Yan Burle Carvalho, de 30 anos, fo vítima de dois assaltos na mesma linha de ônibus executivo, o 2303, que liga o Centro à Zona Oeste. O trajeto inclui a Avenida Brasil, a principal via do Rio. Os bairros cortados por ela registraram um salto nos roubos em coletivos. Os crimes sofridos por Yan Carvalho estão entre os casos mapeados pelo GLOBO na série especial Mapa do Crime, com base em dados do Instituto de Segurança Pública (ISP).
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Leia o relato de quem viveu para contar a história por trás dos dados:
“Sou técnico em eletroquímica, tenho 30 anos e moro em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. Todos os dias, atravesso a cidade no ônibus executivo 2303, aquele frescão que liga o Centro ao meu bairro, passando pela Avenida Brasil. Sempre foi meu caminho de volta para casa depois de um dia de trabalho. Em maio do ano passado, dentro desse mesmo ônibus, vivi um dos momentos mais traumáticos da minha vida.
Na altura do Campinho, dois homens armados entraram no coletivo e anunciaram o assalto. Um deles rendeu o motorista na roleta. O outro veio direto pelo corredor, recolhendo tudo o que via pela frente. Não deixou escapar nada. Nem a minha aliança de casamento consegui manter comigo.
Mas ficou ainda pior. Os criminosos obrigaram a gente a fazer transferências via Pix. Além da aliança, perdi o celular e, mais que isso, a sensação de segurança de estar voltando para casa. Quem mais sofreu foi o jovem que estava sentado logo atrás de mim, João Pedro Gomes de Abreu, de 20 anos. Quando o bandido veio abordá-lo, houve uma reação. Eles entraram em luta corporal. De repente, começaram os tiros.
João Pedro foi baleado com quatro tiros nas costas. Ali, dentro do ônibus. A cena foi desesperadora. Ele foi socorrido e levado para o Hospital Municipal Pedro II, lá em Santa Cruz mesmo. Felizmente, recebeu alta no mesmo dia, mas ninguém sai ileso de uma situação como essa.
Sete meses depois, eu fui assaltado de novo — no mesmo ônibus. Dessa vez, me preparei. Tinha um celular velho no bolso, separado só para esse tipo de situação. Porque, infelizmente, a gente passa a viver refém disso. Dependo desse transporte. E como é um frescão, um ônibus um pouco mais caro, cerca de R$ 23, os criminosos acham que temos dinheiro. Mas somos trabalhadores também. Só queremos chegar em casa.
Esses assaltos acontecem sempre ali no fim da Avenida Brasil, na altura de Palmares. Tem um matagal onde esses bandidos se escondem. Depois que entram no ônibus, anunciam o assalto, fazem a limpa, e somem no mato. Não tem policiamento, os pontos são distantes um do outro. Eles têm tempo de fazer tudo com calma e fugir sem que ninguém veja nada. E a gente fica com o trauma.
Até hoje me lembro daquela noite como se estivesse vendo tudo de novo. O barulho da confusão, os gritos, os tiros. A imagem do João Pedro caído logo atrás de mim. Aquilo ali virou um campo de guerra. E o pior é que não tem escapatória. Fiquei sabendo que João continua pegando o mesmo ônibus, passando pelos mesmos pontos, com medo, mas sem opção”.
*Em depoimento à repórter Anna Bustamante