Se somar as idades de Núbia, João e Severina, são três séculos de vida e muita história para contar. Os três completaram 100 anos em 2025, assim como O GLOBO. Nesse período, acompanharam as muitas transformações da sociedade e, principalmente, da cidade. Núbia nasceu no Rio e, ainda criança, morou na Marquês de Sapucaí — numa época em que a via, que na década de 1980 se transformou no principal palco do carnaval carioca com a construção do Sambódromo, ainda era toda residencial. Hoje só permanece assim num pequeno trecho, no Santo Cristo. Ela também frequentava, ainda na infância, desfiles de escolas de samba quando as agremiações pioneiras se exibiam na Praça Onze, perto de sua casa.
João nasceu em Bebedouro, no interior de São Paulo, e no começo da adolescência veio para o Rio. A família se estabeleceu primeiro em Botafogo. Quando o avô dele, com ideias modernas para a época, decidiu comprar um imóvel em Copacabana, foi chamado de louco. Explica-se: no começo do século passado, o bairro da Zona Sul ainda estava em desenvolvimento, longe de se tornar um dos mais populosos da cidade. Já Severina veio de Campina Grande, na Paraíba, com seis dos seus sete filhos direto para a Rocinha, onde chegou na década de 1960.
— Naquela época era uma casinha aqui e outra acolá. Não tínhamos água em casa. Era necessário buscar numa bica, onde as filas começavam a se formar ainda de madrugada — relata ela.
De lá para cá, a Rocinha se tornou a maior favela do país, com mais de 72 mil habitantes, título confirmado no último Censo do IBGE.
“Nasci em Vila Isabel, terra de Noel”. Assim, Núbia Paulo de Azevedo, que hoje mora em Anchieta, inicia orgulhosamente a entrevista para esta reportagem. Vaidosa, vestia o mesmo conjuntinho rosa, de linho, que usou na festa de comemoração do seu centenário, que reuniu 160 pessoas num clube do bairro da Zona Norte. Entre os convidados estavam seis filhos, nove netos e dez bisnetos.
Quando Núbia nasceu, em 11 de abril de 1925, o compositor Noel Rosa ainda estava longe de se tornar o “poeta da Vila”. Aos 15 anos, devia estar mais preocupado com as notas do Colégio São Bento, onde estudava, do que com a música, embora já tocasse bandolim e violão desde os 13. Somente quatro anos mais tarde, em 1929, fez sua primeiras composições: a embolada “Minha viola” e a toada “Festa no céu”, gravadas por ele mesmo.
Aos 20 dias de nascida, Núbia foi morar com a avó em Anchieta. Logo depois voltou para a companhia da mãe, que morava na casa número 25 da Rua Marquês de Sapucaí, na altura da Praça Onze. Amante do samba e do carnaval, foi lá que ainda criança testemunhou os primeiros desfiles das escola de samba — que depois foram para as avenidas Presidente Vargas e Presidente Antônio Carlos até se estabelecer na Marquês de Sapucaí, onde em 1984 ganhou um palco definitivo.
Quando Núbia nasceu, a Portela havia sido fundada havia apenas dois anos. A Mangueira seria criada três anos mais tarde. As duas agremiações estão entre as mais antigas do carnaval carioca. Ela conta que o pai era estivador e desfilava de baiana — isso mesmo; era comum na época — na verde e rosa.
Aos 9 anos ela voltou para Anchieta. Aprendeu a ler sozinha, pois o pai achava que para uma mulher bastava saber as quatro operações matemáticas — adição, subtração, multiplicação e divisão — e encontrar um bom casamento, que, no caso dela, aconteceu só aos 28 anos, com o primo Ari. Mesmo sem ter frequentado escola, Núbia sempre valorizou a educação e fez questão de que seus filhos estudassem.
Na juventude trabalhou numa fábrica de envelopes na Rua Barão de São Félix, perto da Central do Brasil. Também lavou roupa para fora. Após uma pequena passagem por Duque de Caxias, depois de casada, retornou ao bairro da Zona Norte onde vive até hoje.
— Naquela época Anchieta era só mato. Não tinha ônibus nem luz (elétrica). E as ruas eram sem calçamento. Saía daqui e ia para Vila Rosali (em São João de Meriti) a pé — conta Núbia que, entre as muitas transformações da cidade, presenciou a abertura da Avenida Presidente Vargas (inaugurada em 1944, quando Núbia tinha 19 anos).
A chegada da Avenida Brasil
Uma das primeiras “vítimas” da construção da via, com quatro quilômetros de extensão e 80 metros de largura, foi justamente a Praça Onze, perto de onde ficava a casa em que Núbia morou na infância. No ano seguinte, em 1945, foi inaugurada, a Avenida Brasil, que hoje é um dos principais trajetos até Anchieta, para quem vai do Centro ou da Zona Sul.
A jovem que já sonhou entrar para o circo — queria ser trapezista, mas a família não aprovava — era mais do carnaval de rua do que das escolas de samba, embora se declare uma mangueirense com simpatia pela Vila Isabel. Durante muito tempo desfilou no Bloco do Boi de Anchieta, criado na década de 1970 e do qual o marido era um dos compositores. Flamenguista, também deixou sua marca no futebol do bairro. Não como jogadora, mas como uma das criadoras e incentivadoras do Crioléu, time formado só por integrantes da família dela, que fez história nos campeonatos locais.
— Ela e minhas tias viravam a noite fazendo comida num fogão de lenha embaixo do pé de jamelão para alimentar a turma — lembra o filho Derli Azevedo, de 69 anos.
A centenária leva uma vida saudável. Faz fisioterapia uma vez por semana e é assistida por cuidadores. Acorda cedo, por volta das 5h, e passa a maior parte do tempo acompanhando novelas e jogos de futebol na TV. A idade e os cuidados com a saúde fizeram com que abandonasse alguns dos pequenos prazeres, como a bebida — cerveja agora só sem álcool, por recomendação médica. Mas a “fezinha” no jogo do bicho continua de pé. A família conta que seus palpites são tão certeiros que o bicheiro do bairro passou a levar o talão em sua casa, para evitar que outras pessoas apostassem nos mesmos números e quebrasse a banca.
João Cândido: morador de Copacabana desde quando bairro era um deserto à beira-mar
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A rotina de João Cândido de Lima Neto inclui a leitura diária de dois jornais — O GLOBO e Extra — pela manhã. Nos passeios diários, acompanhado de uma cuidadora, é cumprimentado por porteiros, chaveiros, jornaleiros e moradores. Quase todos o conhecem em Copacabana, para onde sua família se transferiu quando praticamente só existia no bairro o Copacabana Palace — inaugurado em 1923, dois anos antes de ele nascer. Antes moravam em Botafogo, vindos de Bebedouro, no interior de São Paulo, no início do século passado.
Entre as curiosidades sobre a Copacabana de sua infância e adolescência, João recorda que era possível jogar bola na rua, devido à ausência de carros. A Rua Figueiredo Magalhães, primeiro endereço da família no bairro, só tinha construções em duas quadras.
Grande colecionador de moedas
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), havia recomendação para que as pessoas que residiam no litoral apagassem as luzes de casa, por volta das 20h, como prevenção contra ataques. Também não era permitido frequentar a praia a qualquer momento.
— Não era a qualquer hora que se podia ir à praia. Só era permitido das 14h às 16h, dependendo da boa vontade do fiscal — conta.
Um decreto de 1917, do então prefeito Amaro Cavalcanti, criava o primeiro choque de ordem nas praias do Rio, determinando horários para os cariocas frequentarem suas areias: variavam conforme os dias da semana — aos domingos o tempo era maior — e os meses do ano. O descumprimento podia acarretar multa.
Era uma época em que o banho de mar deixava de ser meramente terapêutico e passava a virar opção de lazer. Também remontam a este decreto as bandeiras amarelas e vermelhas utilizadas até hoje para indicar se a praia está indicada para o mergulho.
Aposentado desde os 52 anos, João Cândido fez carreira no Banco do Brasil. Quando parou de trabalhar, decidiu se dedicar a alguns hobbies como colecionar moedas, carrinhos e aviões em miniaturas, entre outros. Chegou a ser citado numa publicação especializada da Inglaterra como um dos maiores colecionadores de moedas do Brasil.
Fã do cantor Frank Sinatra, no dia 26 de janeiro de 1980 foi com a família ao Maracanã assistir à apresentação do astro americano, que cantava pela primeira vez no Brasil. Na época, a imprensa estimou um público entre 140 mil e 175 mil pessoas no estádio.
— Meu pai sempre leu muito. Acho que a leitura o manteve com a cabeça boa. Também gostava muito de andar. Até os 95 anos cuidava de sua vida sozinho — conta a filha Renata, de 65.
João Cândido tem ainda mais dois filhos — João Carlos, de 73, e Lis Maria, de 70 — , além de quatro netos e três bisnetos. O centenário foi comemorado em família no dia 4 de março.
Severina Melo: de Campina Grande para a Rocinha, um enredo de novela
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O quadro com o retrato da família, que Severina Augusta Silva de Melo segura na fotografia ao lado, resume bem sua história, que mais parece um enredo de filme ou novela. Na imagem, ela posa com seis dos sete filhos, ainda pequenos, em Campina Grande, na Paraíba, após ter sido abandonada pelo marido — com a justificativa de que viria para o Rio em busca de emprego. Prometeu que voltaria para buscar a mulher e as crianças quando as coisas melhorassem, mas não cumpriu. Pelo contrário, aqui arrumou outra família.
A menina que não aparece no retrato — uma foto recortada dela foi acrescentada posteriormente ao quadro — é uma das filhas de Severina que foi dada pelo marido a uma mulher de Campina Grande, a quem ele devia favores, antes de partir para o Rio.
Transformações vistas de dentro
Tempos depois, a mãe tentou pegar a filha de volta, mas a menina já tinha se apegado à outra mulher e preferiu continuar com ela. Tinha 4 anos na ocasião, sem registro de nascimento. A mulher — uma enfermeira que cuidou de Severina após um parto complicado —, com medo de perder a menina, a registrou como sua filha e mudou o nome dela.
Só na adolescência a garota começou a se reaproximar da família biológica, mesmo morando separado. Em meados dos anos 1960, Inácio, o filho mais velho, veio para o Rio também em busca de trabalho e cumpriu o que o pai não fez: mandou buscar a mãe e os irmãos. Menos Iponira, a filha desgarrada, que depois, já adulta, se juntou definitivamente à família. Aqui todos se estabeleceram na Rocinha, onde a maioria vive até hoje.
Na cidade, Severina trabalhou como doméstica em Copacabana e depois na Tijuca. Em meados dos anos 1970, já na casa dos 50 anos, Manoel Galdino, o marido dela, se reaproximou da família e oficializou no cartório a união civil com a mulher que havia abandonado. A partir daí, os dois viveram juntos até a morte dele aos 81 anos, de infarto.
Aos cem anos, completados em 4 de maio, ao lado de cinco dos sete filhos, 31 netos, 47 bisnetos e 20 tataranetos, Severina segue serena, sem reclamar da vida. A família acompanhou todas as transformações da maior favela do país (segundo o Censo de 2022) nas últimas décadas, bem como as do vizinho São Conrado.
— Naquela época, a Rocinha era bem pequenininha. A maioria morava eram barracos de madeira — conta Severina.
Matéria publicada em agosto do ano passado pelo GLOBO mostrava a expansão vertical da Rocinha, em prédios de alvenaria com vários pavimentos, fazendo da comunidade a maior do país em densidade populacional. Fátima, uma das filhas, conta que, quando chegou ao Rio, São Conrado era um grande descampado:
— Havia apenas três bares, um boliche e um parque frequentado por famílias que vinham de toda parte. Ficava no Largo de São Conrado, onde hoje há prédios residenciais.