino em cima de uma bicicleta e saíram em direção ao local do trabalho dela — que ainda não sabiam, mas ficava a só 500 metros do epicentro do bombardeio. As cenas ainda habitam sua memória.
— [Enquanto estávamos] andando na rua, tudo bem. Entrou a avenida, [ficou] difícil. Eu logo me assustei, porque [vi] um cavalo morto. As quatro pernas para cima, barriga muito grande, queimado — lembrou. — [Quando chegamos à] Ponte Aioi, olhei para baixo. No rio, a onda levou muito corpo boiando. A maré subia, os corpos subiam. A maré descia, os corpos desciam.
Bonkohara também recorda dos corpos carbonizados dentro dos bondes, ainda de pé, como se a bomba os tivesse petrificado. A busca pela mãe e irmã não teve sucesso: tudo que acharam estava carbonizado.
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A decisão de bombardear Hiroshima e Nagasaki teve uma dupla dimensão, segundo o historiador André Lopes Loula, integrante da Associação Hibakusha Brasil pela Paz. Além de quebrar a resistência japonesa e forçar uma rendição, era uma forma de provar que a arma desenvolvida em meio à corrida armamentista com a Alemanha nazista era funcional e, ao mesmo tempo, passar uma mensagem geopolítica sobre a divisão de poder no pós-guerra.
— Na realidade foi um teste para colocar à prova toda aquela questão que tinha se pensado no Projeto Manhattan, e além disso intimidar os soviéticos com o agora poder bélico nuclear. O mundo passava a ter um outro desenho.
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Para quem estava enfrentando o efeito direto da hecatombe, restava tentar sobreviver. O pai de Bonkohara não permitiu que ele voltasse ao centro da cidade após o vislumbre da destruição. Os irmãos foram mandados para o interior, para ficar com parentes na província de Shimane, enquanto o pai tentava reconstruir a vida, da casa ao emprego. De Hiroshima, o que não deixou o hibakusha foi o cheiro da queima dos corpos, que impregnou todo o ar.
A família só voltou a viver junta dois anos após o fim da guerra, e o menino passou a conviver com uma saúde frágil. Bonkohara relata ter sofrido muitas dores, e que saía pus de seu corpo inteiro. Ele chegou a pegar tuberculose e sofreu por décadas com tonturas. Chegando aos 20 anos, estava convencido de que só viveria até os 30.
— Eu queria conhecer outros países, e a única chance era emigrar. Aí escolhi o Brasil.
Muitos dos hibakushas não chegaram aos 30 anos, e tiveram formas de câncer e problemas de saúde associados à radiação. Por muitos anos, mesmo os sobreviventes que não desenvolveram nenhuma doença sofreram com estigma, pelo temor e a falta de informação a respeito do real impacto da radiação.
— Os hibakushas sofreram muito preconceito. Eles não falavam que eram vítimas da bomba atômica, por exemplo aqueles que tinham filhos que iam casar — disse Loula.
Com o passar dos anos, muitos sobreviventes começaram a se reunir em torno de associações no Japão e nas colônias japonesas ao redor do mundo. Segundo o historiador, vários mantiveram papéis discretos, lutando por direitos como acesso a auxílios e atendimento médico. Outros, como Bonkohara, tomaram para si a missão de usar suas próprias histórias como um lembrete do que as armas atômicas são capazes de provocar.
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Bonkohara desembarcou no Porto de Santos em 1961. Morou em Umuarama (PR), onde trabalhou no cultivo de algodão e café. Depois, se mudou para São Paulo e trabalhou como locutor de uma rádio japonesa, topógrafo e empresário. Ele se casou, mas optou por não ter filhos.
Em 2024, um exame de sangue veio com uma alteração. Os médicos investigaram o caso e descobriram um câncer de próstata. Os resultados foram enviados ao governo japonês, que reconheceu o caso como vinculado à radiação de Hiroshima.
— Eles registraram como um caso de vítima da bomba atômica. 80 anos depois da radiação, as vítimas da bomba atômica continuam sofrendo.
Os médicos não indicaram cirurgia, por causa da idade. Após o tratamento com quimioterapia, a doença retrocedeu. Ele continua a fazer um acompanhamento periódico.
Colaborou Carolina Zanatta