Os meses de agosto e setembro trazem uma preocupação a mais para o Corpo de Bombeiros e para os órgãos ambientais. Isso porque é o período mais crítico para incêndios florestais e em áreas de vegetação, por historicamente apresentar o tempo mais seco. Ou seja, entre todo o período de estiagem, que dura de maio a outubro, este momento é o mais propício para a combustão e propagação do fogo. Além de a cidade do Rio ter o maior índice de ocorrências deste tipo no estado, a Zona Oeste da cidade representa a região onde mais há queimadas. Segundo os bombeiros, Jacarepaguá, em cujo território está parte do Parque Estadual da Pedra Branca e do Parque Nacional da Tijuca, é onde esta média mais se eleva, ao lado de Campo Grande. Este ano, já chama a atenção também o Recreio, que teve números próximos ao desses bairros.
— A preocupação principal é que esta região tem grandes extensões de vegetação. Os incêndios alcançam dimensões maiores. Também há muito vento, que é o pior inimigo dos bombeiros. Nestas áreas, muitas vezes, não há pessoas morando perto do local do fogo, o que faz com que demore para os bombeiros serem acionados. E, quando isso acontece, ao chegar é comum já termos um incêndio bem propagado — explica o major Fábio Contreiras, porta-voz do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro.
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Os bairros da Área de Planejamento 4 (na qual estão Barra, Recreio, Jacarepaguá e Vargens) representaram 25% de todos os acionamentos para incêndios na cidade entre janeiro e julho deste ano. O major destaca ainda que, especialmente nesta época do ano, 99% dos de incêndios são causados por ação humana, intencional ou não. A chamada combustão espontânea, causada por raios ou um pedaço de vidro descartado, é muito rara.
— Uma causa comum é a guimba de cigarro, que provoca incêndio em vegetação de beira de estrada quando jogada pela janela do carro. Acontece bastante na Avenida das Américas — destaca Contreiras. — Temos também os balões, que são mais comuns na época das festas juninas, mas provocam ocorrências o ano todo; fogos de artifício lançados sem direção, fogueiras feitas por trilheiros nos parques. É frequente também a queima de lixo. Além disso, temos a produção de queimadas forçadas, muitas vezes para limpar o terreno ou com o interesse de fazer uma construção.
No Recreio, as causas são mesmo múltiplas, atesta Simone Kopezynski, presidente da Associação dos Moradores do Recreio dos Bandeirantes (Amor).
— É comum soltarem balões até agosto no Recreio. Na semana passada, um balão quase caiu num prédio aqui. Também tivemos recentemente influenciadores que lançaram fogos para comemorar um sorteio, o que fez pegar fogo na vegetação. Temos aqui ainda o capim-colonião, que se incendeia muito facilmente, principalmente no inverno — enumera. — E acontecem situações de invasão, principalmente em áreas de preservação ambiental, como o mosaico das Vargens. Mas isso a gente não tem como provar.
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Os casos das queimadas criminosas são difíceis de investigar e comprovar. Além de o fogo apagar indícios importantes, raramente há testemunhas para revelar quem provocou o incêndio no local. Até agora, em 2025, foram deflagradas apenas duas investigações neste sentido pela Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA) na cidade. Em uma delas, policiais civis indiciaram três pessoas por um incêndio na Prainha, ocorrido em março. A outra está em curso, e é referente a um incêndio do último dia 29, de grande proporção, entre Vargem Grande e Recreio, quando a chamada linha de fogo chegou a ter 1,5 km de extensão, e as chamas chegaram muito próximas de condomínios da região.
Em todos os casos, a Secretaria municipal de Meio Ambiente diz que a prevenção é a principal ferramenta. As ações incluem fiscalização e a repressão a baloeiros, especuladores e pecuaristas que usam o fogo de forma criminosa, além de apoio ao trabalho do Corpo de Bombeiros.
Já o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), ligado à Secretaria estadual do Ambiente (Seas), também aposta em medidas preventivas como as do Programa Fumaça Zero, que incluem cursos de prevenção e de defesa florestal e notificações preventivas de Incêndios em áreas de maior risco.
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O MapBiomas, rede formada por entidades civis, universidades e empresas de tecnologia que monitoram áreas de desmatamento no Brasil, observa que as queimadas para dar espaço as construções irregulares são uma realidade em todo o país, especialmente nas regiões para onde as cidades crescem, como é o caso da Zona Oeste do Rio.
— Em regiões muito populosas, a expansão da cidade acaba invadindo áreas de vegetação nativas e as ocupações irregulares vão colaborando para a propagação do fogo. Na Mata Atlântica, onde o uso da terra está mais consolidado, grande parte do problema está na expansão dessas áreas — avalia Ane Alencar, coordenadora do MapBiomas Fogo. — Às vezes, ela acontece em lugares onde não há saneamento e coleta de lixo. Acabam queimando os resíduos, e o fogo se alastra.
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A queima de lixo, que naturalmente produz gases inflamáveis, como o sulfeto de hidrogênio e o metano, é apontada por moradores de Vargem Pequena como um problema especial desta região.
— Aqui você entra nas comunidades e vê ajuntamento de lixo; se jogar uma pontinha de cigarro, já gera fogo. A gente denuncia, mas é um vício, um costume do próprio local, por ser uma zona de mata. Outro dia tive que intervir, porque estavam aterrando uma área por cima do lixo. Além disso, também vai dando rato e urubu — aponta Jorge Cerqueira, presidente da Associação de Moradores e Comerciantes de Vargem Pequena (Amcom).
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Embora os ciclos naturais das estações do ano indiquem períodos de maior e menor umidade relativa do ar, as mudanças climáticas e outros fatores ambientais deixam todos esses elementos cada vez mais instáveis. O ano de 2024, por exemplo, foi de muitas queimadas, registrando a segunda maior extensão de fogo nos últimos 40 anos do país, por conta de uma seca extrema na América do Sul. Já 2025 registrou um início de ano bem atípico e seco. Na cidade do Rio, entre janeiro e março, os bombeiros receberam 2.500 acionamentos para incêndios, contra 560 no mesmo período do ano passado. Nos meses seguintes, as chuvas chegaram com maior frequência e estabilizaram o cenário. O cenário do verão, no entanto, faz com que os números de incêndio deste ano já estejam altos na cidade, com 327 hectares queimados até agora. Até julho, o total de chamados foi de 3.484.
— O verão foi mais seco do que o normal. Agora, em grande parte do país, já era para a chuva ter parado e ainda não parou. Mas ainda vamos saber se a quantidade de chuva foi suficiente para suprir o legado da seca do ano passado — explica Alencar, do MapBiomas.
No período de estiagem, a Smac e o Inea elegem ainda regiões para a criação de aceiros, técnica em que parte da vegetação é suprimida, criando uma barreira física que impede que o fogo se alastre. No Rio de Janeiro, o Corpo de Bombeiros realiza a operação Extinctus entre maio e início de outubro. A corporação recebe reforço de 250 agentes no estado para atuação em incêndios, além de fazer simulados em áreas de mata, onde operações de combate ao fogo podem durar dias. Há ainda campanhas de conscientização da população.
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Em áreas de morro, como partes de Jacarepaguá e arredores, o acesso dos bombeiros é dificultado.
— Muitos incêndios acontecem em áreas de montanha, que não conseguimos acessar com bombeiros de quartel. Então chamamos bombeiros montanhistas, especialistas em escalada, e acionamos helicópteros— explica o major Contreiras.
O Parque Nacional da Tijuca tem brigada de incêndios. Já o Parque Estadual da Pedra Branca — onde foram registrados 32 incêndios este ano até o momento — conta com guarda-parques que podem atuar no combate ao fogo e na prevenção de queimadas.
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Há outros pontos onde uma brigada vem se mostrando necessária, segundo moradores. Em março, a Associação dos Moradores e Amigos da Freguesia (Amaf) protocolou no Quartel-General dos Bombeiros um pedido de atenção e celeridade no atendimento às regiões do Morro do Quitite e da APA Serra dos Pretos Forros.
— A solução seria uma brigada contra incêndios florestais, como as previstas nos planos de manejo das as unidades de conservação — acredita Sidney Teixeira Jr., diretor da Amaf.
O pedido dos moradores pode ganhar força com a proposta de criação de um corredor azul, que ligaria quatro novas unidades de conservação, feita pela Smac. Uma delas incluiria a Floresta do Quitite. Uma consulta pública foi realizada ontem, no Parque de Marapendi, e o projeto pode sair do papel até o fim deste ano.
O ranking de incêndios em vegetação na região*
- Jacarepaguá – 186 incêndios
- Recreio – 154
- Taquara – 100
- Freguesia – 87
- Itanhangá – 78
- Barra da Tijuca – 76
- Vargem Grande – 58
- Curicica – 52
- Anil – 44
- Pechincha – 20
- Vargem Pequena – 15
- Joá – 7
- Gardênia Azul – 3
- Cidade de Deus – 3
*Total de acionamentos para incêndio na cidade de 1º de janeiro a 31 de julho de 2025: 3.484