Desde o último domingo, a editoria Mundo publicou o especial “Sonhos desfeitos”, uma série de reportagens que integra as homenagens aos 100 anos do jornal O GLOBO, celebrados neste mês de julho. A série traz relatos de imigrantes brasileiros que vivem nos Estados Unidos sob o cerco cada vez mais rígido do governo Trump à população estrangeira. As reportagens revelam episódios de prisões truculentas, operações intimidatórias e o medo cotidiano que leva muitos imigrantes a sequer saírem de casa.
- Sonhos desfeitos: Medo de deportação paralisa comunidade brasileira nos EUA, relata enviado especial do GLOBO
- Sonhos desfeitos: ‘As pessoas estão desaparecendo. Estamos apavorados’, conta imigrante brasileira nos EUA
Veja as seis histórias publicadas pela editoria Mundo:
Medo de deportação paralisa comunidade brasileira nos EUA, relata enviado especial do GLOBO
Na hora do almoço no Cantinho Mineiro, orgulhoso, como promete em suas redes sociais, de oferecer “a melhor culinária mineira em Newark”, o que mais se ouve é inglês com sotaque de Nova Jersey. O “r” final é substituído por uma vogal alargada e o “t” vira “d”, tal qual nos diálogos da série “Família Soprano” ou nas canções de Bruce Springsteen. Pede-se “buuudaaaah” em vez de “butter” e a manteiga chega em instantes. Zero problema, mas não deveria ser assim. Para desespero da dona do estabelecimento que se tornou referência da comunidade na mais populosa cidade do estado, os brasileiros sumiram.
Desde fevereiro, quando se registrou pela primeira vez a presença de oficiais da Agência de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) no bairro de Inwood, o movimento, conta a mineira Márcia Silva, 42 anos, 20 deles em Newark, foi reduzido pela metade. E nos dois Cantinhos, o original, que fica na Avenida Wilson, onde ela recebeu O GLOBO, e na filial, o da Rua Niagara, de onde ela e seus funcionários testemunharam recentemente uma batida da ICE.
— Foi às 9h30. Eles chegaram em dois carros, com vidros escuros, e uma caminhonete. Eram uns 15 oficiais, entraram nas casas, tudo muito ostensivo. Como eu poderia não entender a funcionária responsável pela salada ficar três semanas em casa depois do que viu? Não a cobrei, se acontecesse algo com ela, me sentiria culpada. O que nos define hoje aqui, infelizmente, é o medo — diz a mineira.
‘As pessoas estão desaparecendo. Estamos apavorados’, conta imigrante brasileira nos EUA
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“Sou empresária e trabalho com moda e cosméticos, tenho empresas no Brasil e em Nova Jersey, onde vivo de forma legal com minha família. Embora a comunidade brasileira estivesse apreensiva desde janeiro, quando o presidente Donald Trump retornou à Casa Branca, tínhamos fé de que só seriam levadas de nosso convívio pessoas com problemas sérios na Justiça. Era o que a propaganda republicana nos garantira. Mas, a partir do fim de maio, as pessoas começaram a ser pegas nas ruas de Newark pelos agentes da Imigração de forma aleatória — bastava que fossem fisicamente parecidas com a ideia que eles tinham do que é um brasileiro. E elas não reapareciam mais.
No dia 4 de junho, o marido de uma funcionária recebeu uma mensagem no celular. Aparentemente, era de uma ONG que ajudava pessoas sem documentos a encontrar maneiras legais de continuar trabalhando provisoriamente aqui. Era um pedido para que ele fosse a um determinado local para participar de uma reunião com o objetivo de agilizar o processo de regularização de sua situação nos EUA. O endereço não era o da Corte de Imigração, e aquilo o deixou ressabiado. Ele consultou o advogado que cuidava do caso dele.

‘As pessoas estão desaparecendo. Estamos apavorados’
O especialista o alertou sobre a possibilidade de ele ter recebido um ultimato para sair do país. Lamentou não poder acompanhá-lo e o aconselhou a ir para entender do que se tratava. Ele concordou, afinal a ONG sempre o ajudou. Mas, ao entrar no local informado, contou depois, já da prisão, percebeu que não tinha ninguém da ONG. Eram todos agentes da Imigração”.
‘Nossos filhos começaram a entender que os xenófobos não brotaram do chão’, conta imigrante brasileira nos EUA
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“O grupo dos pais da escola começou a apitar sem parar no celular por volta das 13h daquele dia no fim de maio. Uma mãe tinha visto oficiais da Imigração nas imediações da única escola pública para crianças de 4 a 11 anos localizada no nosso bairro, que fica na fronteira de dois distritos de Nova York, onde a maioria dos moradores, por décadas, era de imigrantes de origem europeia e latino-americana. Com a gentrificação iniciada nos anos em que Michael Bloomberg foi prefeito (2002-2013), o perfil foi mudando gradualmente, com a chegada de famílias americanas de classe média e alta. É esse o mix de alunos na escola onde meu filho estuda. Sou brasileira e nós dois somos cidadãos americanos, mas entre seus colegas há crianças e pais que não se comunicam em inglês, só em espanhol, e a situação legal dessas famílias é mais complexa.
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Em outro momento, em outro governo, a informação fornecida por uma mãe em uma tarde de fim de primavera provavelmente seria recebida de forma muito menos alarmante pelos outros pais no grupo de aplicativo. Mas todos nós, em maior ou menor grau, temos sido testemunha, nas ruas, parques e transportes públicos da maior cidade dos EUA, da presença de uma nova força policial, especialmente truculenta e com alvos claros: pessoas que, por sua aparência física, possam ser imigrantes sem documentos vindos da América Latina e da África.
Aos poucos, desde janeiro, quando Donald Trump retornou à Casa Branca, passou a ser comum observar homens à paisana abordando pessoas com o biotipo-alvo em vagões, plataformas e escadas do metrô. Passei a evitar cruzar a Times Square, pois a ação na área também era vistosa e aquilo me embrulhava o estômago. Li aquela mensagem com isso na cabeça.
‘Nosso maior medo se tornou tirarem nosso filho de nós’, diz casal de brasileiros nos EUA
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“Nós chegamos aos Estados Unidos no final do governo Obama, início do governo Trump. Nunca tinha sido um sonho vir para cá, mas a falta de perspectiva no Brasil era algo que pesava muito para Mário.
Nós dois temos formação superior, mas estávamos até pendendo mais para o empreendedorismo por falta de oportunidades profissionais. Tínhamos uma loja de roupa e trabalhávamos com eventos, mas eu não via nenhum plano de crescimento. Para Sandra, o que mais pesou foi o medo da violência.
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nvadiram a casa em que eu morava com meus pais duas vezes. Eu fui mantida refém. Isso me impactou muito. Tive um quadro patológico: não conseguia nem pegar um ônibus para trabalhar que passava mal. Não estava conseguindo viver”.
‘Pegam as crianças em parques’, diz brasileira que vive pela segunda vez medo de separação da família nos EUA
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“Vim com minha família aos Estados Unidos no início de 2020, sem coiotes [traficantes de pessoas]. O motivo da minha vinda foi porque sofria perseguições devido a alguns partidos políticos que eu apoiava e porque lutava por algumas causas na minha cidade. Infelizmente, a Justiça no Brasil não funcionava. Por isso, mudamos de estado duas vezes, fomos morar no Rio de Janeiro, depois em São Paulo, até tomarmos a decisão de vir para cá.
Saímos do Brasil, chegamos ao México e, dois dias depois, nos entregávamos à Imigração. Na época, ainda era Donald Trump quem governava [último ano do primeiro mandato]. Dali em diante, foram 15 dias detidos. Nós nos entregamos na cidade de Tijuana, na fronteira dos EUA com o México, e de lá fomos para Santo Antonio [Texas], onde ficamos numa cadeia durante três dias.
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Fui separada dos meus filhos. Tenho quatro, duas meninas e dois meninos. Eles vieram com 2, 3, 5 e 11 anos. Hoje estão com 6, 7, 10 anos e o mais velho completa 17 em breve”.
‘Eu rezo e falo para Deus que Ele é meu visto’, diz imigrante brasileira que vive nos EUA há 25 anos
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“Já avisei pra minha filha: ‘se eu não chegar à noite em casa e eu não estiver no trabalho, fique sabendo que fui agarrada pela Imigração’. Não se pode mais sair muito de casa. Vejo os imigrantes com medo. Os mercados, por exemplo, estão mais vazios. Eu estou sozinha aqui nos Estados Unidos. Só tenho minha filha que vai fazer 19 anos, uma adulta. Então, se eu for apanhada pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE, na sigla em inglês), corre o risco de ninguém saber. A vida não é comprada: hoje, eu estou aqui na minha casa, mas amanhã posso não estar.
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Mas, quando você chega nos EUA, não é fácil. Fiquei na casa de uma conhecida por alguns meses com meu marido, até eu começar a trabalhar em um hotel, onde fiquei seis anos. Durante esse tempo, descobri que com meu passaporte eu conseguiria tirar uma carteira de motorista. Ela está vencida há anos, mas estou com um processo em aberto para tirar uma permissão de trabalho.

‘Todos os dias, antes de sair de casa, eu rezo e falo pra Deus que ele é meu visto
O Donald Trump está muito duro com a questão da imigração. Este segundo governo dele está pior. Muito complicado. Eles não querem saber se você tem família, trabalho e amigos aqui. Quando um imigrante é preso ou deportado, seu filho fica sozinho. Muitas crianças ficam sem os pais. O ICE prende sem mais nem menos. Se eles quiserem deportar, deportam. É muito triste.
Eu estou tendo que andar com meu remédio da tireoide na bolsa. Se o ICE me pegar, não posso deixar de tomar o remédio, senão eu morro”.