
A segunda semana após o primeiro turno das eleições presidenciais se aproxima de seu final com um quadro de disputa totalmente em aberto, mas com as duas candidaturas em momentos bem diferentes. Depois de Flávio Bolsonaro dominar a pauta na primeira semana, com a construção de alianças com partidos do centrão que o haviam esnobado antes, a segunda semana teve predomínio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que coroou a reação com a foto de uma Constituição na mão após a promulgação do fim da escala 6×1, na manhã dessa sexta-feira.
Depois de um freio de arrumação interno e uma mudança significativa de rota, Lula saiu da letargia e conseguiu gerar uma onda a seu favor nas ruas e nas redes sociais. Nas palavras de um petista, a campanha à reeleição se assemelha a um aluno que passou o ano inteiro meio relapso na escola, ficou de recuperação e na reta final corre para tentar não ser reprovado e passar de ano.
Lula conseguiu retomar o comando da pauta tanto na agenda positiva como na negativa. No primeiro caso, além da 6×1, Lula lançou medidas para beneficiar os Microempreendedores Individuais (MEI) e já conseguiu aprová-las no Congresso, contando com a ajuda dos presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, que jogam todas as suas fichas na reeleição do presidente para também sobreviverem nos seus cargos atuais. E agiu em outras frentes, como a pressão sobre o setor de combustíveis para repassar a desoneração anunciada na sexta-feira da semana passada, que começou a chegar nas bombas.
Na agenda negativa, a campanha petista tem empurrado o bolsonarismo para a defensiva, sobretudo no tema fiscal, ao acusar a Flávio e seu time de preparem um corte de gastos que vai causar perdas para os trabalhadores e para as pessoas mais pobres do país. O flanco foi aberto pela sinalização de corte de 1,5% do PIB em despesas no primeiro ano de governo combinada com a proximidade explícita com o argentino Javier Milei, que esteve no lançamento da campanha do senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Apesar de acusarem os petistas de praticar fake news nesse tema, é fato que a campanha bolsonarista não detalha de onde viriam os cortes substanciais que promete (reduzir ministérios e penduricalhos passa longe de resolver o problema fiscal, e diminuir conta de juros por tirar o PT não pode ser considerado uma proposta) e tampouco anuncia explicitamente um recuo em torno da sinalização de 1,5% de redução de gastos.
Um dos apoiadores de Flávio, cogitado para ocupar uma pasta econômica caso ele vença, Marcelo Kayath, mostrou que a promessa só seria factível sem comprometer programas e o crescimento econômico em um horizonte mais alongado, mas ele não fala pela campanha e ninguém da cúpula bolsonarista sancionou a ideia dele.
O que Flávio e seu time têm feito para tentar mitigar o problema é dizer que não haverá redução de programas sociais e que o salário mínimo terá aumento real, mas sem compromisso com um número ou desenho específico de política.
Setores da campanha bolsonarista reconhecem que os últimos dias, especialmente a partir do feriado, foram mais favoráveis a Lula. Ponderam, contudo, que os efeitos foram mais derivados da campanha negativa e que a agenda de propostas e promessas não estaria alterando o teto e nem reduzindo a rejeição do presidente. A tese foi de certa forma corroborada com os números do Datafolha, que mostraram uma queda na intenção de voto de Flávio Bolsonaro de 49% para 47% e manutenção do nível de Lula em 45%.
Interlocutores bolsonaristas destacam ainda que, a despeito da onda dessa semana ter sido a favor do PT, Flávio segue numericamente à frente em praticamente todos os levantamentos, mantendo seu favoritismo, e que oscilações são naturais. E apostam que os movimentos de rua nesse fim de semana, especialmente na avenida Paulista no domingo, vão ajudar a quebrar a onda.
Com o início das entrevistas ao Jornal Nacional e os debates com confronto direto entre os dois, a disputa entre em sua reta final e fase de maior imprevisibilidade. Na primeira sabatina, ontem, Lula se saiu bem ontem, com poucas escorregadas e mantendo o ânimo positivo do petismo. Hoje, será a vez de Flávio sentar-se na bancada da GLOBO e trabalhar para tentar manter sua liderança. No domingo, será o primeiro debate, na Band, e na próxima sexta, o da GLOBO. Quem vai criar e surfar a último onda até o dia 25?