Ao hospedar traficantes do Comando Vermelho (CV) de outros estados na Rocinha, o chefe do tráfico da favela carioca, John Wallace da Silva Viana, conhecido como Johnny Bravo, vislumbrou mais uma chance de lucro. No entanto, a oportunidade de ganhar um extra para esconder os parceiros do tráfico vem lhe causando prejuízo em outro negócio: o comércio de drogas. A informação é do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público (MP) do Ceará.
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No último sábado (31/05), uma megaoperação conjunta envolvendo os MPs do Ceará e do Rio, além das secretarias de Segurança Pública e da Polícia Militar do Rio, mirou a cúpula do CV cearense, que operava à distância a partir da capital fluminense. Após troca de tiros, o Batalhão de Operações Especiais (Bope) chegou à base de comando dos traficantes do estado nordestino, na Dioneia — um dos pontos mais altos da Rocinha —, mas não havia ninguém.
Dezenas de bandidos do CV do Ceará e do Rio com fuzil fogem pela mata em operação do Bope
Imagens de drones comprados recentemente pelo governo do estado transmitiram, em tempo real, criminosos fugindo pela mata. O vídeo com a cena impressionante foi exibido com exclusividade pelo blog Segredos do Crime, do GLOBO. Numa sala no Quartel-General da Polícia Militar, o QG, no Centro, diante do telão, o governador Cláudio Castro, acompanhado de sua cúpula de segurança e de promotores, assistiu a dezenas de bandidos vestidos de preto e fortemente armados. Nas costas, cada um levava uma mochila com um kit de sobrevivência: suprimentos e fuzil.
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Ao ser perguntado, durante um evento público, se houve um possível vazamento da operação, Castro disse que, se houve, partiu da polícia cearense. A pergunta ocorreu justamente porque, pelas imagens, é possível constatar que os traficantes caminham devagar por uma trilha em direção à floresta.
— Questão de vazamento ou não, essa foi uma operação do Ceará. Se houve, com certeza foi do pessoal da polícia de lá. Daqui, a gente tem a tranquilidade de ter os nossos dados muito compartimentados. É óbvio que, como é uma investigação de lá, tudo foi compartilhado com o Ceará. Acho que tem que haver uma investigação, sim, de quem cedeu essas imagens. Porque quem cede para o jornalista pode ter cedido para pessoas que não deveriam ter acesso àquelas imagens — disse Castro.
A declaração de Castro causou um mal-estar entre as cúpulas dos dois governos. A Polícia Civil do Ceará lamentou o pronunciamento do governador do Rio, respondendo que “carece de embasamento”. O Ministério Público do Ceará não quis entrar na polêmica.
Segundo informações obtidas pelo Gaeco do Ceará, cada chefe do tráfico cearense custaria R$ 100 mil. No entanto, os promotores não sabem se o valor seria semanal ou mensal. Os promotores vieram ao Rio para o cumprimento de 29 mandados de prisão contra integrantes da cúpula do CV cearense, escondidos na Rocinha, além de 14 mandados de busca e apreensão.
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Embora só uma pessoa tenha sido presa na operação conjunta, houve a apreensão de celulares que serão analisados pelo Gaeco do Ceará. Também foi descoberta uma mansão de alto padrão, com piscinas aquecidas, cascata, área gourmet, academia, sinuca e deck panorâmico, que pertence a Anastácio Pereira Paiva, o Doze ou Paizão, de 36 anos.

Vídeo mostra piscina de mansão usada por criminosos cearenses na Rocinha
Segundo os promotores cearenses, Doze ocupa a segunda posição na hierarquia do comando do tráfico do Ceará, sendo responsável pelo município de Santa Quitéria, a maior cidade em extensão do estado. O chefe do Comando Vermelho do Ceará é José Mário Pires Magalhães, o ZM ou Bin Laden, de 39 anos, conforme informações do Gaeco.
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Os dois têm extensa Ficha de Antecedentes Criminais (FAC), incluindo homicídios e organização criminosa. Doze, segundo o MP, tem como prática executar seus rivais com requintes de crueldade. Por prazer, o traficante manda filmar as execuções que ordena. Há vídeos em que, com o auxílio de uma motosserra, seu bando esquarteja um rival aos poucos, ainda vivo. São cenas impactantes, pois a vítima assiste a tudo, sem poder gritar, até morrer. Em outra cena, bandidos fazem da cabeça de um inimigo uma bola de futebol.
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Os integrantes do CV cearense mantinham também seus negócios — como a venda de drogas e a exploração de internet e TV a cabo — diretamente da Rocinha, num esquema apelidado de “home office do tráfico” pela cúpula da segurança do Rio.
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Outros traficantes em cargo de chefia no Ceará, mas numa graduação inferior à de ZM e de Doze, também estão escondidos na Rocinha. São eles: Bruno Félix Castro, Carlos Luiz da Costa, Jairo Morais de Vasconcelos e Álvaro Luiz Martins.
Segundo o governo do estado, há bandidos de Goiás e do Pará também escondidos na Rocinha. A operação policial de sábado foi importante para fazer um levantamento de inteligência na região, conforme informou o governador fluminense. Como estratégia, foi adotado ainda realizar a ação fora dos dias da semana, quando não há aulas.
