O governo de Israel anunciou nesta quinta-feira que autorizou a criação de 22 novos assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada, na maior expansão territorial do Estado judeu em direção ao território palestino em décadas. Autoridades israelenses justificaram que a medida fortalece o “eixo oriental” de defesa do país — embora a expansão quase certamente repercuta em um aumento ainda maior da tensão com grupos palestinos e com a comunidade internacional, insatisfeita com a guerra na Faixa de Gaza.
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— A decisão de estabelecer 22 novos assentamentos na Cisjordânia fortalece nossa presença na área e reafirma nosso compromisso em garantir a segurança dos centros populacionais de Israel — disse o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. — É um passo em direção ao fortalecimento do nosso eixo oriental e à abordagem dos atuais desafios de segurança.
Cerca de 500 mil israelenses vivem em assentamentos na Cisjordânia — que autoridades de Israel se referem como Judeia e Samaria, nome bíblico da região. A ocupação do território começou em 1967, no contexto da Guerra dos Seis Dias, e desde então é um dos pontos mais controversos na relação entre judeus e palestinos — com a legislação internacional proibindo esse tipo de estabelecimento, algo que Israel contesta.
Parte dos 22 assentamentos anunciados já foram construídos, porém somente com a determinação do governo passam a ser considerados legais aos olhos das autoridades israelenses. Dois deles são particularmente simbólicos: Homesh e Sa-Nur, localizados no norte da Cisjordânia. Ambos foram esvaziados em 2005 como parte do plano israelense de retirada da Faixa de Gaza promovido então pelo primeiro-ministro Ariel Sharon.
— Tomamos uma decisão histórica para o desenvolvimento dos assentamentos: 22 novas localidades na Judeia-Samaria — afirmou o ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, um dos integrantes mais radicais do governo.
Os novos assentamentos estão distribuídos do norte ao sul da Cisjordânia, cruzando a região central, o que divide ainda mais o território.
O anúncio provocou reações críticas em Israel e nos territórios palestinos. A Autoridade Nacional Palestina (ANP) classificou o anúncio como uma “escalada perigosa”. A ONG israelense Paz Agora, contrária à colonização, afirmou que a medida expansionista — a maior do tipo desde os Acordos de Oslo, com os quais Israel se comprometeu a não estabelecer novos assentamentos — modificará drasticamente a Cisjordânia e fortalecerá ainda mais a ocupação.
“O governo israelense não finge mais o contrário: a anexação dos territórios ocupados e a expansão dos assentamentos são seu objetivo central. A decisão do gabinete de estabelecer 22 novos assentamentos — a medida mais abrangente desse tipo desde os Acordos de Oslo, sob os quais Israel se comprometeu a não estabelecer novos assentamentos — remodelará radicalmente a Cisjordânia e consolidará ainda mais a ocupação”, manifestou-se a organização em um comunicado. “Em um momento em que tanto a opinião pública israelense quanto o mundo inteiro exigem o fim imediato da guerra, o governo deixa claro — novamente e sem restrições — que prefere aprofundar a ocupação e promover a anexação de fato à busca pela paz”.
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A ONU denuncia com frequência a colonização israelense como ilegal sob o direito internacional e como um dos principais obstáculos para uma paz duradoura entre israelenses e palestinos, já que impede a criação de um Estado palestino viável.
Em uma publicação no X, Smotrich rejeitou que a permissão aos assentamentos se tratasse de uma colonização por parte de Israel. “Não tomamos terra estrangeira, e sim a herança de nossos antepassados. A próxima etapa: a soberania”.
O grupo terrorista Hamas, que governa Gaza, condenou o anúncio israelense, afirmando que se tratava de “um flagrante desafio à vontade internacional”. Em um comunicado, o grupo também afirmou que o anúncio representava “uma grave violação do direito internacional e das resoluções das Nações Unidas”.
A Jordânia, aliás, também criticou o anúncio israelense, afirmando que minava as perspectivas de paz ao consolidar a ocupação do território palestino. “Ações unilaterais desse tipo corroem ainda mais a viabilidade de uma solução de dois Estados, ao impedir o estabelecimento de um Estado palestino soberano”.
O anúncio do governo israelense acontece um dia após o enviado especial americano para o Oriente Médio, Steve Witkoff, declarar que tinha “uma impressão muito boa” sobre a possibilidade de uma trégua na Faixa de Gaza — apesar de não haver nenhum sinal de trégua no campo de batalha. A Defesa Civil de Gaza informou nesta quinta-feira que ataques israelenses mataram 44 pessoas desde a madrugada, sendo 23 em uma residência ao leste do campo de refugiados de al-Bureij, na região central do enclave.
Em meio aos conflitos, a crise humanitária se agrava. O Programa Mundial de Alimentos da ONU informou que “hordas de pessoas famintas” invadiram um armazém de alimentos localizado em Deir al-Balah, na região central do enclave. A organização anunciou nesta quinta-feira que investiga duas mortes durante o tumulto.
“Hordas de pessoas famintas invadiram o armazém Al-Ghafari do PMA em Deir al-Balah, no centro de Gaza, em busca de suprimentos de alimentos que estavam pré-posicionados para distribuição”, afirmou o PMA em um comunicado, em que exige acesso seguro e sem obstáculos à ajuda. “O PMA não para de alertar sobre a deterioração da situação (…) e os riscos da limitação da ajuda humanitária a pessoas já famintas com uma necessidade desesperada de assistência.
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Imagens da AFP mostram que a multidão não deixou nada no armazém da agência da ONU, de onde retiraram sacos de comida, paletes de madeira e tábuas enquanto, ao fundo, eram ouvidos tiros.
A escalada militar e a crise humanitária em Gaza recebe cada vez mais críticas no exterior, inclusive entre os aliados mais próximos do país. A Alemanha rompeu com uma tradição histórica e criticou de forma pública as ações israelenses.
A França presidirá com a Arábia Saudita, no mês que vem, uma conferência da ONU que pretende estimular a solução de “dois Estados”: Israel e uma Palestina independente e plenamente soberana, vivendo um ao lado do outro em paz. (Com AFP)
