A lógica que rege a economia circular é simples: um sistema fechado que busca reinserir insumos e componentes de volta à cadeia produtiva para eliminar o desperdício por meio do reaproveitamento contínuo. O conceito desafia o modelo tradicional e precisa de impulso para ganhar escala. O último relatório anual da Circle Economy apontou que a taxa global de reaproveitamento de recursos caiu nos últimos anos, somando apenas 6,9%.
Entretanto, a indústria, um ator-chave nessa transição, está se movimentando. Segundo pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 62% das organizações brasileiras já adotam pelo menos uma prática de economia circular.
À frente dessa pauta, a JBS, uma das maiores empresas de alimentos do mundo, vem trabalhando a agenda há duas décadas, seguindo os princípios de reduzir, reutilizar e reciclar em suas operações. A empresa aproveita quase totalmente os resíduos para criar produtos de valor. Atualmente, a companhia calcula que 99% do material de cada bovino é aproveitado. Em aves e suínos, o percentual fica entre 95% e 96%.
Colocando em prática a sustentabilidade como estratégia, a JBS também encontrou uma oportunidade de negócio com impacto positivo. “Há 16 anos foi criada a área de Novos Negócios, unindo empresas que geram valor pela transformação”, conta a diretora Thuany Taves. São 13 unidades e quase 6 mil colaboradores envolvidos em operações que convertem coprodutos e insumos não aproveitados do processamento das carnes em itens de alto valor agregado para o comércio nacional e internacional, como biodiesel, colágeno, rações, ativos fármacos e outros. “Nós trabalhamos para transformar subprodutos em superprodutos”, diz.
Apesar de utilizar as matérias-primas provenientes do grupo, cada empresa é independente e sustentável financeiramente. A diretora explica que não há nenhum tipo de subsídio, e a negociação dos insumos é praticada conforme o valor de mercado.
Mais do que fabricar proteínas que abastecem milhões de brasileiros e são exportadas para 150 países, a JBS abriu outras frentes de operação para dar o destino correto aos resíduos.
Os orgânicos vão para a Biopower, primeira empresa certificada pelo RenovaBio e maior produtora brasileira de biodiesel a partir de insumos do processamento de bovinos e óleo de cozinha usado. Por ano, são gerados aproximadamente 550 milhões de litros de combustível limpo, impedindo cerca de 910 mil toneladas métricas de emissões de gases de efeito estufa. Além do material adquirido da JBS, a Biopower conta com o programa Óleo Amigo, que já coletou 25 milhões de litros em 40 cidades de São Paulo, evitando a poluição de 650 bilhões de litros de água.
Para o segmento de saúde e nutrição, a Genu-in, um dos negócios mais recentes da marca, produz, com tecnologia de ponta, 12 mil toneladas de peptídeo de colágeno e gelatina pura por ano. A empresa utiliza a raspa do couro dos bovinos proveniente da cadeia da JBS.
Já a Novapron+ desenvolve soluções proteicas de alta funcionalidade a partir de colágeno bovino, que melhora a textura, a suculência, o rendimento e a estabilidade de alimentos processados. Além disso, o negócio oferece opções inovadoras em ingredientes para diversos setores da indústria alimentícia.
Outra frente direcionada à saúde é a Orygina, que fabrica insumos para a indústria farmacêutica, centros de pesquisa e outros setores tecnocientíficos. “A partir do soro da carne, são desenvolvidos princípios ativos importantes, como medicamentos para doenças autoimunes”, exemplifica Thuany.
Voltada para o agro, a Campo Forte é referência na produção de fertilizantes sustentáveis a partir de resíduos orgânicos. “A linha de produtos tem alta eficiência no campo e baixa pegada de carbono”, ressalta a diretora. Na mesma lógica da economia circular, as embalagens descartadas são transformadas em pisos verdes para o setor de construção civil.
A Ambiental é especializada em oferecer soluções e serviços sustentáveis para lidar com resíduos gerados pelas indústrias ou consumidores. Nos últimos dez anos, a marca reciclou 46 mil toneladas de plástico, que foram compradas, processadas e inseridas novamente na companhia na forma de outras matérias-primas ou mesmo produtos acabados. Além dessas atuações, há também uma área focada em desenvolvimento de soluções inovadoras para resíduos de difícil reciclagem.
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Soluções para verticalizar e apoiar
“Além das 13 unidades dessa área que têm em suas veias o ciclo fechado e a economia circular como estratégia e como modelo de negócio, a JBS ainda conta com a parceria de empresas de serviços estratégicos em outros segmentos”, aponta a diretora.
A TRS, por exemplo, que faz desde o serviço de transporte de gado até o de contêiner para exportação, conta com a No Carbon, uma locadora de veículos 100% elétricos. Outro braço de apoio do grupo é a trading que faz a negociação das matérias-primas para as empresas de Novos Negócios, garantindo volume e competitividade.
“Olhando para o todo, a sustentabilidade, que sempre esteve no centro de nossa estratégia, foi evoluindo naturalmente na JBS a ponto de o tema economia circular se tornar um modelo de negócio que gera valor pela transformação”, conclui Thuany.
Nós trabalhamos para transformar subprodutos em superprodutos
— Thuany Taves, diretora de Novos Negócios da JBS