A clássica pracinha do bairro é mais do que uma opção de lazer. Serve de ponto de referência para a vizinhança no entorno, em especial para as crianças, que começam, naquele ambiente, a ter as primeiras experiências de socialização para além da família, e os idosos, que mantêm ali uma rotina de convívio social. Não à toa, a cultura consagrou a expressão “sujeito boa-praça”, para definir alguém simpático e de fácil trato. Mas nem sempre essa imagem de acolhimento se sustenta na prática. Um levantamento feito em 138 praças do Rio expõe que a maioria apresenta riscos para crianças — e o brincar, que deveria ser livre e seguro, pode ser perigoso.
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O relatório “Qual criança tem o direito de brincar?”, produzido pela equipe da vereadora Thais Ferreira (PSOL) e lançado há menos de um mês, aponta que 83 praças apresentam problemas como ferros à mostra, fiações expostas e grades com defeito ou inexistentes. A maioria (89%) está localizada nas periferias das zonas Norte e Oeste.
Na Praça do Largo, em Vicente de Carvalho, os moradores relatam que falta capina, limpeza, manutenção de brinquedos e reforma da grade. À noite, o que salta aos olhos é a iluminação precária.
— A praça está abandonada. Tem dois balanços, um quebrado e outro com a corrente enferrujada, prestes a despencar, e uma barra abandonada que suportava uma gangorra. Está sendo ocupada por pessoas em situação de rua. Cachorros, gatos e pombos fazem as suas necessidades ali — conta a cientista social Sabrina Chaves, moradora do bairro.
Na Praça das Musas, na Taquara, em Jacarepaguá, o cenário não é diferente. Os brinquedos estão quebrados ou malcuidados, e o piso, de terra batida, vive alagado.
Inaugurada em 2022, a Praça João Hélio, em Bento Ribeiro, fica entre duas ruas com tráfego de veículos e não tem grades de proteção. O local, que leva o nome do menino morto em um assalto, em 2007, foi inaugurado com brinquedos novos, pintura e grafite, além de paisagismo. Hoje, o muro tem tinta descascando, pichações, grama falhando, além de blocos de concreto e ferro quebrado.
— As praças são polos de convívio comunitário fundamentais para fortalecer as relações entre as pessoas e delas com a cidade. São equipamentos que mexem com a identidade dos moradores, afetam a autoestima social e o bem-estar da população. Um exemplo prático disso é que um imóvel ou um terreno é mais caro quando tem uma praça bem estruturada perto — afirma a vereadora Thais Ferreira.
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O Rio tem cerca de 2.500 praças oficialmente registradas. Mas, na prática, nem todas funcionam ou se parecem com uma. É o caso de praças “invisíveis”, como a Dona Antônia, em Santa Teresa, que virou estacionamento, e a Praça da Rua Noventa, na Ilha do Governador.
— Muitos dos locais onde passamos, que nem entraram no relatório, são colocados como praças, mas você não consegue identificar uma praça ali. O mato é muito alto, não tem identificação, mobiliário nem nome. Ou seja, não existe. Muitas praças são invisíveis justamente por conta do descuido — afirma a vereadora.
Miguel Cauã, de 4 anos, passou por um buraco na grade e se pendurou por fora, em um barranco, na praça da Rua do Jogo da Bola, no Morro da Conceição, no bairro da Saúde. O local é um platô construído em cima de uma encosta. As crianças sobem nos bancos de concreto e ultrapassam a altura do guarda-corpo, de cerca de um metro, sem dificuldade, correndo risco de cair.
— A grade é baixa e ainda tem esse buraco. Ele achou que era um lugar legal e se pendurou do outro lado. O chão é de areia, os bichinhos acabam usando para fazer as necessidades. O balanço e a gangorra enferrujaram e só sobrou esse (brinquedo) de escalar — conta a mãe de Miguel, Iacyara Helena Alves, de 29 anos.
Além dos riscos, o estudo avaliou aspectos como acessibilidade, oferta e qualidade dos brinquedos, iluminação e quantidade de lixeiras disponíveis para evitar acúmulo de resíduo. A equipe mapeou, ao longo do mês de abril, os lugares de lazer coletivo dos principais bairros da periferia que já eram acompanhados pelo mandato, e os que mais têm demandas dos moradores.
De todas as praças, apenas 38 tinham todos os brinquedos em bom estado, e três delas com brinquedos adaptados para cadeira de rodas, mas nem todos funcionam bem. Na Praça Ricardo Palma, na Lagoa, o gira-gira ou carrossel (brinquedo em que a criança fica sentada e usa a própria força para girar) está enferrujado e quase não mexe. Na pracinha no começo da Rua São Salvador, em Laranjeiras, o descuido é visível: o balanço quebrado é só um exemplo.
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As praças mais completas em todos os quesitos ficam na Zona Sul e em bairros nobres da Zona Oeste, como a Barra da Tijuca e o Recreio. A Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, é uma delas. Tem tenda do Segurança Presente com dois policiais, portões e grades reforçados, jardim e área verde conservados, vários brinquedos em bom estado, fraldário e espaços reservados para bebês.
— Meu prédio não tem play, então a praça é a salvação. A minha caçula, de 2 anos, começou a socializar aqui com outros bebês. Depois começou a andar e a ir nos brinquedos. Tem segurança. Quando quebra algum brinquedo, pode demorar um pouco, mas consertam. Às vezes tem muitas pessoas em situação de rua, mas em outro ponto — relata a servidora pública Paula Szwarc, que mora na região.
Moradora de Água Santa, na Zona Norte, Andrea Simões da Cruz prefere levar os sobrinhos e afilhados à Zona Sul em vez de recorrer às praças existentes no seu próprio bairro:
— A praça mais próxima da minha casa é conhecida como a Praça do Lixão porque em frente tem uma caçamba onde as pessoas jogam o lixo. Quando a gente quer fazer alguma coisa diferente, um piquenique, passar o dia, a gente vai na Zona Sul. Aqui não dá, tem risco de pegar tétano, uma doença, prefiro não ir.
A origem da praça remonta à Grécia Antiga. Além de ponto de encontro, era onde aconteciam as principais transações da polis (cidade). O arquiteto e urbanista Luiz Fernando Janot afirma que não existe um modelo fechado do que uma praça precisa ter para ser caracterizada como tal, mas todas precisam ser um espaço disponível e viável para uso dos moradores, de acordo com as necessidades locais.
— Cada lugar tem uma demanda específica. Os bairros são diferentes em clima, paisagem, geografia e estilo de vida das pessoas, e o planejamento urbano tem de considerar isso. A praça foi feita para atenuar a densidade urbana, é onde você tem que se sentir diferente do resto da cidade, relaxar e socializar. A população precisa deste ponto de encontro e precisa ser ouvida no projeto de uma praça — disse Janot.
No município do Rio, a Comlurb é o órgão responsável por revitalizar praças que precisam de recuperação física e estrutural, como reparo, substituição e pintura de brinquedos, mobiliário e aparelhos de ginástica, recuperação de gradis, telas, alambrados, pisos de quadras e áreas de lazer; tratamento anticorrosivo e envernizamento de estruturas metálicas ou de madeira; instalação ou substituição de papeleiras, bancos e demais equipamentos. Já poda, capina, limpeza e manutenção paisagística não são contabilizados como revitalização, pois fazem parte de rotinas operacionais específicas.
Segundo a companhia, de janeiro a maio deste ano, foram feitos 1.067 atendimentos em praças — 176 revitalizações e 891 manutenções corretivas emergenciais, para eliminar riscos. A maior parte das revitalizações, de acordo com o órgão, foi feita nas zonas Oeste e Norte, e o critério é priorizar bairros periféricos e socialmente mais vulneráveis.