Mais do que um empreendimento qualquer — uma empresa de comunicação, para ser exato —, O GLOBO mal nasceu e já foi se utilizando de todos os meios disponíveis para avisar não só que estava chegando, mas que se dispunha a fazer parte do cotidiano de seus leitores e da movimentação da cidade que eles habitavam. E, no Rio de Janeiro de 1925, o que poderia haver de mais imediato do que um jornal para se anunciar as novidades? Sim, a canção popular. Numa época em que a tecnologia, na forma de rádio e disco, começava a acelerar sua expansão, ela reinava nos salões e festejos populares, espalhando danças, linguajares, ideias, desejos… e — por que não? — a notícia de um certo lançamento.
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“O GLOBO vai surgir e sempre refulgir / como um jornal sutil a vir em honra do Brasil / tem voz para ser nosso defensor / por nós, proclamará o seu valor / e será vencedor por seu fulgor, por sua seleção.” Os versos, com algumas palavras que caíram em desuso (e passagens que soariam exageradas em 2025, como “um missal de perfeição, a difundir a luz que orientação produz, como um vulcão em erupção”) abrem o jingle composto por Amaral Campos e De Castro e Souza para a primeira campanha publicitária do vespertino de Irineu Marinho. Um século depois, esse foxtrote foi enfim gravado, a partir de sua partitura original (atualmente sob a guarda do Acervo Roberto Marinho), numa produção do Acervo em parceria com o produtor musical Luís Filipe de Lima.
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A ideia da adaptação e gravação do jingle surgiu no ano passado durante o planejamento da agenda comemorativa pelo centenário. O material integra a mostra especial sobre o jornal, que está no portal História do Grupo Globo e na exposição “O Globo 100 anos: um século de histórias”, em cartaz na Casa Roberto Marinho até o próximo dia 10. Dos músicos e produtores mais respeitados do samba, Luís Filipe conta que seu trabalho com o foxtrote do jornal foi “meio como um jogo de xadrez”, já que não havia gravações da composição e tampouco se encontrou registros dos arranjos para orquestras ou bandas: tudo o que havia era o exemplar de uma partitura para piano.
— Nela, como a melodia não estava transcrita sílaba por sílaba, foi quase um trabalho de arqueologia para chegar a uma forma que encaixasse na letra — explica ele, informando que naquele tempo as partituras de piano circulavam nas lojas de música, onde um pianista ficava tocando as novidades. — E aí o chefe da família, que estava passando pelo Centro da cidade, ouvia e, se gostava da música, comprava a partitura e levava para alguém em casa tocar. Geralmente, uma mulher, já que tocar piano era uma função feminina.
Segundo registros, o foxtrote do GLOBO obteve sucesso nas execuções da orquestra da Rádio Sociedade, da fanfarra da Brigada Policial e de outras bandas pela cidade. Na inauguração, o jornal anunciava que “um exemplar do novo foxtrote (para piano) será entregue gratuitamente a cada pessoa que se apresentar nos escritórios do GLOBO, a começar de amanhã”.
Para a gravação do centenário, Luís Filipe teve a ideia de fazer “um foxtrote com um tanto de sotaque carioca”. E convocou, para cantá-lo, alguém que tinha intimidade com o gênero norte-americano e a sua história em terras brasileiras: Marcos Sacramento.
— A letra é muito curiosa, datada, mas o fox, em si, é delicioso, e ganhou um frescor com o arranjo do Luís Filipe — diz Marcos. — Encarei como uma peça de divulgação, um jingle do lançamento do GLOBO, bem condizente com o que estava acontecendo. Foi uma oportunidade do tipo “vamos pegar um gênero que está na moda e fazer um jingle para esse jornal que está nascendo”. Tanto o Orlando Silva quanto cantores da época gravaram inúmeros foxes, era uma febre no Brasil.
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Nos agitados anos 1920 do Rio de Janeiro, muitas eram as novidades culturais que chegavam de fora do país. E, na música, iam logo sendo assimiladas, por nomes como Ary Barroso, Pixinguinha e Custódio Mesquita (que, segundo Sacramento, “usou e abusou do foxtrote, em músicas como ‘Nada além’, um dos foxtrotes mais conhecidos”). Para o cantor, hoje em dia o jingle de um jornal seria “talvez um trap, um rap ou algo parecido”.
— Ou até mesmo um samba, um pagode, porque a gente está vivendo aí um momento muito interessante, de ressurgimento das rodas de samba com grande estardalhaço — diz ele, titular do Samba do Sacramento, popular roda no Rio.
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E a música da cidade continuaria a inspirar o GLOBO em suas campanhas publicitárias, sempre que houvesse uma novidade, uma inovação. Dez anos após a fundação do jornal, quando o samba havia se firmado no carnaval, no rádio e no disco, Noel Rosa e Vadico compuseram “Conversa de botequim”, que se tornaria famoso pelos versos “telefone ao menos uma vez para 34-4333”. Passaram-se algumas décadas, e, nos anos 1970, ele ressurgiria, ressignificado, no jingle do Classifone, serviço pelo qual o cliente poderia requisitar por telefone a publicação de anúncios classificados no jornal.
“Pode ligar que dá samba”, dizia a peça publicitária, acompanhada do número a ser chamado: 234-4333. Depois de tanto tempo, a extensão da cobertura telefônica da cidade aumentara, obrigando a inclusão de um dígito a mais nos números. O que não chegou, no entanto, a afetar tanto assim a métrica da nova versão do samba, por intermédio da qual ele voltou a ser cantado pelo grande público na esteira do sucesso do jingle do Classifone.
O curioso é que, quando Noel e Vadico fizeram o “Conversa de botequim”, o número de telefone 34-4333 não existia na cidade do Rio de Janeiro — ele só entrou na lista da antiga Telerj em 3 de setembro de 1955, num endereço em São Cristóvão. E só foi transferido para O GLOBO em 5 de setembro de 1972.
O chefe da polícia, a jogatina na Carioca e uma reportagem
Antes mesmo do foxtrote de O GLOBO (antes mesmo do GLOBO, na verdade), Irineu Marinho já fazia parte da história da música popular brasileira. Tudo começa em 1913, quando a equipe do seu jornal, A Noite, instalou uma roleta perto da redação, no Largo da Carioca. A ideia não era, claro, diversificar as atividades do jornal para o ramo da jogatina, mas criar as condições para a realização de uma reportagem que denunciava a negligência da polícia contra o jogo ilegal.
“Era chefe da polícia o dr. Aureliano Leal, e se jogava livremente em toda a cidade. Os repórteres Orestes Barbosa, Eustáquio Alves e Costa Soares ficaram encarregados da campanha. Um dia, em plena tarde, eles fingiram ser jogadores e banqueiros, diante de umas roletas de papelão que Irineu Marinho colocara perto da redação, no Largo da Carioca. Batida uma fotografia, o jornal fez escândalo: jogava-se em plena rua, sem que a polícia tomasse providências. O episódio foi muito comentado. Isto dá samba, pensei eu”, recordou-se, em depoimento ao escritor Muniz Sodré, ninguém menos que Ernesto dos Santos, o Donga — cantor e (até prova em contrário) um dos compositores daquele que é considerado o primeiro samba gravado, “Pelo telefone” (1917).
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A ligação de Irineu Marinho com o sambista, no entanto, foi bem mais estreita do que a da mera inspiração para música em forma de notícia de jornal. O jornalista foi um dos grandes incentivadores do conjunto Oito Batutas, liderado por Donga e Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Filho). A partir de 1921, A Noite se empenhou em uma cobertura quase diária da agenda do grupo, defendendo-o inclusive dos ataques motivados pelo preconceito racial que os negros sofriam sem trégua.