A celebração dos 100 anos do GLOBO gerou a oportunidade ideal para um convite bem especial. Em julho, o jornal recebeu sete representantes de um grupo que produz um dos conteúdos mais valorizados da (e pela) casa: a seção das cartas dos leitores. De um universo de missivistas que enviam diariamente suas opiniões para O GLOBO — com as primeiras chegando antes das cinco da manhã —, foram selecionados para uma conversa alguns dos mais presentes em nosso Espaço Leitores: Isabel Penteado, Moyses Bines, Evandro Pagy, Maurício José Marchevsky, Sabrina Toledo, Mauro Bandeira de Mello e Dirceu Luiz Natal.
Em duas horas de bate-papo, eles fizeram algo que dominam: soltar o verbo sobre alguns temas e falar de sua relação com seu centenário jornal. Abaixo, uma seleção de treços do encontro.
Sobre o Rio, a gente continua a bater nas mesmas teclas. Os desvios de verbas são muito responsáveis por todos os problemas que nós temos na cidade: pouco investimento em educação, a falta de seguraça que estamos vivendo. O Rio é um cenário perfeito para uma cidade maravilhosa, mas tem muito a ser feito para que ele realmente o seja.
Todos aqui pudemos conhecer um Rio diferente. Vejo com certa tristeza o perfil da cidade não melhorando. É óbvio que temos uma natureza que nos favorece, topografia maravilhosa, praias lindas, mas uma cidade ainda como Zuenir Ventura falava, cada vez mais partida. Acho que é missão de nós missivistas pôr um pouco dessa indignação para fora. A gente está chegando a um ponto de não retorno.
Maurício José Marchevsky:
A gente está vivendo um momento tão horroroso, no mundo, no Brasil, que eu acho que a cidade ficou num plano não tão importante. Sinto muita indignação com o que vejo no Rio, mas prefiro me concentrar nessa coisa terrível que é essa divisão, esse ódio que tomou conta do país inteiro.
É uma cidade realmente abandonada. Situação principalmemte sentida pelo pessoal que mora em áreas controladas pelo tráfico, pela mílicia. O estado não está presente nesses lugares de conflito. Outra coisa que me entristece é ver o Centro, bairro tão lindo, totalmente esvaziado. Felizmente parece que o prefeito está dando algum estímulo para reverter esse quadro.
Embora concorde com todas as falas até agora, a verdade é que sou uma otimista incorrigível. Ainda tenho fé de que as coisas vão melhorar.
Eu escrevo cartas porque acho que gostaria de estar fazendo jornal, de ser jornalista. Leio muito sobre jornais. Tem um livro da Isabel Lustosa que eu acho o máximo, “Insultos impressos”, que mostra o surgimento da imprensa brasileira e a sua importância desde então. Até o príncipe escrevia matéria no jornal dele. Então, desde sempre o jornal tem essa função de poder. Participar de algum modo de um jornal é algo extraordinário. Pena que hoje não circulem mais jornais. O GLOBO é um resistente nessa tarefa, felizmente.
Maurício José Marchevsky:
Cada um tem o seu modo de ler O GLOBO. Eu também tenho. Nas segundas-feiras, vou direto à página 2 ler o Gabeira; às sextas, é a vez da Ruth de Aquino no Segundo Caderno. E durante muito tempo a leitura diária começava pelos quadrinhos do (André) Dahmer. O GLOBO ganhou merecida fama pela produção de seu noticário, de sua reportagem, mas eu avalio que o grande diferencial do jornal é seu time de colunistas: Bernardo Mello Franco, Malu Gaspar, Dorrit Harazim… nossa! Só craques.
Admiro muito a ELA. Começo de trás para a frente. Gosto demais do Bruno Astuto, que escreve sobre moda de uma maneira encantadora, depois vou para Martha Medeiros. (…) O GLOBO é um jornal totalmente diferente. A versão impressa é bem dinâmica, as matérias não são aborrecidas. Acho-o perfeito.
Vendo edições do passado no Acervo do GLOBO, você vê como o jornal acompanhou a modernidade, a evolução de sua diagramação. O GLOBO foi feita para mim.
Alguém já fez esse elogio aqui, mas repito: O GLOBO realmente tem um time de articulistas extraordinários, mas faço um senão: há falta de espaço maior para a literatura, que anda sumida dos jornais.
Vejo benefício emocional muito grande em ter uma “corte de apelação”, um lugar onde eu possa protestar, dar minha opinião, como é a seção de cartas. E onde temos espaço até para criticar colunista que achamos que não devia estar no jornal que assinamos.
Leio O GLOBO há muitos anos, continuo lendo no papel. E acho que, se ele consegue resistir há tanto tempo, é devido realmente ao seu dinamismo. As notícias são passadas de forma profunda, mas ao mesmo tempo aberta a todos.
Acho que essa questão (fake news) está relacionada às redes sociais, que dominam praticamente tudo. E esse pessoal das redes vive dentro de bolhas. E daí a polarização política. E isso vai pioriar com a inteligência artificial. Você não vai saber onde está a verdade.
Realmente é uma coisa assustadora e incontrolável. Talvez a gente vá ter que criar mecanismos próprios para combater isso. O homem que é vai ter de ser mais ainda pra poder avaliar o que é verdade e o que é mentira. Acho que todos nós vamos nos tornar pessoas mais desconfiadas naturalmente.
Eu já penso de uma forma um pouco diferente. Acredito que a inteligência artificial veio meio como que um antídoto. O sujeito (que produz fake news) vai morrer pelo próprio veneno. A IA vai ficar tão banalizada que toda essa estrutura montada nas redes sociais vai ser minada por ela. Tenho fé de que este momento assustador atual vai passar. As pessoas vão voltar a se entender melhor.
É uma maldição babélica, em que pessoas só se comunicam com as bolhas às quais pertencem. Então não adianta vir com jornalismo profissional e ético, porque essas pessoas estão encapsuladas nas bolhas, onde incentivam a desconfiança em relação a tudo que é de fora dali. Hoje (10 de julho) o Merval Pereira fala de pós-verdades do Trump. Não sei de pós-verdade. O Trump é o exemplo mais claro de que não existe mais nenhum compromisso com ética, com verdade. Pra mim, é simples: o objetivo é transformar tudo em versão, onde não existe fato, não existe verdade.
Vejo que uma coisa que está muito por trás das fake news é a polarização política. Observo isso em relação às minhas cartas. Gente que diz que não as lê porque saem no GLOBO. Também não assistem ao JN. É uma coisa radical em que gente vê que há um fundo político por trás muito acirrado.
Com o avanço da IA, a gente não tem a menor ideia do que vai acontecer a partir disso em qualquer campo, até no jornalismo. Lembro-me de Bauman, dessa modernidade líquida, a gente não sabe o que virá. A gente fica supondo coisas.
Formada em Letras pela PUC de Campinas, ela conta que lê jornais desde sempre, estimulada por pais e avós com o mesmo “vício”. Com 77 anos (“sou da safra de 1948, boa safra, por sinal!), Isabel sempre trabalhou com Educação e foi professora de Português e Inglês em várias escolas de São Paulo e do Rio. A moradora do Jardim Botânico, integrante de um coral de mulheres, mãe de dois filhos e avó de três netas (“todos muito bons na comunicação falada e escrita”), é assinante do GLOBO desde os anos 1980. “Curto muito dar minha opinião como orgulhosa missivista do nosso querido e centenário jornal.”
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É do Leblon que há 15 anos este engenheiro aposentado de 87 anos de múltiplas facetas, nascido na Praça Onze, escreve quase todo dia para O GLOBO. Casado há 61 anos, pai de dois oncologistas e avô de quatro netos, Moyses garante que seu livro de cabeceira é o fundamental “Manual de estilo e redação” do GLOBO, de Luiz Garcia. “Através de suas páginas, aprendi que a força de um argumento não reside na veemência ou na agressão, mas na capacidade de persuadir pela razão.” Para ele, o Espaço Leitores é um “fórum onde a diversidade de pensamento não é apenas tolerada, mas celebrada”.
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O rubro-negro Mauro, de 63 anos, é advogado, servidor da Câmara Municipal do Rio e especialista em processo legislativo. Fã confesso e fiel de uma turma de peso do GLOBO — Elio Gaspari, Dorrit Harazim, Roberto da Matta, José Eduardo Agualusa, Bernardo Mello Franco e Leo Aversa — , ele lê o jornal hoje centenário há meio século, de onde tirou parte da inspiração para escrever seus três livros de crônicas, o último, “Entrementes”, lançado agora. Morador da Gávea, é casado há 40 anos com Sonize e pai da já quase médica Cecília.
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Único jornalista do grupo de missivistas convidado pelo GLOBO, Evandro, de 72 anos, não acumula tantos anos assim no seu “currículo” de missivista, começou em 2021, mas rapidamente se transformou num dos mais presentes nomes da seção de cartas, com centenas delas publicadas. Não raro, manda duas ou três num dia, sobre temas diversos. “Considero esse espaço uma corte de apelação, uma bolha de oxigênio. É saber que tenho onde protestar, criticar, que serei lido e principalmente que assino embaixo.”
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Este bancário aposentado que construiu sua carreira no Banco do Brasil é referência quando o assunto é “cartas de leitores”. Suas opiniões marcadas pelo equilíbrio e pela clareza sempre tiveram lugar em algumas das principais publicações do país, como Valor, Época, Piauí e, claro, O GLOBO. Morador do Posto Cinco, Copacabana, Dirceu, de 83 anos, conta que começou a remeter suas cartas há cerca de 15 anos, quando sua ex-mulher o convenceu a utilizar a internet. “Nunca mais parei!”. Tem duas filhas e dois netos.
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Nesta turma de missivistas veteranos, a psicanalista e doutora em saúde coletiva Sabrina, de 45 anos, é uma caloura, tendo enviado sua primeira carta este mês, depois de anos testemunhando a “carreira missivista” da sua mãe, Isabel. Moradora de Botafogo, ela conta que debutar no Espaço Leitores, com uma carta alusiva ao Teatro João Caetano, fez com que se lembrasse de seu avô que foi prefeito de Atibaia e que sempre lutou pela educação e pela cultura, “base de sustentação de qualquer sociedade, sempre reiterada por nós eleitores e leitores do GLOBO”.
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Para os leitores assíduos do Espaço Leitores, a assinatura “Maurício José Marchevsky” é até dispensável para a identificação dos textos deste arquiteto de 82 anos, morador de São Conrado. É o mais conciso dos missivistas do jornal e um dos mais bem-humorados: dá o seu recado em uma, às vezes duas frases. Outro dos que têm a leitura do GLOBO no seu cotidiano há mais de meio século, Maurício vê no time de colunistas, com Bernardo Mello Franco vestindo a camisa 10, a grande força do jornal. “Só tem craque!”. É casado, tem três filhos e quatro netos.