A sorte está lançada. A Academia Brasileira de Cinema anunciou nesta segunda-feira (15) “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, como o escolhido para representar o Brasil na corrida por uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional para tentar repetir o feito de “Ainda estou aqui” (2024), de Walter Salles, atual vencedor na categoria.
- Oscar 2026: Quais os principais rivais de ‘O agente secreto’ na disputa de melhor filme internacional
- Emilie Lesclaux: Quem é a produtora por trás de ‘O agente secreto’
O anúncio ratificou um favoritismo que acompanha o longa desde o Festival de Cannes, em maio, de onde saiu com os prêmios de melhor direção e melhor ator, para Wagner Moura, além do prêmio de melhor filme pela crítica internacional (Fipresci). Nos últimos dias, no entanto, o drama “Manas”, de Marianna Brennand, se colocou como forte pretendente à vaga após a entrada de Sean Penn como produtor executivo, além do apoio de grandes empresas brasileiras e também de exibições do longa nos Estados Unidos, uma inclusive com a presença da atriz Julia Roberts. A disputa acabou agitando a reta final da escolha e as redes sociais, que ganharam tons de campanha. Após compartilhar um vídeo com cenas de “Manas” no sábado, Fernanda Torres foi alvo de críticas nos comentários de seu post no Instagram. Muitos entenderam que ela estaria “declarando voto”. Após a repercussão negativa, a atriz postou vídeos de todos os seis finalistas à vaga — “Baby”, de Marcelo Caetano, “Kasa branca”, de Luciano Vidigal, “O último azul”, de Gabriel Mascaro, e “Oeste outra vez”, de Erico Rassi, também estavam na disputa. No domingo, ela publicou novo vídeo defendendo a escolha de “O agente secreto”.
— O momento do Brasil é importante e o momento de “O agente secreto” é importante — disse Sara Silveira, presidente da comissão Brasil Oscar 2026, no momento do anúncio. — Cem por cento desses filmes são filmes bons. Teve um trabalho e pensamento dessa comissão para que a gente conseguisse chegar ao nome dessa representação. Essa escolha está no cérebro dessas 15 pessoas, foi raciocinada e pensada. Não foi luta, nem conflitos enormes. Houve uma harmonia. A gente está tendo a oportunidade de fazer uma escolha pós-vitória no último Oscar com “Ainda estou aqui”.
Em depoimento encaminhado à imprensa, Kleber Mendonça Filho comemorou a escolha: “Nossa campanha começou em maio, no Festival de Cannes, e agora segue mais forte ainda. Grande abraço por todo o apoio popular e para o comitê de seleção pela confiança a esse filme que acaba de começar a ser visto no Brasil”. Esta é a terceira vez que o diretor pernambucano tem um filme escolhido para representar o país, as anteriores foram com “O som ao redor” (2012) e “Retratos fantasmas” (2023).
Kleber, por sinal, já está preparado para viver uma maratona de compromissos internacionais nos próximos meses, parte de um cronograma pensado pela distribuidora americana, a Neon, com foco na temporada de premiações. Em participação no Festival de Brasília, o diretor falou ao GLOBO sobre o que vem por aí.
— A Neon preparou um roteiro que é incrível e ao mesmo tempo árduo. Não estou reclamando (risos), mas são muitas viagens. O filme estreia no dia 25 de novembro em Nova York, uma data muito estratégica, que marca o início de algumas votações. Depois, em 5 de dezembro, estreia em Los Angeles. Temos uma série de compromissos para mostrar o filme para membros da Academia não só nos Estados Unidos, mas também na Europa, especialmente em Madri, Paris e Londres, que têm colégios eleitorais muito significativos. Isso também pensando no Bafta e no Goya — explica. — O filme vai abrir o Festival de Morelia, no México, o de Biarritz, na França, e teremos uma sessão de gala no Festival de San Sebastián. Wagner será homenageado no Festival de Zurique, na Suíça. Também vamos pro Festival de Nova York. Depois vou para Los Angeles. Serão muitas viagens, mas fico feliz de ir atrás do filme.
Numa das próximas visitas a Los Angeles, Kleber participará de debate com a presença de Walter Salles no Museu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. O diretor espera poder aproveitar o impacto causado por “Ainda estou aqui” no ano passado.
— Acredito muito na soma. Meus filmes anteriores me levaram a “O agente secreto”. A trajetória do “Ainda estou aqui” jogou uma energia e uma luz sobre o cinema brasileiro que só faz fortalecer. Foi aberto um portal — aponta o cineasta.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/s/O/i4w2ttTYSXNQnN6sRAtQ/dscf3463.jpg)
Produtor de “Ainda estou aqui”, Rodrigo Teixeira foi um dos 15 membros da comissão da Academia Brasileira que escolheu o representante nacional. Em live da entidade, ele apontou que “O agente secreto” inicia a corrida para chegar à lista de indicados ao Oscar com mais vantagem que o filme de Walter Salles vencedor da categoria filme internacional na edição passada.
— O pedigree do filme é inacreditável, o que o Kleber fez em Cannes é histórico, não tem outra palavra para dizer. É óbvio que ele já entra com um peso muito maior que “Ainda estou aqui”, um ano atrás.
Walter Salles também destacou a escolha do Brasil para tentar a vaga na disputa novamente.
— Em primeiro lugar, viva esse ano tão fértil da nossa cinematografia. E o cinema brasileiro tem novamente a chance de ter várias indicações ao Oscar. Os prêmios de melhor direção e melhor ator em Cannes aconteceram por ótimas razões: “O agente secreto” é um filmaço, um grande filme político sobre os anos 70, um grande thriller, um grande filme sobre a paternidade e a transmissão, um grande filme sobre memória e resistência, uma grande carta de amor ao cinema. Essas qualidades indicam que ele terá vida longa. Como bem disse a Nanda (Fernanda Torres), Kleber e Wagner estão em sua plenitude enquanto criadores. Fico muito feliz por eles e pelo cinema brasileiro — comentou o cineasta em depoimento ao GLOBO.
Estrelado por Wagner Moura, “O agente secreto” se passa no final dos anos 1970, em meio ao regime militar, assim como “Ainda estou aqui”. O ator interpreta Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário e especialista em tecnologia que volta ao Recife, sua cidade natal, após anos afastado, vivendo em São Paulo, fugindo de seu passado misterioso.
Colaboraram Nelson Gobbi e Talita Duvanel.